
O primeiro imunizante 100% nacional para o combate à dengue teve parte importante de seus testes conduzidos no Rio Grande do Sul. Pesquisas realizadas no Hospital São Lucas (HSL) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) foram fundamentais para a criação da vacina de dose única – a primeira desse tipo do mundo – pelo Instituto Butantan. Destinada à população de 12 a 59 anos, a Butantan-DV deve ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em breve.
Foram quase 10 anos de estudo, sendo cinco de acompanhamento dos participantes – nos quais o HSL, como um dos 14 centros de pesquisa envolvidos, participou ativamente, lembra Fabiano Ramos, médico infectologista, pesquisador no Centro de Pesquisa Clínica do HSL e diretor técnico do hospital.
A baixa incidência de casos de dengue na Região Metropolitana foi um diferencial importante na participação do Hospital São Lucas, já que o estudo comparou o comportamento de proteção da vacina em pessoas em áreas endêmicas e contato prévio com a doença e em pessoas que não tiveram a doença.
Ao longo dos últimos anos, o Rio Grande do Sul registrou um aumento crescente e substancial da dengue, embora, em 2025, os patamares tenham diminuído. Por esse motivo, o imunizante será crucial para a prevenção da doença.
— A vacina, certamente, vai ter um papel muito importante para esse controle na população brasileira. Não só para impedir casos de dengue, dengue sintomática, mas para prevenir casos graves e tentar diminuir essa mortalidade que vem acompanhada desses milhares de casos todos os anos — avalia Ramos.
No total, 850 participantes integraram a pesquisa na instituição, que incluiu também um estudo complementar de validação dos lotes produzidos pelo Instituto Butantan.
O especialista destaca a satisfação em contribuir para o desenvolvimento de uma vacina que poderá evitar muitas mortes:
— Foi um trabalho muito grande, que acreditamos que vai mudar para melhor a vida da população.
Pelotas também teve papel importante
Em Pelotas, o estudo foi conduzido pela diretora do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital Escola da UFPel, Danise Oliveira. A instituição participou da fase final da pesquisa, que ocorreu entre 2022 e 2024.
— É um contrato tripartite entre o Butantan, o Hospital Escola e o pesquisador, que sou eu. Em conjunto, fazemos algumas ações, utilizando o espaço e alguns pesquisadores da universidade — explicou.
O objetivo era fazer o estudo de consistência de lotes. Foram escolhidos 335 voluntários, que tinham entre 18 e 59 anos. Os voluntários foram randomizados, ou seja, alguns receberam a vacina, e outros, o placebo.
— Não basta provar que o produto funciona, temos que provar que todos os lotes são semelhantes, que é possível reproduzir o funcionamento do imunizante — disse.
Proteção alta
A Butantan-DV é um imunizante tetravalente, formulado para proteger contra os quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). A eficácia geral do imunizante nos estudos foi de 74,7%. Já a proteção contra dengue grave ou com sinais de alarme ficou em 91,6%, e contra hospitalizações, em 100%. A pesquisa contou com mais de 16 mil voluntários de 14 Estados entre 2016 e 2024.
Os resultados são bastante satisfatórios, avalia o infectologista do São Lucas. É importante lembrar que dois sorotipos (3 e 4) não circularam no Brasil recentemente – portanto, não é possível ainda avaliar a proteção contra eles.
— É uma proteção extremamente alta, especialmente para os pacientes que poderiam desenvolver dengue grave e morrer pela doença. As pessoas têm de entender que as vacinas previnem doença grave, para isso que elas estão sendo desenvolvidas — avalia Ramos.
Disponibilização no SUS
O Ministério da Saúde fará a inclusão da vacina no calendário nacional para disponibilização exclusiva pelo SUS. A expectativa é garantir a oferta e ampliar o acesso à vacina em 2026, conforme a capacidade produtiva do laboratório.
Na próxima semana, o Ministério da Saúde levará o tema a um comitê de especialistas e gestores do SUS para definir a estratégia de vacinação e públicos que devem ser priorizados a partir dos resultados do estudo.
O instituto já tem mais de um milhão de doses prontas. O Butantan ainda firmou parceria com a empresa chinesa WuXi para ampliar a oferta e entregar cerca de 30 milhões de doses no segundo semestre de 2026.
O infectologista Fabiano Ramos acredita que, com os números divulgados, tanto a oferta quanto as faixas etárias atingidas devem, de fato, aumentar. Um novo estudo deve ser conduzido em breve, com o Instituto Butantan, para a utilização da vacina na população de 60 anos ou mais.
Mudança de cultura
Diante da aprovação e incorporação da vacina no SUS, o objetivo e a expectativa são de que o imunizante mude o cenário da doença no Brasil. No entanto, nenhuma medida isolada será capaz de modificá-lo sozinha.
A vacina será uma grande contribuição e deve se somar às outras medidas de prevenção da doença, que devem ser mantidas e ampliadas, como controle do vetor de transmissão (o mosquito) – um ponto em que o país ainda não tem obtido sucesso.
— Nesse momento, temos de encarar como uma doença endêmica do nosso Estado, uma doença que nunca esteve na lembrança das pessoas, e, por isso, também, às vezes, acreditar que essa doença existe, que essas medidas de prevenção devem ser contínuas, é uma mudança de cultura muito importante para o povo gaúcho — reforça.
Os desafios da vacinação
As coberturas vacinais ainda estão aquém do ideal no Brasil, o que mantém o tema como um desafio permanente – e recente. A mudança de duas doses para uma dose única, porém, deve facilitar a adesão ao imunizante, aumentando o alcance em termos de produção e distribuição e acelerando a proteção.
Segundo Ramos, o sucesso das coberturas vacinais dependerá, em grande medida, da ampla difusão de informações corretas e cientificamente embasadas. Pessoas que já tiveram dengue poderão receber a vacina – não há risco adicional, ressalta o infectologista.





