
Porto Alegre registra aumento de 46% nos casos de conjuntivite em relação a 2024, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). De janeiro a outubro deste ano, a Capital registrou 13,8 mil atendimentos em Unidades Básicas de Saúde (UBS), frente a 9,5 mil no mesmo período de 2024 – em todo o ano passado, foram 11,3 mil.
O aumento significativo vem ocorrendo desde maio. De lá até outubro, os atendimentos por conjuntivite nas UBSs foram, em média, 60% a 90% mais altos do que no mesmo período do ano anterior.
Embora a secretaria não especifique os tipos de conjuntivite atendidos, oftalmologistas apontam tratar-se principalmente de quadros virais. Médicos ouvidos pela reportagem indicam o aumento de atendimentos também em outros níveis de atenção e no setor privado.
No Hospital Banco de Olhos São Pietro, as emergências oftalmológicas dos serviços público e privado registraram cerca de 1,3 mil casos de conjuntivite em outubro – crescimento de 20% em relação aos meses anteriores, segundo a instituição.
A conjuntivite pode ser viral, bacteriana ou alérgica (não transmissível). A transmissão ocorre por meio do contato com secreções oculares de uma pessoa infectada, como a lágrima, ou com superfícies ou objetos contaminados, como toalhas, travesseiros e até mesmo celulares, com posterior contato com o olho. No caso da viral, o vírus pode permanecer vivo nas superfícies por longo tempo.
— A conjuntivite viral é altamente contagiosa. Então, o simples fato de eu cumprimentar uma pessoa, usar uma toalha de uso comum, e eu estar com conjuntivite, passar a mão em objetos que são de uso coletivo, acaba gerando um aumento do número de casos — explica o vice-presidente da Sociedade de Oftalmologia do Rio Grande do Sul (Sorigs), Eduardo Bordin.
Nesta época do ano, devido à estação, também é comum o aumento de quadros de conjuntivite alérgica – que nem sempre são fáceis de diferenciar e refletem no aumento de atendimentos.
Após uma queda de casos durante a pandemia, devido ao aumento das medidas de higiene, os níveis tinham retornado ao padrão anterior, segundo Bordin. Agora, porém, houve aumento acima do esperado nos últimos meses – que, na visão dos especialistas, poderia ser caracterizado como surto.
A SMS, no entanto, informou que, até o momento, não foi reportado nenhum surto de conjuntivite à Vigilância em Saúde. "A doença tem diagnóstico clínico, realizado a partir da avaliação dos sintomas pelo profissional de saúde, sem necessidade de coleta de amostras para confirmação laboratorial", afirma em nota.
Possíveis causas
Oftalmologista e diretor técnico do Hospital Banco de Olhos São Pietro, Fausto Stangler reforça que esta é uma época em que a incidência de conjuntivite costuma aumentar, especialmente em escolas, empresas e outros ambientes coletivos. A própria transmissão viral da doença também leva à progressão do número de casos.
A conjuntivite pode ocorrer de forma isolada, com tendência a ser mais agressiva. Outras vezes, acompanha ou é precedida por quadros respiratórios, como resfriados e gripes, visto que é causada pelos mesmos vírus.
Por esse motivo, a causa dos registros pode estar relacionada ao aumento de casos de doenças respiratórias em 2025. Pode ter havido um contexto mais favorável a uma maior circulação dos vírus causadores dos quadros, como o adenovírus (o mais comum) e o enterovírus, com a consequente disseminação das infecções, devido a mutações e outros fatores ainda desconhecidos. Também há influência de questões ambientais e locais.
Sintomas
Os sintomas de conjuntivite incluem:
- Olho vermelho
- Sensação de corpo estranho
- Secreção aquosa/mucosa, no caso da conjuntivite viral; e purulenta/amarelada/esverdeada, no caso da bacteriana
- Lacrimejamento em excesso, no caso da conjuntivite viral
- Início em um olho, com possibilidade de, após alguns dias, afetar o outro
- Coceira, no caso da conjuntivite alérgica
— De maneira geral, elas não são graves, são autolimitadas, mas, claro, as pessoas faltam no trabalho, na escola, têm desconforto. Então, esse é o grande problema — afirma o chefe do serviço de Oftalmologia da Santa Casa de Porto Alegre, Alexandre Marcon.
Prevenção e cuidados
Há chance maior de contaminação quando há alguém infectado na residência, sobretudo quando se trata de crianças. Algumas medidas diminuem o risco de contágio e são recomendadas pelos médicos:
- Lavar as mãos ou utilizar álcool gel com frequência
- Evitar tocar os olhos e o rosto
- Não compartilhar itens como toalhas, roupas ou maquiagem (principalmente para os olhos)
- Limpar secreções ou lágrimas com lenços de papel descartáveis
- Desinfetar objetos de uso comum e superfícies, como maçanetas, mesas, corrimãos e balcões, principalmente em locais de alto fluxo
Em caso de sintomas, a recomendação é consultar um oftalmologista, pois alguns pacientes podem apresentar casos graves que podem resultar em sequelas. Não é recomendada a automedicação nem o uso de colírios sugeridos por terceiros. O profissional realizará o diagnóstico e indicará o tratamento adequado – no caso de conjuntivite viral, é preciso aguardar o curso natural da doença.
Recomenda-se o afastamento temporário de ambientes coletivos, como trabalho ou escola, para reduzir a transmissão. A orientação deve vir do médico, que avaliará o caso para diferenciá-lo de outros quadros (como conjuntivite alérgica). É importante evitar contato físico com outras pessoas, incluindo aperto de mãos e cumprimentos, e entrar em piscinas.
Para alívio dos sintomas, Bordin recomenda lavar e fazer compressas com água (fervida ou mineral) fria para ajudar na desinflamação. Além disso, alerta que o uso de água boricada não é mais recomendado, pois pode causar reação alérgica.
