
A demora para realização de cateterismo cardíaco tem gerado reclamações em Canoas, na Região Metropolitana. Na cidade, a instituição habilitada para procedimentos do tipo é o Hospital Universitário.
Segundo a Secretaria Estadual da Saúde (SES), a instituição tem dois equipamentos de hemodinâmica, que permitem a realização de cateterismo cardíaco. Porém, um dos aparelhos está inoperante desde setembro de 2025 e o outro tem necessidade de manutenções frequentes. Esse aparelho passava por reparo e ficou pronto, conforme atualizou o hospital nesta segunda-feira (12). A instituição garante que a retomada dos exames com pacientes internados deve ocorrer nesta terça.
Como esclarece o Ministério da Saúde, cateterismo é o procedimento médico de introduzir um cateter, um tipo de fio longo, para acessar várias partes do corpo. No caso do coração, serve para diagnosticar e tratar problemas como entupimento de artérias que levam sangue para o músculo do coração.
"Não tem um aparelho essencial funcionando?"
A demora afetou a família de Joaquim José Martins, 64 anos, que está internado no hospital via Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a filha, a autônoma Alana Farias Martins, 37, o homem teve uma piora no quadro devido à espera para realização de cateterismo.
— Tem um hospital referência, mas o hospital referência não tem um aparelho essencial funcionando? — questionou Alana, na última semana, quando o equipamento estava estragado.
Ela explica que, em dezembro, o pai relatou estar com uma dor no peito e buscou atendimento na Unidade Pronto Atendimento (UPA) Rio Branco. O diagnóstico foi de pneumonia.
Com os remédios, Alana lembra de o pai ter contado que a dor não passava, o que fez com que retornasse à UPA. Foi constatado, então, um infarto. A filha explica, ainda, que Joaquim ficou na UPA e, no fim de dezembro, foi transferido para o Hospital Universitário de Canoas.
Alana afirma que o pai estava estável e consciente no hospital até ter sofrido outro infarto e uma isquemia cerebral. A filha reclama que as informações que chegaram à família ficaram desencontradas. Hoje, segundo Alana, Joaquim está sedado, entubado e com um quadro de insuficiência renal.
— Meu pai vai ficar com alguma sequela? Não sabemos, só depois de acordado. Mas ele vai ficar por quê? Foi porque ele deixou de procurar ajuda? Não, é porque ele foi negligenciado lá no início, no meio e agora no fim — acrescenta.
A queixa parte também de um paciente que está no Hospital Universitário. Rudnei de Moraes, 50 anos, conta ter tido um episódio de infarto em 25 de dezembro. Ele relata que ficou três dias na Policlínica de Nova Santa Rita, cidade onde mora, e depois foi transferido para Canoas, também via SUS. Desde então, diz aguardar a realização de cateterismo e ver pessoas no quarto passando pela mesma situação.
— Isso não pode ser certo... ficarmos tanto tempo trabalhando, pagando impostos e virmos para um hospital ficar três ou quatro meses para fazer um procedimento que é coisa de 20 minutinhos — argumenta.
Número mínimo de equipamentos
Conforme a SES, uma portaria do Ministério da Saúde exige o mínimo de um equipamento de hemodinâmica por unidade habilitada. Ainda segundo a pasta, no Estado, há hoje 22 prestadores habilitados a realizar o procedimento e 48 equipamentos de hemodinâmica para atendimento via SUS.
"Vale destacar que esses equipamentos não são exclusivos para o SUS, pois cabe ao prestador definir a distribuição do uso conforme sua demanda e organização interna", afirma a pasta.
A secretaria identificou 85 equipamentos, com 81 em uso, em todas as modalidades de atendimento no RS, incluindo convênios, consórcios e entidades privadas. A pasta também afirma que, no ano passado, repassou recursos para Lajeado e Novo Hamburgo ampliarem a disponibilidade de procedimentos de hemodinâmica para "diminuir as dificuldades de acesso enfrentadas pelos usuários de toda a região Metropolitana".
Sobre a situação de Canoas, diz que os serviços do SUS são geridos pelo município, com menor intermediação do Estado. "Portanto, cabe ao gestor do contrato (município) junto ao seu prestador garantir a assistência integral aos usuários, conforme as habilitações do Ministério da Saúde", explica.
O Hospital Universitário pertence à prefeitura de Canoas e é gerido pela instituição Associação Saúde em Movimento (ASM). A assessoria da Secretaria de Saúde de Canoas sugeriu que a reportagem contatasse diretamente o hospital para esclarecimentos.
O que diz o hospital
O Hospital Universitário de Canoas confirma que os equipamentos de hemodinâmica da instituição estão "além da idade útil recomendada pelo fabricante" e, por conta disso, precisam de maior tempo para reparo e manutenção preventiva.
Ainda segundo o hospital, um aparelho do tipo custa cerca de R$ 3,5 milhões, o que inviabilizaria a compra apenas com recursos repassados a título de custeio. Por conta disso, a organização que administra o hospital fez um movimento em 2025 atrás de emendas parlamentares e recursos federais.
"Para isso, buscamos R$ 32 milhões em emendas com a finalidade específica de recuperar o parque tecnológico do hospital — inclusive, com a compra de 2 novos equipamentos de Hemodinâmica, utilizados para os exames de cateterismo, angiografias e desobstruções vasculares", ressalta.
Sobre transferências de pacientes, o hospital informa que o processo ocorre via sistema de regulação do Estado. Desse modo, o paciente deve ser inserido e aguardar que um hospital habilitado para o caso aceite recebê-lo. "As vagas disponíveis nesse sistema obedecem o plano operativo de cada instituição", explica a instituição.



