
Aos 75 anos, depois de dois anos de isolamento e 15 remédios por dia, Mauren Porcelles dos Santos saiu para comprar uma bengala e encontrou a porta que lhe devolveu vitalidade e futuro. Hoje, ela treina arremesso de peso e de disco, quebrou recordes gaúchos e se prepara para competir na IV Copa Pernambuco, em 21 de março, e na VIII Copa Brasil, em 27 de março, em João Pessoa (PB).
Por isso, abriu uma vaquinha online para arrecadar R$ 6 mil e cobrir custos de viagem, hospedagem e alimentação.
A história começa na pandemia. Foram dois anos sem sair de casa, visitas pela janela e o medo para proteger a mãe, que morreu aos 94. Quando o silêncio ocupou a casa, o corpo de Mauren se recolheu junto: quedas, tontura, músculos em pausa.
— Eu não tinha força nos braços, ficaram atrofiados. Eu me agarrava nos muros, na grade do edifício. Sentia muito cansaço e tinha que parar no meio da quadra para respirar — relata.
"Eu detestava academia"

Na tarde da virada, há cerca de um ano e meio, o plano era simples: comprar uma bengala, um pacto que ela fez quando o chão começou a ceder. Mas a cidade tem seus desvios. Em vez da loja de bengalas, a Avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, na Capital, lhe abriu outra porta: uma academia. Ela entrou, mediram limites, ofereceram metas mínimas e uma promessa a quem carregava dor como rotina: treino sem dor.
— Eu detestava academia, nunca tinha entrado. Me acolheram, analisaram meu estado. Era sem dor e, então, me inscrevi. Comecei a viver mesmo a partir dos 75. Agora eu vivo feliz e sem dor — conta.
Os primeiros dias foram leves: levantar, estabilizar, caminhar. Cada série devolvia eixo e fôlego. Cada passo firme era uma conquista que ela não imaginava alcançar. O bairro viu a passada mudar; o filho chorou ao reconhecer, no passo da mãe, um futuro que já não ousava pedir. Para o educador físico e treinador de Mauren na academia, Rafael Pimentel, 34 anos, a historia dela o fez refletir sobre o possível:
— Vai muito além de ela seguir se movimentando. Ela dominou um esporte com que nunca teve contato na vida. Isso me faz refletir sobre a importância de uma abordagem mais humana em relação à atividade física.
Farmácia deu lugar à disciplina

Depois, veio o convite que parecia exagero: o atletismo. Ela relutou, pois nunca se imaginou atleta. Aceitou porque os treinadores a sustentavam quando faltava fé e, por isso, escolheu a confiança.
— Quando eles me ofereceram, eu disse: "Ah, vou, já que vocês acham". Confiaram em mim e eu comecei.
As duas modalidades começaram juntas. O arremesso de peso, desafiador, e o lançamento de disco, que veio logo depois, cortando o ar como quem abre o corredor do futuro. A decisão virou rotina e a coragem virou marca: pódio, campeonato e a quebra de um recorde gaúcho que permanecia desde 2002.
— É um incentivo, né? Eu não parei o remédio por conta, os médicos liberaram. Eu tenho diabetes e é controlada. O resto foi por conta do treino — afirma.
Com orientação médica, a farmácia deu lugar à disciplina. O treinador de Mauren no esporte, Ramão Paz Jr., 55 anos, relata:
— Percebi cedo que ela tinha potencial. Agora, precisamos de apoio para conseguir competir nas copas nacionais e por isso abrimos a vaquinha.
Saiba como ajudar
Mauren abriu uma vaquinha para arrecadar R$ 6 mil e cobrir despesas com passagens, translado, hospedagem e alimentação durante as competições. Saiba como ajudar:
- Pelo site Vakinha
- Via Pix: 5853532@vakinha.com.br
* Com supervisão de Émerson Santos
