
O psiquiatra gaúcho Christian Kieling é um dos grandes nomes da pesquisa em saúde mental de jovens no país, com reconhecimento internacional por sua contribuição à pesquisa na área. Kieling dirige a Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do Hospital Moinhos de Vento e também é professor na UFRGS, onde coordena o Programa de Depressão na Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Liderado pelo pesquisador, um estudo da UFRGS aponta que uma em cada 10 pessoas na faixa etária entre cinco e 24 anos — cerca de 293 milhões de crianças, adolescentes e jovens adultos —, apresenta, ao menos, um transtorno mental.
Na entrevista a seguir, Kieling aborda o isolamento social, citado pelos próprios adolescentes como uma característica da experiência de estar deprimido, e o impacto da conexão social como um elemento-chave em prevenção e tratamento. Pontua também que as mídias sociais promovem uma interação muito mais passiva do que de conexão e ressalta o que ainda é preciso pesquisar na área de saúde mental entre jovens.
Como a conexão social impacta a saúde mental deles e como esse tema aparece hoje nas pesquisas que tens participado?
Posso citar o trabalho de uma aluna minha do doutorado, a Anna Viduani, do qual participei e que é muito interessante pela proposta de buscar entender como é a experiência do jovem, do adolescente, quando ele passa por uma depressão. Porque hoje, e isso não é uma crítica apenas minha, mas de muitos psiquiatras e outros profissionais da área, temos os critérios de diagnóstico muitas vezes se confundindo com o fenômeno da depressão em si. Isso acaba empobrecendo o que entendemos como problemas de saúde mental. Então, o trabalho da Anna vai além disso. Trata-se de uma metassíntese de 39 estudos, de 16 países, com 884 relatos desses jovens. E o que nos chamou atenção nesses relatos é que logo depois de tristeza como principal característica apontada por eles, vêm o isolamento social e a solidão. Então, encontramos dois itens que não estão no DSM (sigla para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, na tradução Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que classifica e define transtornos mentais) como um critério diagnóstico oficial de depressão e são centrais na experiência de como é estar deprimido para o adolescente.
E o que significa isso, então, na prática?
Quando encontramos frequentemente esse relato, começamos a enxergar e a entender que talvez esteja por aí uma saída, tanto para a prevenção dos problemas de saúde mental quanto para o próprio tratamento. Se formos pensar a depressão como um fenômeno que vai além dos itens do DSM, entender que a conexão social é fundamental para uma saúde mental adequada, ela se torna um elemento-chave dentro de um tratamento. Não vamos deixar de lado a psicoterapia ou a própria medicação, nos casos que têm essa indicação, essas são estratégias que já estão consagradas na literatura e na prática clínica, mas muitas vezes elas podem não ser suficientes sozinhas. Um jovem tomar um antidepressivo e ficar fechado dentro do quarto, dificilmente vai melhorar de uma depressão, ou mesmo sair do quarto só para ir na terapia e voltar para casa e se trancar de novo.
Você diz que os transtornos mentais na infância e na adolescência são a principal causa de redução de anos de vida saudável entre os jovens. Pode explicar?
Esse dado é do estudo GBD, que é o Global Burden of Disease (Carga Global de Doença, na tradução). Até o final do século passado, em saúde, medíamos o impacto das doenças através da mortalidade. Aquelas que matam bastante são doenças que são importantes. As que não matam muito não são tão importantes. Faz sentido um pouco. Mas é uma parte da história só. Existem muitas condições de saúde que têm uma mortalidade não tão expressiva assim, mas tem uma morbidade ou um impacto na qualidade de vida muito grande. Apesar dos transtornos mentais também estarem associados à redução da expectativa de vida, seja por suicídio, seja inclusive de outras razões, o grande peso dos transtornos mentais está na redução da qualidade de vida. No estudo GBD, temos essa estimativa. O termo, usado em inglês, é Disability Adjusted Life Years, podemos quantificar para as diversas doenças. Se olharmos os grupos de doenças – como oncológicas, infecciosas, etc. –, os transtornos mentais na faixa etária dos cinco aos 24 anos ocupam o primeiro lugar em termos de redução de anos vividos com qualidade.
E como trabalhar prevenção com jovens e adolescentes? Atuar antes que o problema chegue e se instale?
Essa é uma pergunta para a qual ainda não temos uma resposta definitiva, estamos justamente expandindo a nossa área de pesquisa nessa frente. Mas já temos elementos suficientes para entender que a conexão social tem tudo a ver com isso. E aqui é legal fazermos uma distinção entre solidão e isolamento social. São fenômenos que às vezes se confundem, e a própria literatura científica, às vezes, não tem totalmente clara a diferença entre um e outro. A solidão é um sentimento subjetivo que pode ocorrer mesmo em meio a outras pessoas.
Mas vemos hoje que, muitas vezes, o jovem que começa a desenvolver sintomas, seja de depressão ou até mesmo de ansiedade, acaba se isolando, começa a não responder a convites, não se engajar em atividades com os outros. Para completar essa história, temos as mídias sociais no meio, e eu certamente não quero demonizar no sentido de trazer esses elementos como grandes ou únicos responsáveis, mas muitas vezes elas podem permitir esse isolamento de maneira meio paradoxal. Eu posso estar de maneira mais isolada no meu quarto, na minha casa, fechado, estar tendo algum tipo de “conexão”, e vou colocar muito entre aspas aqui, mas não me conectar de verdade.
CHRISTIAN KIELING
Psiquiatra e professor da UFRGS
Então, temos cada vez mais visto que não é uma questão só de quantidade de tempo que o adolescente passa nas redes, mas muitas vezes a qualidade da maneira como essas ferramentas são utilizadas. Acho que elas têm um potencial positivo, minha ideia não é só, como eu falei, demonizar. Mas, infelizmente, o caminho que temos visto essas ferramentas tomarem é de oferecer uma interação muito mais passiva, em que mais recebemos coisas do que, de fato, ativamente nos engajamos, o que pode dar, às vezes, uma falsa sensação de conexão.
Falando em redes sociais, vi que em um artigo você mencionou sobre a complexidade de estudá-las, dada a velocidade com que as dinâmicas de interação mudam nesses ambientes.
Quando dou palestra, eu brinco sobre um estudo que saiu no JAMA Pediatrics, que era sobre o impacto dos mp3 players. No momento que saiu o artigo, já ninguém mais usava mp3 player (risos). Mas acho que hoje, independentemente de olharmos para mídias específicas, há um padrão meio geral de essas ferramentas tecnológicas estarem muito mais preocupadas em favorecer um algoritmo de predição de interesses para consumo do que propriamente uma conexão bidirecional ou multidirecional entre as pessoas que estão envolvidas ali. Mas da minha interação com os jovens, o que escuto é que eles não costumam postar muito. Mesmo stories, mesmo coisas mais fugazes. Então, me parece que é muito para consumir. E é difícil de pensar numa conexão nesse fluxo de informação.
Você citou um aspecto interessante sobre conexão ser também sobre se colocar em risco e que, quanto a isso, é preciso desmistificar sobre perfeição das conexões.
A conexão exige os dois lados; é aquela situação de se colocar em risco, porque quando eu vou me conectar com alguém, estou colocando em risco que, de repente, a pessoa não vai querer conectar comigo. De certa maneira, sinto que estamos perdendo essas oportunidades de aprender a lidar, inclusive, com situações de rejeição. Rejeições, claro, que são difíceis, são doídas, não estou dizendo que devemos provocar isso de propósito, mas também sabemos que isso faz parte, inclusive, do desenvolvimento emocional de cada um de nós. Esse tipo de oportunidade, a meu ver, as mídias sociais estão dificultando que aconteça. A ideia de conexão não é que eu vou me dar bem com todo mundo, vou ser amigo de todo mundo o tempo inteiro. Acho que também esse é um aspecto importante de desmistificar, porque acho que isso também pode gerar um peso talvez desnecessário para o jovem. A mensagem que queremos passar não é “tu tens que ser a pessoa mais popular o tempo inteiro, todo mundo tem que gostar de ti, tudo tem que ser ótimo”. Porque entendo que alguns jovens até podem estar saindo dessas conexões justamente por acharem que, se eu entrar nesse jogo, tenho que ganhar todas. E não é. Conexão também é desconexão. Por mais paradoxal que seja, a conexão também tem momentos que vamos ter que desconectar de uma pessoa porque a gente se interessou mais por outra, porque, de repente, os nossos interesses mudaram por uma série de questões. Certamente, conexão é algo saudável, mas não é algo que devemos buscar que vai ser perfeito o tempo inteiro.
Como pesquisador, o que você avalia que ainda precisa ser estudado para que possamos evoluir cada vez mais na prevenção de transtornos mentais nessa faixa etária?
Hoje já temos estudos bem interessantes que podem predizer quem vai desenvolver depressão na adolescência. Mas já entendemos que identificar o risco é só a primeira parte da história. Temos que, necessariamente, até por motivos éticos, ter o que oferecer para a população que está em alto risco. Então, isso é o que pretendemos desenvolver no futuro, uma intervenção focada na prevenção e na intervenção de indivíduos em alto risco para depressão. O que eu posso dizer é que todos os dados de pesquisa nos mostram que essa intervenção vai ter que ter alguns componentes, e um que é chave é a conexão social, que sistematicamente tem aparecido nos estudos quantitativos e qualitativos que temos feito. Como me conectar mais com os outros, seja com os meus pares, com outros adolescentes, outros jovens, com a minha família, eventualmente com a minha escola, ou mesmo no ambiente de trabalho. São estudos que usam técnicas de desenvolvimento participativo, de co-design, para o desenvolvimento de uma intervenção preventiva junto aos jovens.
O Vibe Real é uma iniciativa do Planeta Atlântida que, por meio de ações e conteúdos 360º nas redes sociais e nos veículos do Grupo RBS, propõe incentivar conexões reais entre os jovens. O projeto reforça o compromisso do festival, que completa 30 anos, com temas relevantes para a juventude.




