
Aos 25 anos, a nutricionista Andressa Closs carrega uma virada que reflete um movimento em ascensão no Brasil e no mundo: a redução no consumo de álcool. A tendência vem de longo prazo e não está relacionada aos casos recentes de contaminação por metanol no país.
Até 2023, as noites de Andressa eram regadas a copos de bebida alcoólica, mas no ano passado ela decidiu diminuir o ritmo. O que parece apenas uma decisão pessoal se conecta a uma tendência que cresce em vários lugares, especialmente entre os jovens.
— Sempre fui ativa na prática esportiva e, no início de 2024, comecei com a corrida. Foi o esporte em que me encontrei. E o álcool prejudica muito a performance. Acordava cansada no dia seguinte, estava sempre fadigada. Não era mais um estilo de vida que condizia com quem eu era — conta a jovem, que mora em Porto Alegre.
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O tamanho da queda no consumo
A experiência de Andressa encontra eco nas estatísticas: dados do terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em parceria com a Universidade Federal de São Paulo, mostram que a proporção de bebedores adultos (com 18 anos ou mais) caiu de 52,1% para 44,2% entre 2006 e 2023. Entre adolescentes (de 14 a 17 anos), a queda foi de 33,8% para 19,1% no mesmo período.
O mapeamento, divulgado no final de setembro, aponta que o Brasil acompanha, em algum nível, outros países que registram redução no consumo de álcool. Uma pesquisa da Gallup indicou que, em 2025, os Estados Unidos tiveram a menor porcentagem de bebedores em quase 90 anos: 54%. Em 1939, eram 58%.
Segundo a DataPulse Research, 9 milhões de pessoas entre 18 e 64 anos bebiam em 2021 na Alemanha. O número caiu para 7,9 milhões em 2024.
O que explica esse movimento?
Andressa não faz parte da parcela da população que optou pela abstinência. Ela ainda bebe álcool, mas muito pouco: uma dose a cada dois ou três meses, apenas em ocasiões especiais, como casamentos e aniversários. Para ela, os efeitos da mudança reforçam a motivação para não voltar aos velhos hábitos:
— A maior diferença é a minha disposição. Acordar cedo, ter energia, mais vontade de viver, de querer sair para fazer alguma coisa. O meu círculo de amizades mudou com isso também. Acho que é natural, as ideias vão mudando, e hoje meus amigos não são pessoas que saem só para beber. Se tem uma formatura, por exemplo, bebo um drinque e é isso. Manter esse estilo de vida é muito tranquilo e prazeroso.
O caderno sobre consumo de álcool do Lenad III também apontou que, entre os indivíduos que consumiram bebidas alcoólicas no último ano, 41,3% referiram já ter sentido vontade de parar de beber. Ainda, 31% dos participantes declararam-se "muito motivados" a reduzir ou cessar o consumo de álcool, sendo a resposta mais prevalente entre os entrevistados.
A professora do curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Ilana Andretta acredita que essa onda de busca por uma vida mais saudável, bastante popular entre os jovens, motiva outras pessoas a diminuir ou interromper o consumo de bebida alcoólica. Outros fatores, como religião, traumas associados ao álcool, preços ou a difusão de outras formas de lazer e socialização, também podem estar conectados à decisão.
— Percebemos que, cada vez mais, tem jovens muito conscientes do uso e que conseguem fazer essa recusa. Muitos não usam e não têm interesse em usar, e seguem essa posição firme. Acho que tem a ver com valores e com esse nível de consciência, de saber que o álcool faz mal, é uma droga. E aí podem encontrar sentido em outras coisas, em que a presença do álcool não se faz necessária — pondera Ilana.

Não há um nível de consumo seguro
Nos Estados Unidos, a explicação para o movimento de redução do consumo parece menos ligada a escolhas individuais e mais a fatores estruturais. A psiquiatra e conselheira da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead) Ana Cecilia Marques crê que essa diminuição pode ser resultado de políticas públicas, campanhas de conscientização e pesquisas científicas divulgadas ao longo dos anos.
A especialista pontua que, há mais de duas décadas, existia uma visão de que havia um nível de consumo seguro de bebida alcoólica — refutada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2023. Estudos patrocinados pela indústria do álcool recomendavam uma taça de vinho por dia para melhorar a saúde cardiovascular e médicos até permitiam que gestantes consumissem um pouco de espumante em ocasiões especiais.
— Essas ideias adentraram esse século. Quando perceberam que o consumo estava disparando, esses países mais desenvolvidos começaram a buscar formas de reduzir essa percepção distorcida. E aí surgiram campanhas, depoimentos de médicos que não eram financiados pela indústria e todo esse movimento de advocacy (defesa de uma causa). Isso significa fazer lobby para a comunidade começar a mudar de comportamento. Isso funciona, mas demora décadas para dar resultado — afirma Ana Cecilia.
Influências positivas
Dentro desse contexto, a psiquiatra considera que as campanhas de conscientização sobre os riscos do álcool, realizadas em gerações anteriores de norte-americanos, impactaram adultos que hoje são pais. Muitos reduziram ou abandonaram o consumo, e seus filhos, ao crescerem em um ambiente com influências positivas, expostos a essas mensagens, tendem a desenvolver uma percepção mais crítica sobre a bebida.
As políticas públicas também são citadas pela conselheira da Abead. Uma delas é a idade em que as leis do país permitem o consumo de álcool. Ao contrário do Brasil, onde já é possível comprar uma cerveja ou um drinque aos 18 anos, nos Estados Unidos é necessário ter 21 anos. Além disso, a comercialização é dificultada em muitos Estados, já que os consumidores não encontram álcool para vender nos supermercados, e sim nas lojas específicas de bebida alcoólica, onde só podem entrar maiores de idade.
— Lá tem que sair com a bebida dentro do saquinho, não pode mostrar — diz Ana Cecília. — No Brasil, você compra o que quiser, onde quiser e ainda consegue gelado, já sai bebendo. O que os Estados Unidos fazem é prevenção. Outra coisa: lá a bebida é muito mais cara do que nos países subdesenvolvidos porque todos pagam impostos. Aqui tem um monte de alambique de fundo de quintal, que mistura groselha com cachaça da pior espécie, e ninguém fiscaliza isso. No final das contas, essas medidas são mais fortes do que o próprio comportamento.
Consumo no Brasil ainda preocupa
Apesar da redução em alguns indicadores, o álcool está longe de deixar de ser um problema de saúde pública no Brasil. O Lenad III apontou que, entre 2012 e 2023, o consumo pesado episódico (seis ou mais doses de álcool por ocasião) na população geral subiu 31%. A prevalência de bebedores com transtornos pelo uso de álcool (TUA) passou de 10% em 2012 para 11,5% em 2023.
O cenário chama a atenção dos especialistas, já que o consumo está associado a doenças crônicas, transtornos mentais e aumento da mortalidade. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), ligada à OMS, o consumo nocivo de álcool é considerado um dos fatores responsáveis por mais de 200 problemas de saúde e lesões.
Impacto direto no cérebro
O coordenador do Ambulatório de Dependências Químicas do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Pedro Eugênio Ferreira, pontua que o álcool afeta diretamente o cérebro, prejudicando o juízo crítico, o controle de impulsos, a capacidade de organização e de prever consequências. Além disso, provoca danos orgânicos importantes, como cirrose, gastrite, cardiopatia alcoólica e eleva a probabilidade de diversos tipos de câncer.
— A pessoa pode ter algum prejuízo bebendo uma quantidade razoável de álcool de uma só vez ou em um espaço muito curto de tempo. Isso aumenta a possibilidade de pancreatite alcoólica, de acidentes de trânsito, de se envolver em episódios de agressividades com terceiros ou exposições sexuais, com risco de gravidez indesejada ou de infecções sexualmente transmissíveis. Mas os efeitos do álcool também podem aparecer naqueles que bebem diariamente. O mais importante é que não existe uma quantidade mínima segura de consumo alcoólico — reforça o psiquiatra.
Quando o álcool vira protagonista
O especialista, que também é professor da PUCRS, reforça que um dos sinais da dependência é quando o álcool assume um protagonismo na vida do bebedor. Ou seja, quando a pessoa vai praticar um esporte, encontrar os amigos, ir a um evento do trabalho ou assistir a um filme em casa, por exemplo, e a bebida alcoólica está presente em todas as ocasiões. Outros comportamentos também caracterizam o problema:
— No início, a pessoa bebia três taças de vinho e já ficava alterada. Com o passar dos anos, a dependência acompanha a tolerância. O sujeito bebe três garrafas de vinho sem alterar drasticamente o comportamento. Os prejuízos também, que podem ser pessoais, físicos ou ocupacionais: a pessoa relaxa no trabalho, no cuidado dos filhos ou da casa, na aparência. Fica irresponsável. E um último sintoma é que, quando a pessoa tenta parar, surge a abstinência, um mal-estar, nervosismo, insônia, náuseas.
Ferreira recomenda que cada pessoa observe o próprio consumo de álcool para identificar sinais de dependência e, se necessário, procure ajuda para reduzir ou interromper o uso. Ele alerta também para a atenção com familiares, já que a vulnerabilidade pode ter relação genética. Conforme os dados do Lenad III, 22,3% dos bebedores têm histórico familiar de problemas com o álcool.
Como enfrentar o problema
Para a nutricionista Andressa, a resposta para a dúvida de muitos sobre como reduzir o consumo de bebida alcoólica foi encontrada no esporte. No nível individual, a psicóloga Ilana destaca que investir em estratégias como essa pode diminuir a frequência ou a necessidade do álcool na vida de um bebedor ao fortalecer fatores de proteção, sobretudo quando incorporados desde a juventude.
— Uma vida mais saudável, hábitos mais saudáveis, família, esporte, redes sociais, estudos, tudo isso inibe o consumo do álcool, são fatores de proteção. Em alguns casos, o álcool pode ser relacionado só a essa questão de aceitação social e desse período pós-pandêmico, em que esses jovens, muitas vezes, têm estreitamento de repertório social, de habilidades sociais. E aí acabam usando o álcool como forma de se desinibir — sintetiza a professora da Unisinos.

O que precisa ser feito
No nível estrutural, o desafio passa pela implementação de políticas públicas eficazes para enfrentar o consumo de álcool de forma ampla. Para Ilana, isso exige, antes de tudo, investir em pesquisas mais frequentes e detalhadas, capazes de mostrar quem bebe, por que, o quê e como, permitindo mapear com precisão fatores e situações de risco.
— Se tivermos pesquisa, vamos poder trabalhar a prevenção ao nível primário, secundário e terciário. Vários estudos mostram que transtornos mentais com risco de suicídio estão muito associados ao álcool. Então, é importante analisar tudo isso e entender como esses fatores que estão sendo colocados são fatores de políticas públicas. Educação, incentivo ao não uso e outras variáveis de proteção são importantes para pensar e trabalhar isso — afirma a psicóloga.
A psiquiatra e conselheira da Abead enxerga uma tendência do Brasil em pegar carona nos movimentos de países mais desenvolvidos. Por isso, avalia que há chance de os brasileiros seguirem a onda dos Estados Unidos e avançarem em ações de prevenção, campanhas de conscientização e argumentos que reforcem a importância de reduzir o consumo de álcool.
Para Ana Cecília, é fundamental investir em uma política completa, que vá além das campanhas e inclua medidas de prevenção desde cedo — com apoio de pais e da comunidade escolar —, acompanhamento de casos, controle da oferta, fiscalização efetiva e políticas públicas consistentes para reduzir o acesso e o impacto do álcool.
— A estratégia universal para todos nós, cidadãos brasileiros, seria aumentar a percepção de risco. E como é feito isso? Com essas estratégias de convencimento, o advocacy. Como foi feito para a aids e para o tabaco, para poder influenciar a população a mudar de comportamento. E que pode demorar 15 ou 20 anos para ter resultado.
Ajuda dos Alcoólicos Anônimos
Os Alcoólicos Anônimos (AA) ajudam bebedores que enfrentam dificuldades para cessar o consumo. No Rio Grande do Sul, há encontros presenciais e online em 150 cidades, que podem ser consultados no site dos Alcoólicos Anônimos.


