
As "luzinhas" vêm primeiro. Feixes de luz embaralham a visão da diretora de arte Amanda Xavier, 31 anos, avisando que a dor logo explodirá na têmpora, provavelmente acompanhada de náusea e aversão ao barulho e à luminosidade. Aos 18 anos, a porto-alegrense teve o seu diagnóstico: enxaqueca com aura.
Amanda sofre com as crises de cefaleia (dor de cabeça) desde a primeira menstruação, no início da adolescência. Aos 15 anos, quando iniciou um método contraceptivo, não sabia que a condição impossibilita o uso dos anticoncepcionais combinados, que contêm estrogênio e progesterona, devido ao aumento do risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Apesar do diagnóstico, a jovem permaneceu utilizando as pílulas. O motivo foi a ausência de orientação.
— Por mais de uma década ninguém sugeriu alterar o meu método contraceptivo, mesmo eu tendo passado por vários médicos durante esse período — afirma Amanda.
O alerta veio somente em 2021, em uma consulta com neurologista. Amanda relatou o quadro de enxaqueca com aura e mencionou a pílula que utilizava, composta por etinilestradiol e levonorgestrel, análogos sintéticos do estrogênio e da progesterona. Soube, então, que a contracepção aumentava consideravelmente suas chances de ter um AVC.
— Eu saí do consultório em choque, porque sempre falei das minhas crises para os médicos e essa informação nunca foi dita. Passei mais de 10 anos correndo um risco que não precisava correr, por falta de orientação. Me senti muito negligenciada — diz ela.
Necessidade de orientação
A experiência de Amanda revela uma lacuna na assistência de saúde das mulheres, que muitas vezes não são orientadas quanto ao método contraceptivo mais adequado aos seus perfis.
Conforme o neurologista Fernando Kowacs, do Hospital Moinhos de Vento, apesar de a contraindicação de anticoncepcionais combinados para pacientes com enxaqueca com aura ser uma diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda é pouco difundida em consultórios médicos.
— Quando uma mulher vai ao médico que vai lhe prescrever uma contracepção, talvez ela não fale espontaneamente sobre suas dores de cabeça. A nossa bandeira é para que isso sempre seja perguntado às pacientes, que faça parte do checklist que antecede a prescrição do anticoncepcional, pois é sabido que o medicamento pode aumentar os riscos vasculares — afirma o médico.
Cada mulher vai necessitar de um método diferente, de acordo com as suas necessidades, expectativas e o que pode ou não usar
JESSICA ZANDONÁ
Ginecologista e professora da UPF
Para a ginecologista e professora da Universidade de Passo Fundo (UPF) Jessica Zandoná, outro desafio é a facilidade com a qual os contraceptivos são acessados no país, sem exigência de prescrição médica. Ela ressalta que o anticoncepcional é um medicamento e deve ser encarado como tal, o que exige avaliação médica detalhada antes do uso:
— Se existisse um anticoncepcional ideal para todo mundo, não precisaríamos ter vários. Cada mulher vai necessitar de um método diferente, de acordo com as suas necessidades, expectativas e o que pode ou não usar. Mas a realidade é que muitas começam a usar por conta própria, replicam o anticoncepcional que a amiga utiliza, o que representa um risco — analisa.
Motivos para a contraindicação
O neurologista explica que esse tipo de enxaqueca já está associado a um maior risco de AVC, mas com incidência baixa em mulheres jovens. Contudo, ao se somar o uso das pílulas a base de estrogênio, um hormônio com efeito pró-trombótico porque favorece a capacidade de formar coágulos do sangue, o risco aumenta de maneira considerável.
— Isolados, esses dois fatores agregam riscos baixos. Porém, quando combinados, o risco se torna significativo. A enxaqueca com aura é um fator que não pode ser modificado, mas o anticoncepcional pode; então, devemos modificá-lo — detalha Kowacs, salientando que o tabagismo também representa perigo.
— Se uma mulher tem diagnóstico de enxaqueca com aura, faz uso de contraceptivo combinado e fuma, a chance de ela ter um AVC será 20 vezes maior. Estamos falando de uma doença muito grave, que pode deixar sequelas permanentes. Portanto, não vale a pena correr esse risco — enfatiza.

O melhor método contraceptivo
A ginecologista Jessica Zandoná esclarece que existem muitas opções de contracepção para mulheres que sofrem de enxaqueca com aura.
A prescrição do melhor método depende da análise do quadro clínico da paciente; mas, não havendo outras condições de saúde, a única regra é que não sejam utilizados anticoncepcionais a base de estrogênio.
— Existem vários anticoncepcionais que não contêm estrogênio e podem ser usados com total segurança nessas pacientes. São todas as pílulas com somente progesterona na composição — explica Jessica.
Além das pílulas livres de estrogênio, conforme a ginecologista, também é possível utilizar o dispositivo intrauterino (DIU), seja hormonal ou de cobre, o implante contraceptivo (Implanon) e a injeção trimestral, apenas de progesterona.
No caso de Amanda, a primeira alternativa ao estrogênio foi o DIU Mirena, que libera doses do hormônio levonorgestrel, um tipo de progestágeno. Entretanto, ao ter a irregularidade do ciclo menstrual agravada pelo método, ela acabou voltando para a pílula, mas em uma versão somente de progesterona.
— A opção que eu estou usando é uma pílula nova no mercado, um pouco mais cara, mas que não me trouxe nenhum efeito colateral. Estou muito bem adaptada. Eu tomo sem pausa, então, não tenho sangramentos. Isso também ajudou na questão da enxaqueca, porque minhas crises pioravam muito no período menstrual — conta.
A ginecologista observa que os anticoncepcionais orais evoluíram ao longo das últimas décadas e, hoje, é possível encontrar opções com efeitos colaterais mínimos. Segundo Jessica, mesmo os contraceptivos combinados passaram por melhorias, como a redução na quantidade de estrogênio e o uso de moléculas esteroides mais seguras, como o estradiol e o estetrol.
Ainda assim, as pílulas que possuem algum tipo de estrogênio na composição seguem contraindicadas para quem tem enxaqueca com aura, mesmo nas versões mais modernas.
Por isso, é importante diferenciar a enxaqueca com aura da enxaqueca comum. Nesta, o uso de estrogênio é aceitável até os 35 anos, desde que não piore a dor de cabeça. A partir dos 35 anos, idade considerada delimitante para o risco cardiovascular, o hormônio deixa de ser indicado para quem tem qualquer tipo de enxaqueca.
Como identificar a enxaqueca com aura
Kowacs explica que a enxaqueca é uma doença neurológica de causa genética, que se manifesta por meio de uma série de sintomas, sendo a dor na cabeça o mais conhecido. Essa dor tende a ocorrer sempre na mesma área e de forma pulsante, além de poder vir acompanhada de náusea e sensibilidade à luz e ao barulho.
Portanto, a enxaqueca é diferente da dor de cabeça simples, que não é uma doença, mas um sintoma. Ela se manifesta de forma não padronizada e pode estar associada a condições diversas, como gripe, traumas, problemas de visão ou estresse.
O neurologista alerta que, do mesmo modo que nem toda a dor de cabeça configura enxaqueca, nem toda enxaqueca é com aura. Essa condição tem sintomas neurológicos específicos que ocorrem antes da dor de cabeça — a chamada aura.
Ela costuma instalar-se gradualmente, levando mais de cinco minutos para que chegue ao seu pico. Os sintomas provocado pela aura duram, em geral, de 20 a 40 minutos.
A manifestação mais comum é a aura visual. Os pacientes sofrem uma interferência transitória na visão, passando a enxergar:
- Linhas coloridas em zigue-zague, que tremem e aumentam de tamanho em um lado do campo visual
- Pontinhos de luz
- Manchas
Além dos sintomas visuais, a aura pode se manifestar através de formigamentos em um lado do corpo, sobretudo no canto da boca e na ponta dos dedos, e em alterações da linguagem, com dificuldade para falar durante a vigência da aura. Em todos os casos, a tendência é que esses sintomas ocorram antes da dor de cabeça.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da enxaqueca é clínico, com base na descrição dos sintomas relatados pelos pacientes. Exames de imagem são realizados para descartar a existência de fatores que poderiam causar a dor e, no caso da enxaqueca com aura, as alterações visuais — como tumores e outras lesões cerebrais.
É preciso reconhecer a enxaqueca como uma doença e tratá-la como tal, com plano para crise, medidas preventivas e atenção ao contexto da paciente
FERNANDO KOWACS
Neurologista do Hospital Moinhos de Vento
Segundo Kowacs, é crucial que as pessoas que apresentam crises cefaleicas frequentes procurem um neurologista para avaliar o quadro. Ele observa que a dor de cabeça é frequentemente negligenciada, o que prejudica o diagnóstico e o tratamento corretos, além de expor os pacientes a riscos desnecessários — como no caso de quem sofre de enxaqueca com aura e usa anticoncepcionais combinados.
— Muitas vezes, a pessoa tem dores de cabeça todos os dias, náuseas, sensibilidade até ao mínimo feixe de luz, e ouve que isso é estresse ou ansiedade. Essa banalização atrasa o diagnóstico, o tratamento e, por tabela, a identificação dos riscos. É preciso reconhecer a enxaqueca como uma doença e tratá-la como tal, com plano para crise, medidas preventivas e atenção ao contexto da paciente — diz o neurologista.
Qual tratamento para enxaqueca com aura
Kowacs aponta duas abordagens principais no tratamento:
- Focada na prevenção: com medicamentos usados regularmente para evitar a recorrência das crises. Essa abordagem é indicada para quem tem mais de três crises ao mês ou sofre com sintomas incapacitantes. O objetivo é diminuir a frequência e a intensidade dos episódios
- Controle das crises: nesta abordagem, os medicamentos são ingeridos no momento em que o primeiro sintoma aparece, para evitar que a dor se torne intensa
No entanto, segundo o médico, não há um medicamento que incida diretamente sobre a aura. As opções disponíveis tratam a dor e os sintomas derivados, como as náuseas.
— A enxaqueca com aura não é uma doença grave ou com progressão severa, mas é uma doença que deve ser levada a sério — resume.





