
O ator Henri Castelli deixou o Big Brother Brasil 26 após sofrer duas crises convulsivas em um intervalo de poucas horas, episódio que levou a equipe médica do programa a recomendar sua internação e o afastamento definitivo do reality.
A saída foi confirmada pela TV Globo na noite de quarta-feira (14), depois do segundo evento neurológico registrado ainda na casa. A primeira convulsão ocorreu durante a Prova do Líder, após cerca de 10 horas de resistência. Castelli foi atendido no local e encaminhado a um hospital no Rio de Janeiro, onde passou por exames iniciais.
Liberado pela equipe médica, ele retornou ao confinamento no início da tarde. Menos de meia hora depois, o ator sofreu uma nova convulsão e voltou a ser hospitalizado, permanecendo em observação.
Embora ainda não haja confirmação oficial de que as convulsões estejam diretamente ligadas a uma condição neurológica prévia, o caso chamou atenção para a parestesia crônica, sequela que o ator desenvolveu após uma agressão sofrida no fim de 2020, em Alagoas, que resultou em fratura exposta na mandíbula e múltiplas cirurgias de reconstrução facial.
O que é parestesia crônica?
A parestesia é uma alteração da sensibilidade caracterizada por sensações anormais, como formigamento, dormência, perda parcial de sensibilidade ou sensação de peso em determinada região do corpo. Quando esse quadro se mantém ao longo do tempo, passa a ser classificado como parestesia crônica.
No caso de Henri Castelli, a condição se manifesta principalmente no lado direito do rosto e no queixo. Em entrevistas passadas, o ator descreveu a sensação como se a boca estivesse "pendurada", reflexo do comprometimento neurológico decorrente do trauma facial.
Segundo a neurologista Fabiane Battistella Nieto, da Santa Casa de Porto Alegre, a parestesia pode surgir quando há lesão em áreas específicas do cérebro responsáveis pela sensibilidade.
— Um trauma cranioencefálico pode causar microlesões no córtex cerebral, especialmente em regiões parietais ou parieto-frontais, que são responsáveis pela sensibilidade. Esse dano pode gerar déficits neurológicos focais, como as parestesias — explica a especialista.
Parestesia pode estar ligada a crises epilépticas
A médica ressalta que, em alguns casos, a parestesia não é apenas uma sequela estática, mas pode representar manifestações de crises epilépticas sensitivas, um tipo menos conhecido de epilepsia.
— Nem toda crise epiléptica é convulsiva. Existem crises sensitivas, que se manifestam como alterações de sensibilidade, formigamentos ou dormência, e que podem passar despercebidas — afirma.
Essas crises podem ocorrer de forma intermitente, como o próprio ator relatava, com episódios que surgem e desaparecem. Em determinadas situações, no entanto, a descarga elétrica anormal no cérebro pode se propagar para outras áreas, evoluindo para uma crise convulsiva mais grave.
— Em contextos de estresse intenso, privação de sono, jejum prolongado ou desidratação, essas descargas podem se espalhar para regiões motoras do cérebro e resultar em uma crise tônico-clônica generalizada — diz Fabiane.
O que é uma convulsão?

A convulsão é uma manifestação clínica provocada por uma descarga elétrica anormal, excessiva e síncrona de neurônios no cérebro. O quadro costuma envolver contrações musculares involuntárias, movimentos desordenados e, muitas vezes, perda de consciência.
— Os neurônios passam a disparar de forma descontrolada, e o cérebro não consegue inibir essa atividade. Quando essa descarga atinge uma quantidade significativa de neurônios, ela se manifesta clinicamente — detalha Fabiane.
Nem toda convulsão significa que a pessoa tenha epilepsia. Uma crise isolada pode ser sintoma de diferentes problemas, como trauma na cabeça, infecções, tumores cerebrais, alterações metabólicas ou falta de oxigênio no cérebro.
A epilepsia é diagnosticada quando há uma predisposição do cérebro a gerar crises recorrentes.
Por que convulsões acontecem
As causas são variadas e incluem:
- Traumatismo cranioencefálico
- Acidente vascular cerebral (AVC)
- Infecções do sistema nervoso central, como meningite
- Tumores cerebrais
- Falta de oxigênio no cérebro
- Hipoglicemia, especialmente em pessoas com diabetes
- Uso ou suspensão abrupta de certos medicamentos
- Epilepsia
Por isso, uma primeira crise convulsiva sempre exige investigação médica detalhada, com exames de imagem e laboratoriais.
É comum ter duas convulsões no mesmo dia?
De acordo com a neurologista, a recorrência de crises em um curto intervalo de tempo pode acontecer e aumenta o risco de novos episódios.
— Quando ocorre uma segunda crise no mesmo dia, o paciente já entra em uma zona de maior risco para uma terceira. Nesses casos, a decisão de afastar a pessoa de atividades estressantes e aprofundar a investigação é a mais segura — destaca.
Esse cenário pode indicar a necessidade de iniciar tratamento medicamentoso contínuo, a depender dos resultados dos exames.
Como agir diante de uma crise convulsiva
O Ministério da Saúde e a Associação Brasileira de Epilepsia orientam que, ao presenciar uma convulsão, as pessoas devem:
- Manter a calma e acionar o SAMU (192)
- Deitar a pessoa de lado, para evitar aspiração de saliva ou vômito
- Afastar objetos que possam causar ferimentos
- Amparar a cabeça com algo macio
O que não deve ser feito:
- Não colocar objetos ou a mão dentro da boca
- Não tentar conter os movimentos à força
- Não jogar água no rosto da pessoa
— A língua não é engolida durante uma crise. O maior risco é a pessoa que tenta ajudar acabar se machucando ou causar fraturas ao tentar imobilizar o paciente — alerta Fabiane.
Vale ressaltar ainda que, se for a primeira convulsão da vida, a ida ao pronto-socorro é fundamental, mesmo que a crise tenha cessado.
Já pessoas com diagnóstico conhecido de epilepsia podem, em alguns casos, não precisar de atendimento imediato, desde que não haja ferimentos ou alterações prolongadas da consciência.
Parestesia crônica tem tratamento?
Quando a parestesia é causada por lesão central, como um trauma cerebral, as opções de tratamento são limitadas.
— Diferentemente da dor neuropática, a perda de sensibilidade nem sempre responde bem aos medicamentos. Em muitos casos, o acompanhamento é clínico, com exames periódicos para monitorar possíveis complicações — aponta a neurologista.
No caso de Henri Castelli, a parestesia é considerada uma sequela permanente do trauma facial. Segundo a médica, alterações neurológicas decorrentes de agressões podem, anos depois, favorecer o surgimento de descargas epilépticas.
— É um circuito que pode se formar ao longo do tempo. O trauma ocorreu em 2021, e agora, em 2026, pode ter culminado em crises convulsivas. Mas cada caso precisa ser analisado individualmente — ressalta.
Epilepsia tem cura?
Geralmente, a epilepsia não tem cura definitiva, mas pode ser controlada com tratamento adequado. Medicamentos anticonvulsivantes conseguem evitar novas crises na maioria dos pacientes.
Em situações específicas, como quando há uma lesão cerebral bem localizada, cirurgias podem até eliminar a doença. Apesar do susto, o prognóstico costuma ser positivo quando há diagnóstico precoce e acompanhamento médico regular.
— Com tratamento adequado e alguns cuidados no dia a dia, é possível levar uma vida praticamente normal — conclui a neurologista.

