
O Rio Grande do Sul teve o primeiro caso de intoxicação por metanol confirmado nesta quarta-feira (8). A informação foi divulgada pelo secretário de Saúde de Porto Alegre, Fernando Ritter, em entrevista à Rádio Gaúcha. A contaminação, no entanto, teria sido a partir do consumo de bebida alcoólica em São Paulo (SP).
De acordo com Ritter, a vítima deu entrada no Hospital São Lucas da PUCRS, na Capital, em 30 de setembro, com sintomas como febre, dor abdominal e dor de cabeça, além de visão turva e alteração na percepção de cores. Os sintomas surgiram entre 12 e 24 horas após o consumo.
O homem de 42 anos teria bebido duas caipirinhas de vodca em viagem a São Paulo no último dia 26. O indivíduo já recebeu alta, mas segue em acompanhamento, relatando apenas cansaço.
Conforme o secretário, o hospital requisitou a análise em laboratório próprio (privado) e o laudo ficou pronto na madrugada desta quarta-feira, quando a instituição fez a notificação às autoridades. A Vigilância em Saúde está acompanhando o caso.
O secretário ressaltou que este caso confirmado é importado, mas há um segundo caso em investigação, de um jovem de 23 anos que é atendido na Santa Casa. As equipes estão verificando a origem da bebida consumida, que teria sido vinho. Um outro caso suspeito foi descartado na terça-feira (7).
No final da manhã, o diretor-presidente do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Gilberto Barichello, informou que o Ministério da Saúde enviará dois tratamentos com fomepizol para tratar possíveis casos confirmados de intoxicação por metanol em Porto Alegre. A previsão é de que 60 ampolas de etanol farmacêutico cheguem no aeroporto Salgado Filho às 23h15min desta quarta-feira (8). A substância será encaminhada à Secretaria de Saúde de Porto Alegre.
Já na quinta-feira (9), chegam ao Brasil um lote de 2.500 ampolas do antídoto fomepizol. O insumo foi adquirido por meio do Fundo Estratégico da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A previsão é de que o medicamento seja enviado aos Estados no mesmo dia, inclusive ao Rio Grande do Sul.
Orientação a serviços de saúde
Na manhã desta quarta-feira, o governo do Estado publicou uma nota técnica com orientações para notificação imediata de casos suspeitos de intoxicação por metanol relacionada ao consumo de bebidas alcoólicas no Rio Grande do Sul. O documento estabelece um protocolo de conduta e aponta que é preciso ter atenção a pacientes que apresentem persistência ou piora de sintomas relacionados à embriaguez, visão turva e desconfortos gastrointestinais, após seis a 72 horas da ingestão da bebida.
O texto determina que os serviços de saúde entrem em contato imediato com o Centro de Informações Toxicológicas (CIT) para alinhar se o caso se enquadra como suspeito, e com a Vigilância Epidemiológica. Já as prefeituras deverão acionar também as autoridades de segurança pública, que ficam encarregadas da localização e apreensão do produto suspeito, especialmente em casos que envolvam estabelecimentos comerciais ou locais de produção clandestina.
A investigação será realizada em conjunto pelas forças de segurança, Vigilância Sanitária local e Secretaria da Agricultura. É reforçado ainda que o produto seja entregue pelo paciente ou familiares, em embalagem original, sem violação, para garantir a integridade da amostra e possibilitar a análise pericial.
Os sintomas
Iniciais (de seis a 24 horas, com pico entre oito e 12 horas)
Ocorrem após a ingestão de metanol, sendo inicialmente parecidos com os efeitos do etanol, um depressor do sistema nervoso central:
- Euforia leve
- Sonolência
- Tontura
- Náuseas
- Vômitos
Intermediários (entre 24 e 48 horas)
Neste período, que ocorre quando o metanol está sendo metabolizado em ácido fórmico — a molécula que é realmente tóxica para o corpo —, começam a surgir os primeiros sinais graves:
- Cefaleia (dor de cabeça)
- Dor abdominal
- Visão borrada
- Convulsão
- Parada respiratória (em casos mais graves)
Graves (após 48 horas e sem ajuda clínica)
Caso a pessoa não procure ajuda clínica ou tente remediar os sintomas com métodos caseiros, o risco se agrava:
- Danos oculares
- Cegueira (muitas vezes, irreversível)
- Coma
— A recomendação é que, quando a pessoa tenha os sintomas, ela comunique ao familiar e se desloque até um serviço médico de emergência. O ideal é que seja ainda na fase inicial, quando sente náusea, vômito. Quanto mais precoce for esse atendimento, melhor. Uma vez chegando na emergência, temos protocolos bem definidos, tanto o do governo federal quanto estadual — reforça Gregory Medeiros, médico intensivista e chefe da UTI do Hospital Moinhos de Vento.
Tratamentos
O tratamento para intoxicação por metanol inclui o uso de antídotos, como o fomepizol — que bloqueia a enzima responsável por iniciar a metabolização tóxica — ou o chamado etanol farmacêutico.
— A molécula de etanol, via oral ou intravenosa, vai fazer com que ele entre primeiro nos receptores, causando o impedimento da metabolização ou transformação do metanol — explica Cleverson Feistel, biomédico toxicologista e professor da Ulbra Canoas.
Em casos graves, porém, é necessária a hemodiálise para remover rapidamente o metanol do organismo. É importante ressaltar que apenas 10ml de metanol já é suficiente para causar cegueira, e 30ml é considerada a dose mínima fatal para um adulto. Porém, quando o serviço de saúde é buscado de forma rápida, é possível reverter a intoxicação.
Atendimento de emergência
De acordo com o Ministério da Saúde, estas são as primeiras ações que devem ser tomadas nas emergências:
- Garantir que o paciente esteja respirando adequadamente e com a via aérea livre
- Monitorar sinais vitais, glicemia e pupilas
- Fazer hidratação venosa e realizar exames de sangue e gasometria arterial para avaliar a gravidade da intoxicação
- Não realizar lavagem gástrica nem usar carvão ativado — esses métodos não removem o metanol do organismo


