
Esta reportagem foi produzida por Marcelo Rosinski, aluno de Jornalismo na UFRGS e um dos cinco vencedores da edição 2025 do projeto Primeira Pauta RBS
Anunciada pelo Ministério da Saúde (MS) para chegar na segunda quinzena de novembro aos postos de saúde do país, a vacina para gestantes contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) ainda não tem data para ser distribuída na rede pública gaúcha.
A informação foi confirmada a Zero Hora, na última quinta-feira (6), pela Secretaria Estadual da Saúde, responsável pelo repasse das doses aos municípios.
O VSR é o principal causador da bronquiolite, uma inflamação das vias respiratórias inferiores, comum em crianças com menos de cinco anos de idade, que pode ter consequências severas. A doença é uma das principais causas de internações hospitalares desse público.
Segundo a pediatra Valerie Kreutz, coordenadora do Núcleo de Pediatria do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), o vírus circula de forma mais intensa entre abril e agosto no Estado.
— É uma doença que pode ser muito grave, principalmente em bebês pequenos, prematuros ou com comorbidades, como cardiopatias e doenças pulmonares. Em um sistema de emergência sobrecarregado, como o de Porto Alegre, um surto de bronquiolite pode significar o caos — explica Valerie.
A médica reforça que, apesar de a maioria das crianças se recuperar bem da infecção, os casos graves podem deixar sequelas:
— Existe a associação entre bronquiolite no primeiro ano de vida e crises de asma no futuro, por isso é essencial o acompanhamento com um pediatra.
Avanço no combate à bronquiolite
A chegada da vacina ao Sistema Único de Saúde (SUS) é considerada um marco por especialistas. Atualmente, o imunizante pode ser encontrado na rede privada, com valores acima de R$ 1,5 mil.
Conforme a diretora do Simers e membro do Núcleo de Obstetrícia do sindicato Débora Espírito Santo, a vacina representa uma nova estratégia de prevenção: em vez de imunizar o bebê diretamente, protege-se a gestante, permitindo que os anticorpos passem ao feto pela placenta.
— A mãe recebe o imunizante e os anticorpos são transferidos ao bebê. Assim, o recém-nascido já nasce protegido durante os primeiros meses, quando é mais vulnerável — detalha Débora.
A vacina, chamada Abrysvo, é produzida pela Pfizer e está aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2024. Ela é recomendada para gestantes entre 24 e 36 semanas, período em que há tempo hábil para que a imunização materna seja transferida com sucesso.
— O ideal seria que o imunizante já estivesse disponível neste período, porque a vacinação precisa ocorrer durante a gestação para surtir efeito no próximo ciclo do vírus, entre abril e agosto — observa Valerie Kreutz.
A obstetra Débora Espírito Santo acrescenta que o imunizante deve ser aplicado de forma semelhante às vacinas feitas no pré-natal, como a dTpa e a da gripe.
— É um avanço importante, porque amplia o cuidado com a saúde do bebê ainda antes do nascimento, mas, como qualquer vacina nova, é fundamental garantir uma boa comunicação e adesão das gestantes — reforça.
Desafios na adesão
Apesar da expectativa otimista, as médicas reconhecem que a adesão à nova vacina pode enfrentar obstáculos semelhantes aos observados com outros imunizantes recentes.
— A gente vive um momento de queda nas coberturas vacinais, o que é preocupante, mas o pré-natal é uma oportunidade de diálogo: quando a mãe entende que está protegendo o bebê, a adesão costuma ser alta — observa Débora Espírito Santo.
Os médicos ainda apontam que a vacina é uma medida de saúde pública que pode reduzir significativamente as internações de bebês e aliviar a sobrecarga do sistema de saúde.
Quadro grave levou bebê à UTI

Em abril deste ano, quando Maria Isabel tinha três meses de vida, a bronquiolite mudou a rotina da família Prates Prado, de Guaíba, na Região Metropolitana. A mãe, Chiara Prates Prado, 28 anos, lembra que os primeiros sinais não indicavam uma situação anormal.
— Ela começou a tossir e espirrar, achei que era uma gripe. Levei até a clínica, e mandaram a gente para casa. Dois dias depois, ela já respirava com dificuldade. Quando chegamos ao hospital, a saturação estava baixa — conta a dona de casa.
O quadro se agravou rapidamente: a bebê foi internada, precisou ser entubada e ficou sete dias sob monitoramento.
— Ela piorava a cada 15 minutos. Teve uma madrugada em que teve cinco paradas cardíacas. Nesses momentos, já estávamos perdendo as esperanças — recorda Chiara.
O pai, Luiz Gabriel Prado, 35 anos, conta que o período no hospital mudou a forma como a família enxerga a saúde.
— A gente aprende que os dias no hospital ensinaram sobre paciência. E também que a família é tudo. Depois que ela saiu da UTI, a gente ficou dois meses isolado, sem visitas, com todos os cuidados possíveis — relata.
Hoje, aos sete meses, Maria Isabel tem acompanhamento profissional e se recupera bem da bronquiolite, segundo os pais.
— A fisioterapia foi essencial. Nem todo mundo tem acesso, mas é o que ajuda o bebê a voltar a respirar bem — completa Chiara.
