
O óleo mineral aplicado em Juju do Pix não pode ser utilizado em tratamentos estéticos injetáveis, pois apresenta grandes riscos à saúde, salientam especialistas. Além disso, a remoção do produto é extremamente difícil.
Derivada do petróleo, a substância é utilizada como emoliente de cremes e produtos de beleza. Na medicina, também é usada para tratar constipação (por via oral) e algumas feridas ou condições cutâneas.
Diante disso, Rodrigo Fadanelli, cirurgião plástico e chefe do Serviço de Cirurgia Plástica da Santa Casa de Porto Alegre, destaca que não há aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o uso do óleo mineral em tratamentos estéticos injetáveis:
— Não foi de forma nenhuma idealizado para ser injetado. Então, é uma substância que não pode ser utilizada para esse fim.
Devem ser empregados produtos estéreis e adequados, produzidos especificamente para esse propósito, pontua Vanessa Cunha, médica responsável pelo ambulatório de Complicações de Procedimentos Dermatológicos Feitos por Não-Médicos, chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital São Lucas da PUCRS e professora da PUCRS.
O óleo mineral injetado em Juju do Pix provavelmente não era estéril e não é o mesmo utilizado pela indústria farmacêutica e de cosméticos, que é purificado, com outra finalidade, conforme apontam os especialistas.
Inicialmente, no caso da influenciadora, a clínica alegava que o composto injetado seria silicone industrial – que também é derivado do petróleo e não pode ser utilizado para tratamentos estéticos.
Essas substâncias costumam ser aplicadas em clínicas clandestinas, sem garantia de assepsia (higienização) e por profissionais sem formação médica. Profissionais da saúde desencorajam com veemência a busca por esses serviços, normalmente motivada por preços muito baixos.
Riscos do procedimento
Assim como no caso de Juju do Pix – que teve sequelas após realizar um procedimento em uma clínica clandestina, em 2017, e que neste mês passou por novas intervenções para remover o óleo mineral e reconstruir a face –, o uso irregular de substâncias como essa pode causar múltiplas complicações e sequelas, inclusive funcionais, ressaltam os especialistas:
- Infecções graves, como erisipela de face, devido ao uso de produtos não esterilizados, que podem levar à hospitalização. Podem atingir o sistema nervoso central e causar meningite
- Reações de corpo estranho, com fibrose e deformações (caso de Juju do Pix)
- Doenças pulmonares, como embolia pulmonar
- Impacto em órgãos, devido à migração errática desses produtos, que podem ir para gânglios linfáticos e outros órgãos
- Alterações nos rins, no fígado e nos pulmões
- Morte
— Esses produtos se difundem nos tecidos de uma forma irregular e muito ampla e produzem, além de uma reação inflamatória aguda e efeitos de longo prazo — aponta Rodrigo Fadanelli. — Na face, nós temos estruturas nobres, músculos, nervos, veias, artérias, e a injeção desse tipo de substância pode comprometer todas elas de uma forma muito importante.
O cirurgião plástico explica que não há controle sobre os produtos após serem injetados. Além disso, não existe uma substância capaz de diluir o óleo mineral, como uma espécie de “antídoto”. O mesmo vale para o silicone industrial.
Por esse motivo, o tratamento indicado é a remoção cirúrgica, um procedimento difícil e de alta complexidade, especialmente quando já há deformações. É muito difícil conseguir restabelecer a aparência, conforme destaca Fadanelli:
— A remoção completa se torna praticamente impossível. Então, normalmente, se remove parcialmente, tendo um cuidado especial com as estruturas nobres da face, que podem comprometer tanto a sensibilidade quanto a função de forma definitiva.
Vanessa Cunha, dermatologista do HSL, acrescenta que a demora para a remoção da substância pode ser ainda mais prejudicial à pessoa:
— Quanto mais tempo passa, mais difícil é a remoção, porque aumenta a fibrose, o tecido cicatricial em volta.
Cuidados com tratamentos estéticos
É fundamental que intervenções estéticas invasivas, como preenchimentos, sejam realizadas por profissionais médicos – de preferência cirurgiões plásticos ou dermatologistas – com registro no Conselho Federal de Medicina e título de especialista. As informações sobre a habilitação do profissional podem ser checadas diretamente no site do conselho.
O ambiente também deve ser propício, com condições de assepsia e os devidos alvarás de saúde. Além disso, antes de qualquer preenchimento ou tratamento estético, é importante se certificar de quais produtos serão utilizados e se são adequados, realizando, inclusive, pesquisas sobre seu uso.
— As informações estão disponíveis de forma muito fácil hoje em dia. E tire todas as dúvidas. Na dúvida, procure uma segunda opinião. Mas, antes de fazer qualquer procedimento que pode ter consequência irreversível, a informação é a palavra-chave. Tem de se informar muito bem, tanto do profissional quanto do local onde vai ser feito o procedimento, e do produto — ressalta Fadanelli.
O ácido hialurônico costuma ser o mais recomendado, por ser seguro e passível de dissolução. Vanessa lembra, porém, que clínicas clandestinas costumam comprar produtos falsificados ou de baixa qualidade para os procedimentos. Por isso, é importante verificar a procedência.
Alguns procedimentos clandestinos têm preços menores do que o próprio custo de produtos originais, alerta a dermatologista do HSL. Portanto, diante de valores muito baixos, é importante desconfiar – procedimentos muito baratos podem resultar em complicações que sairão muito mais caras depois.
Relembre o caso
Natural de Passo Fundo, no norte do RS, Juliana Oliveira é uma mulher transexual que teve sequelas após realizar um procedimento com o uso de óleo mineral em uma clínica clandestina, em 2017, com o objetivo de suavizar os traços do rosto e obter uma aparência mais feminina.
O caso ganhou notoriedade depois que Juliana enfrentou dificuldades para conseguir emprego, devido às deformações, e recorreu à internet para pedir ajuda financeira. Neste mês, ela passou por novas intervenções para remover o produto e reconstruir a face e, atualmente, está em recuperação.
A primeira cirurgia reconstrutora, realizada em 20 de novembro em São Paulo, durou cerca de quatro horas e meia. Para que não haja riscos, o procedimento não pode se estender por muito tempo, motivo pelo qual a retirada do tecido deve ser feita em partes.
Na primeira etapa, o foco foi criar simetria nas bochechas e reduzir a papada de Juju, além de aumentar a abertura bucal. Novas intervenções cirúrgicas, sem custos para a influenciadora, devem ocorrer em um período de três a seis meses.



