
Uma cirurgia que ocorreu com o médico a mais de 12 mil quilômetros de distância do paciente e conquistou um recorde mundial. Outra, realizada pela primeira vez inteiramente no Brasil ente duas regiões diferentes. Os casos de sucesso, que envolvem um professor e um hospital gaúchos, respectivamente, foram possíveis graças à telecirurgia robótica — e alçam o Rio Grande do Sul à vanguarda dessa especialidade no Brasil.
A operação realizada por um médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) conectou Brasil e Kuwait, sendo reconhecida pelo Guinness World Records. Já o Hospital Mãe de Deus (HMD), também na Capital, foi palco da primeira telecirurgia robótica não experimental 100% realizada no Brasil, que ocorreu a uma distância de mais de mil quilômetros entre São Paulo e Rio Grande do Sul.
Ao longo dos últimos dois anos, a telecirurgia robótica vem avançando a passos largos. O procedimento demanda dois robôs da mesma marca com dispositivo para telecirurgia e cirurgiões treinados. Nessa especialidade, o cirurgião realiza movimentos em um controle que são fielmente reproduzidos por um equipamento no local onde está o paciente.
Procedimento intercontinental
Além da cirurgia realizada no Kuwait por Leandro Totti, cirurgião geral e do aparelho digestivo e professor de Cirurgia da UFRGS e do HCPA, com o paciente estando em Curitiba, médicos kuwaitianos foram até a capital paranense para realizar o procedimento em um paciente que estava no Kuwait.
As operações, que envolveram cerca de 150 profissionais, alcançaram o marco — chancelado pelo Guinness — de distância mais longa entre cirurgião e paciente: 12.034 quilômetros. Além disso, foi uma das primeiras telecirurgias robóticas realizadas em um humano no Brasil.
Esses dois procedimentos foram planejados por cerca de dois anos e realizados no dia 23 de setembro no Hospital Cruz Vermelha, em Curitiba, e Sheikh Jaber Al-Ahmad Al-Sabah Hospital, no Kuwait. São fruto de um programa de colaboração, sob a coordenação do cirurgião Marcelo Loureiro, entre o Scolla Centro de Treinamento Cirúrgico, em Curitiba, e os profissionais do Kuwait, país que há sete anos busca atrair conhecimento sobre cirurgia minimamente invasiva.
A operação do paciente Brian de Carvalho, 25, que estava em Curitiba, transcorreu com sucesso. O administrador aceitou realizar o procedimento por ter um perfil considerado ideal, além de já conhecer o médico e o hospital, o que lhe transmitiu segurança, já que a cirurgia não apresentava riscos aparentes. Carvalho recebeu alta no dia seguinte e continuou os cuidados em casa.
— Estou bem, graças a Deus. Foi nota 10. Não tive dor, não precisei voltar ao hospital, e os medicamentos foram tranquilos. Minha rotina voltou — conta Carvalho.
Professor gaúcho é referência
Como o professor gaúcho entra na história? Referência em cirurgia robótica, Totti era convidado com frequência para ministrar aulas e tornou-se sócio do centro.
A operação, para hérnia inguinal, é um procedimento usual, que tem um impacto importante na capacidade de trabalho dos pacientes, como explica Totti:
— No Brasil, hoje, menos de 5% das hérnias inguinais são operadas por cirurgia minimamente invasiva, laparoscópica ou robótica. A nossa ideia foi: se a gente provar que essa cirurgia devolve o paciente mais rápido para suas atividades, que tem menos dor, que pode ser feita a distância com segurança, imagina fazer isso em um país de dimensão continental como o Brasil. Poder, de Porto Alegre, ajudar um cirurgião no interior do Maranhão, ou qualquer lugar que tenha o robô disponível e treinamento básico. Poder operar vários pacientes por dia.
Tecnologia como parceira
O procedimento foi realizado com o robô cirúrgico MP1000, da Edge Medical. A equipe mediu a latência (tempo de resposta), que foi, em média, 0,155 milissegundos (abaixo do preconizado), e a perda de dados, que praticamente não aconteceu (1%). A cirurgia foi realizada no mesmo tempo cirúrgico e com a mesma segurança dos procedimentos rotineiros, conforme o cirurgião.
— Para nós, foi uma prova de conceito cabal. Podemos, sim, oferecer para os pacientes — frisa Totti.
Em outubro, os especialistas também demonstraram que é possível realizar a cirurgia com uma transmissão de internet normal, dentro do limite geográfico do Brasil.
Telecirurgia 100% nacional

Na telecirurgia robótica não experimental realizada inteiramente no Brasil pela primeira vez, o procedimento foi feito pelos cirurgiões robóticos mais experientes do Hospital Nove de Julho, Rafael Coelho, que estava em São Paulo, e do Hospital Mãe de Deus (HMD), Marcos Tefilli, que estava em Porto Alegre.
A complexidade do procedimento — retirada de próstata em um paciente de 73 anos com diagnóstico de câncer — indicava a necessidade de uma cirurgia robótica, conforme a equipe médica.
A aquisição da plataforma Toumai, da Microport, pelo HMD em setembro permitiu aproveitar a oportunidade para demonstrar essa possibilidade de intervenção em uma parceria com o hospital paulista.
— Foi uma cirurgia extremamente complexa — destaca Tefilli. — Além da cura do câncer propriamente dito, tem toda a questão da preservação da função urinária, da função sexual, e é uma cirurgia que tem, além da ressecção, a reconstrução. Tudo isso faz dessa cirurgia um procedimento difícil de ser realizado.
Cirurgia "de emocionar"
A cirurgia foi feita em Porto Alegre em 6 de outubro, após um período de capacitação, testes e simulações de erros. Durou cerca de uma hora, com uma latência baixa, de 20 milissegundos.
— Tenho mais de 20 anos de experiência com esse tipo de cirurgia e com robótica nos últimos anos. Fiquei impressionado com a qualidade. Foi muito boa a cirurgia, de emocionar — relata Tefilli.
O paciente, Paulo Feijó, 73, já havia perdido o irmão devido a um câncer de próstata e, em agosto, descobriu a doença durante exames de rotina. O aposentado teve alta no dia seguinte ao procedimento e voltou a realizar atividades normais rapidamente, considerando "ótimo" o pós-operatório como.
— Fui tremendo. Estava com muito medo de não ver mais o meu neto, sou muito ligado nele, meu sobrinho-neto — relata. — Mas foi bem a cirurgia. Quando vi, já estava em casa e não precisei tomar medicação nenhuma, nem para dor. Me surpreendi com essa cirurgia, não sabia que era tão fácil, tão rápida.
A revolução da telemedicina robótica
A tecnologia de cirurgia robótica já é utilizada há quase uma década. De acordo com os especialistas, fornece mais precisão, visibilidade, acesso, movimentos, redução de tremores, além de ser menos agressiva e proporcionar cirurgias mais seguras. Por ser minimamente invasiva, também reduz tempo de internação, dor pós-operatória e sangramento.
A telecirurgia incrementa ainda mais os benefícios: permite a integração de diferentes especialidades médicas, bem como monitoria a distância e transferência de conhecimento e ensino de técnicas cirúrgicas (teleproctoria), com o auxílio de experts, sobretudo para áreas remotas.
A intervenção é útil principalmente ao permitir a realização de cirurgias a distância em áreas remotas e locais onde não há especialistas, que passam a estar disponíveis através da tecnologia. Tiago Ramos, diretor-médico do Hospital Mãe de Deus, avalia:
— A grande vantagem é aproximar grandes médicos de polos científicos de São Paulo ou fora do país de um paciente que está aqui no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Além disso, evita o deslocamento do paciente até um grande centro — situação em que poderia ficar sem apoio no pós-operatório — e do médico, que pode operar pacientes de outros lugares no mesmo dia.
Tecnologia reduz custo
Para Ramos, a possibilidade de telecirurgia robótica se tornará ainda mais válida em casos de procedimentos de alta complexidade. Embora seja uma tecnologia de ponta com alto custo atrelado, o diretor-médico do HMD acredita que a técnica irá se popularizar.
— O custo de todo o ato do procedimento, não somente da cirurgia, mas do ato de internar e permanecer em recuperação, de modo geral, reduz com a robótica — aponta.
O valor pago por convênios pelo ato cirúrgico continua sendo o mesmo, embora alguns materiais necessários ainda não tenham cobertura, segundo Ramos.
A tecnologia permitirá levar cirurgias minimamente invasivas e de ponta para um número muito maior de pessoas, embora ainda dependa da disponibilidade de equipamentos e de recursos, como avalia Leandro Totti. A falta de especialistas em regiões específicas e de profissionais capacitados para utilizar o equipamento ainda são grandes limitadores da disseminação da tecnologia, conforme os especialistas.
— Se conseguir descentralizar o especialista e tiver de fornecer só a tecnologia, já vamos conseguir dar um grande salto — afirma Totti. — A questão agora é recurso, é mobilizar as pessoas, fazer elas enxergarem que é factível, que tem gente aqui que tem expertise, que tem a tecnologia para fazer.


