
— É uma certa tristeza leve que você carrega no dia a dia. Um certo grau de insatisfação, embora você não consiga nomear exatamente qual é a causa — descreve um homem de 62 anos com diagnóstico de distimia.
Baixa autoestima, desânimo e introversão sempre estiveram presentes, em alguma medida, na vida do morador de Caxias do Sul, na Serra. Embora tenha iniciado terapia aos 23, o diagnóstico demorou décadas – apenas há cerca de três anos ele passou a compreender a origem desses e de outros sentimentos.
Características muitas vezes utilizadas para descrever uma pessoa de "personalidade difícil" podem, em alguns casos, esconder um transtorno mental – como a distimia. Classificada como transtorno de depressão persistente, a condição ainda é pouco conhecida pela população.
— É uma condição mental que te torna pessimista, desesperançoso. Quando você pensa em fazer alguma coisa, você pensa mais no trabalho que dá para fazer aquilo do que no benefício que vai ter. A gente fica mais retraído, menos sociável — compartilha o secretário, que preferiu não se identificar por receio do estigma atrelado aos transtornos mentais.
Ainda que essa seja uma condição comum na prática médica, o diagnóstico nem sempre é fácil. Ao contrário da depressão clássica – marcada por episódios graves e relativamente curtos, normalmente motivados por uma situação, e intercalados por períodos sem sintomas –, a distimia se caracteriza por sintomas leves, crônicos e ininterruptos, que perduram por mais de dois anos (em crianças e adolescentes, mais de um), podendo chegar a décadas.
Devido à menor intensidade, é conhecida como depressão de alto funcionamento: apesar de ser extremamente desgastante emocionalmente, não chega a ser incapacitante. Nos consultórios, são comuns relatos de que os pacientes se sentem assim a vida inteira. A condição costuma afetar mais as mulheres.
— Há um prejuízo funcional, mas a pessoa consegue exercer sua profissão, se relacionar. Então, muitas vezes, essa condição fica mascarada. Ela não é reconhecida e, muitas vezes, é confundida até com um traço de personalidade, com um jeito de ser do indivíduo, não considerada uma patologia passível de tratamento — explica Lucas Spanemberg, psiquiatra do Hospital São Lucas e professor de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Em 2013, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição (DSM-5) redefiniu o conceito clássico de distimia, unificando-o com o transtorno depressivo maior crônico, com sintomas intensos – sob a nomenclatura "transtorno depressivo persistente". Com isso, o reconhecimento e, consequentemente, a conscientização a respeito da condição foram empobrecidos.
Antes da alteração, a definição estava centrada em transtorno distímico. Spanemberg e outros especialistas propõem a necessidade de se rediscutir a nomenclatura, de modo a resgatar a distimia como um conceito bem definido – o que julga necessário para que as pessoas sejam reconhecidas e tratadas.
Compreendendo os sintomas e as causas
Conforme o DSM-5 e os especialistas, os sintomas da distimia incluem:
- Desesperança e falta de perspectiva
- Alterações de humor, humor triste e abatido
- Menor expansividade
- Baixa autoestima
- Cansaço, desânimo, falta de energia e de motivação
- Dificuldade de sentir prazer (anedonia)
- Sentimento persistente de preocupação
- Alterações de apetite
- Alterações de sono
- Dificuldades de concentração, memória, tomada de decisões e de persistência
Sensação de inadequação, de fracasso, de estar sempre no modo automático e excesso de autocrítica também costumam estar presentes, acrescenta a psicóloga Caroline Couzem.
Distímicos são pessoas mais introvertidas, que, no ambiente de trabalho, podem ser mais quietas e menos participativas ou criativas, exemplifica o psiquiatra Marcelo Fleck, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Programa de Transtornos do Humor do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA):
— Ela faz o "feijão com arroz". Tudo dá para o gasto, ela não vai ter uma grande falha, alguma grande mudança, só que ela sempre vai funcionar um pouco aquém, ou, às vezes, muito aquém do que poderia. E quem observa, de fora, às vezes, não percebe o esforço que aquela pessoa está fazendo para manter aquele feijão com arroz. É desproporcional o que aparenta a vivência da pessoa do que está acontecendo.
A interação é mais básica e há menos abertura social, reconhece o paciente, o que ele atribui a uma dificuldade de estabelecer uma motivação – para ele, o custo parece não compensar:
— Você vai criar uma espécie de máscara provisória em que você vai lá, toma um chope, dá risada, conversa… mas diante de um esforço — desabafa. — (A pessoa se questiona) O que tem de errado comigo, que eu estou sempre insatisfeito? Ah, o dia está tão bonito hoje, eu podia dar uma caminhada e ir lá na praça, por que isso é tão difícil para mim? É uma coisa interna.
Assim como em outros transtornos mentais, a causa é multifatorial: pode estar relacionada a fatores genéticos, ambientais, como experiências de vida – incluindo negligência, abandono e trauma, considerados fatores de risco –, e à própria organização cognitiva.
A distimia normalmente surge ainda na adolescência ou no início da vida adulta, de acordo com o Ministério da Saúde, mas também pode emergir durante a infância. Com início insidioso, mistura-se ao desenvolvimento da pessoa ao longo da vida, o que gera a impressão de um jeito de ser, conforme os especialistas. Por isso, muitos não procuram ajuda – apenas quando o quadro se agrava.
"Acaba minando a vida": as consequências para o paciente
A condição leva à dificuldade de se relacionar, inclusive no ambiente de trabalho. Ela acaba minando a vida da pessoa, destaca Marcelo Fleck:
— É como se ela vivesse com um freio de mão puxado durante muito tempo, e só se dá conta de que isso estava acontecendo depois que melhora e percebe que aquilo não era dela propriamente dito, mas eram sintomas que dificultavam o funcionamento dela.
Em muitos casos, embora os sintomas sejam mais leves, a distimia tem maior impacto na qualidade de vida do que a depressão clássica. Uma pessoa com depressão maior pode passar por um mês de sintomas graves e cinco anos de bem-estar; já a pessoa distímica vive cinco anos em um estado de humor persistentemente rebaixado, de forma "mais ou menos", explica o psiquiatra.
A distimia é um fator de risco para a depressão grave. Há uma relação intrincada entre as duas condições, que podem se sobrepor – um antigo conceito chamado de depressão dupla.
Se não tratada, a distimia ainda pode levar a outros transtornos psiquiátricos, como de personalidade, ansiedade, síndrome do pânico – daí a importância de buscar ajuda para diferenciar condição e personalidade, bem como tratar os sintomas.
— Quanto mais cedo, menor vai ser esse impacto a longo prazo. Vai evitar que esse sintoma se cronifique — aponta a psicóloga Caroline Couzem.
O paciente com distimia também está mais sujeito a adotar comportamentos para aliviar os sintomas, como o uso de substâncias, o que pode reforçar esse tipo de estratégia e levar a outro problema: o uso crônico.
Tratamento para viver melhor
Os indivíduos que se tratam têm maior potencial de viver melhor e não conviver com sintomas, destacam os especialistas. O tratamento é composto pelas mesmas estratégias para episódios depressivos: medicamentos e psicoterapia, principalmente terapia cognitivo comportamental (TCC) e terapia interpessoal para depressão, além de atividade física regular. O período varia para cada paciente.
Dado o alto risco de retorno dos sintomas ao interromper o tratamento – trata-se de pessoas com tendência a funcionar de modo deprimido –, os psiquiatras evitam falar em cura. Ainda assim, há pacientes que melhoram e suspendem o tratamento. Em todos os casos, o acompanhamento regular é considerado fundamental.
O morador de Caxias com quem a reportagem conversou conta que a terapia o ajudou com estratégias para lidar e se desafiar – e ele incentiva outras pessoas que se identificam com os sintomas a buscar ajuda:
— Por experiência própria, não é o estado natural do ser humano estar permanentemente, constantemente insatisfeito, de baixo astral, distímico.



