
Epidemiologista e professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Cesar Victora é o cientista brasileiro que mais influencia políticas públicas no mundo, segundo um relatório produzido pela Agência Bori e a Overton, plataforma internacional dedicada a mapear a interface entre ciência e políticas públicas.
Divulgado nesta quinta-feira (6), o levantamento traz os 107 pesquisadores do Brasil mais citados em documentos que embasam decisões em todo o mundo. Do total, 14 são de instituições do RS (confira a lista).
Nas primeiras cinco posições, figuram três pesquisadores da UFPel. Além de Victora, Aluísio Barros e Pedro Hallal. As outras duas são ocupadas por profissionais da Universidade de São Paulo (USP): Carlos Monteiro e Paulo Saldiva. Os cinco atuam na área da saúde ou na intersecção entre saúde e ambiente. Juntos, somam cerca de 5,5 mil citações.
O relatório identifica pesquisadores brasileiros, com pelo menos 150 citações cada um, mencionados em documentos estratégicos, relatórios técnicos e pareceres usados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil de todo o mundo.
A produção dos pesquisadores embasou mais de 33,5 mil documentos de políticas públicas desde 2019 até julho deste ano, conforme o levantamento. Desta maneira, o relatório mostra que a ciência brasileira exerce um papel cada vez mais visível na formulação de políticas públicas – não apenas no próprio país.
Do combate a epidemias ao monitoramento do desmatamento, passando pela regulação de alimentos e pelos debates sobre mudanças climáticas, os pesquisadores têm influenciado diretamente decisões que afetam milhões de pessoas, com reflexos na saúde, na redução de desigualdades, entre outras áreas.
“Não se trata apenas de medir produção acadêmica, mas de mapear impacto real: quais vozes da ciência são mobilizadas quando é preciso decidir sobre florestas, vacinas, economia ou desigualdade”, afirma o documento.
Além da pesquisa, a aplicação
Nomes vinculados a instituições do RS figuram na lista. São eles:
- César G Victora – Universidade Federal de Pelotas – Documentos: 3.109 – Artigos: 231
- Aluísio J D Barros – Universidade Federal de Pelotas – Documentos: 874 – Artigos: 143
- Pedro C Hallal – Universidade Federal de Pelotas – Documentos: 618 – Artigos: 72
- Giovanny Vinícius Araújo de França – Universidade Federal de Pelotas – Documentos: 365 – Artigos: 12
- Fernando C Barros – Universidade Federal de Pelotas – Documentos: 357 – Artigos: 81
- Maicon Falavigna – Hospital Moinhos de Vento / UFRGS – Documentos: 356 – Artigos: 33
- Bernardo L Horta – Universidade Federal de Pelotas – Documentos: 323 – Artigos: 63
- Christian Kieling – UFRGS – Documentos: 316 – Artigos: 38
- Felipe Barreto Schuch – UFSM / UFRGS – Documentos: 219 – Artigos 64
- Bruce Bartholow Duncan – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Documentos: 215 – Artigos: 34
- Luis Augusto Rohde – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Documentos: 212 – Artigos: 99
- Carlos H Barrios – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Documentos: 200 – Artigos: 79
- Thiago Lisboa – Hospital de Clínicas de Porto Alegre – Documentos: 179 – Artigos: 12
- Régis Goulart Rosa – Hospital Moinhos de Vento – Documentos: 170 – Artigos: 14
Além deles, a médica gaúcha Maria Laura da Costa Louzada, vinculada à USP, também aparece na lista.
A influência da ciência nas políticas públicas ocorre a partir de evidências concretas que passam a embasar programas governamentais, legislações e estratégias de áreas como saúde e nutrição, explica o relatório. “Estudos desenvolvidos no Brasil já tiveram repercussão nacional e internacional, sendo usados como referência por ministérios, organizações multilaterais e agências regulatórias em diferentes países”, aponta.
Os estudos conduzidos por Victora foram citados em documentos de políticas públicas em países que vão do Reino Unido ao Uruguai; embasaram a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança no Brasil; e fundamentaram relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre desenvolvimento infantil – que, por sua vez, impactou quase 200 outros documentos em 21 países.
— É uma sensação muito boa estar no topo dessa lista, porque, para o pesquisador, não é importante apenas publicar artigos e trabalhar em pesquisas, mas também que essas pesquisas sejam aplicadas. E a forma de ser aplicada é quando ela vira ou influencia uma política pública. Fico muito feliz com esse reconhecimento — ressalta.
Para Victora, suas descobertas mais transformadoras dizem respeito à importância dos 270 dias da gestação e dos dois primeiros anos de vida, período que define grande parte da trajetória de saúde, desenvolvimento, inteligência e produtividade na vida adulta. Além disso, a recomendação atual de aleitamento materno exclusivo até os seis meses no Brasil, por exemplo, deriva em boa medida de pesquisas que conduziu nos anos 1980.
O professor também teve papel de liderança na criação da curva de crescimento da OMS, referência para o acompanhamento de crianças. Para ele, a pesquisa no Brasil é voltada a questões práticas, mais até do que em outros países.
— O que falta é um apoio continuado às pesquisas no país, um apoio do governo e também de fundações privadas que propiciem o desenvolvimento de grupos de pesquisa no país. O Brasil progrediu muito em termos de produção científica, voltamos agora a estar entre os melhores países do mundo nesse sentido — avalia.
Os pesquisadores foram classificados em nove categorias, de acordo com os temas predominantes em sua produção e de sua influência em tomadas de decisão – um pesquisador pode estar em mais de uma categoria. A maior parte (37) tem trabalhos mencionados em documentos de tomadas de decisão sobre Ecossistemas e Uso da Terra, evidenciando a importância do Brasil no debate ambiental global. São trabalhos sobre desmatamento, conservação, do papel dos ecossistemas no clima, entre outros.
Em seguida, estão os trabalhos sobre doenças infecciosas e vacinas (22), clima e atmosfera (19), doenças não transmissíveis e serviços (17), alimentação e nutrição (16), economia e finanças (14), políticas públicas e governança (3), energia e transição (2) e educação (1).
Baixa presença de mulheres
Os dados, porém, também evidenciam desigualdades, como a baixa presença de mulheres: há apenas 10 (9,3%). Nenhuma é vinculada a uma instituição gaúcha.
Com a realização da COP30 no Brasil, o documento traz também uma análise com o filtro “Relacionados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 13 da Organização das Nações Unidas (ONU): Ação contra a mudança global do clima”, identificando políticas vinculadas ao tema. O relatório identificou os 50 pesquisadores brasileiros mais citados nessa agenda, e há mulheres em destaque.
A importância da comunicação científica
O relatório demonstra a capacidade da pesquisa brasileira de dialogar com desafios globais. Além disso, mostra que a ciência não é periférica para o Estado, conforme Sabine Righetti, cofundadora da Bori e pesquisadora do Labjor-Unicamp. Ana Paula Morales, também cofundadora e diretora da Bori, ressalta que o uso do conhecimento científico em tomadas de decisão passa pela comunicação do que é feito na academia.
— Quando a evidência é comunicada de forma clara e acessível, molda o entendimento público e capacita a sociedade a exigir decisões embasadas no conhecimento — afirma. — Tornar a ciência visível não é apenas uma questão de reconhecimento, é expandir seu alcance e sua capacidade de transformar o cotidiano.
Os resultados, porém, ainda são desiguais entre áreas e perfis de pesquisadores, reforçando a necessidade de ampliar a diversidade, conforme o relatório. As nove categorias revelam onde ainda há lacunas relevantes.
— Compreender quais cientistas influenciam as políticas, e quem está faltando nessa conversa, é essencial para fortalecer a tomada de decisão baseada em evidências — avalia Euan Adie, fundador e diretor da Overton.




