
A equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Canoas enfrenta uma série de problemas. As denúncias envolvem atrasos salariais, más condições de trabalho e ausência de itens básicos para o atendimento, como equipamento para tratamento de paradas cardíacas súbitas.
A situação ocorre há anos, mas, segundo os profissionais, o cenário piorou após a enchente de maio de 2024. Além de atender os moradores de Canoas, a equipe é responsável pelos chamados de Nova Santa Rita.
Canoas conta com duas bases do Samu: uma ao lado do Hospital Nossa Senhora das Graças e outra junto ao Pronto-Socorro. As duas estruturas apresentam condições insalubres, de acordo com os profissionais ouvidos pela reportagem.
A prefeitura de Canoas afirma que mantém em dia os repasses para a empresa que opera o serviço (veja, mais abaixo, o que diz o município).
Ambulâncias precárias colocam pacientes em risco
Pneus carecas, falta de ar-condicionado nos veículos e questões envolvendo freios são alguns dos problemas apontados nas ambulâncias. Também falta manutenção e reposição do desfibrilador externo automático (DEA). O equipamento é usado para tratar paradas cardíacas súbitas, aplicando um choque elétrico para fazer com que os batimentos cardíacos voltem ao ritmo normal.
— Tem ambulâncias atuando sem o desfibrilador. Também faltam as pás que são coladas no peito do paciente. O material é descartável, mas, como é caro, a gente tem que usar em vários atendimentos. Às vezes, quando vamos atender uma parada cardíaca, a pá não gruda, não detecta e, assim, o aparelho não funciona. Quem acaba sofrendo é o paciente, que, por vezes, vem a óbito — relatou um técnico que não quis ser identificado por medo de represália.
Atualmente, duas ambulâncias do município estão fora de operação. Em maio, um veículo pegou fogo durante um atendimento na BR-116. O incêndio começou no motor e foi contido pelo próprio motorista. Na ocasião, um paciente estava dentro da ambulância, mas ninguém ficou ferido.
Segundo os profissionais, a orientação da empresa responsável pela gestão do serviço é utilizar os veículos até que eles estraguem:
— Eles mandam rodar até estourar. Depois, vai para a oficina, mas a empresa não paga e não podemos retirar a ambulância. No caso do veículo que pegou fogo, ele não passava por manutenção há tempos — comentou.

Esgoto a céu aberto e ratos em sedes
A sede 1 fica localizada junto ao Hospital de Pronto Socorro, no bairro Mathias Velho. O local foi totalmente afetado pela enchente de maio de 2024. Na estrutura, não há local adequado para limpeza e descartes de materiais. Conforme os relatos, janelas estão quebradas, há goteiras e mofo nos alojamentos usados para descanso.
Ao lado do contêiner utilizado como sede 2, no Hospital Nossa Senhora das Graças, o esgoto é descartado a céu aberto. No local, há um matagal e lixo acumulado, o que aumenta a proliferação de ratos:
— Quando vamos no banheiro, os ratos passam nos nossos pés. Quando tiramos o lixo orgânico ou mexemos na cozinha, os bichos entram pela porta. É muito insalubre — comentou um profissional.
Além das condições insalubres, os funcionários seguem com dificuldades em relação ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Conforme os relatos, o último depósito foi realizado em maio de 2024 e, desde então, não há movimentação nas contas.
O pagamento de vale-alimentação não está sendo feito há pelo menos dois meses. Também há atraso no depósito de férias e falta de pagamento do piso da enfermagem.
O que diz a prefeitura
Procurada pela reportagem de Zero Hora, a prefeitura de Canoas informou que a gestora do Samu é a empresa CAP Emergências Médicas e que todos os repasses estão em dia. Segundo o município, a empresa foi notificada a apresentar a comprovação do recolhimento do FGTS 2024 e o pagamento de vale-alimentação dos seus funcionários.
Segundo o município, a CAP Emergências Médicas também é responsável pela higienização, desratização, fornecimento de materiais e manutenção das ambulâncias. A reportagem tenta contato com a instituição. O espaço segue aberto para manifestação.
A prefeitura afirma que, sempre que há problemas, os veículos são retirados de circulação para reparos.
De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), um imóvel foi alugado pelo município para ser a nova sede do Samu. A estrutura, na área central de Canoas, passa por reformas. A previsão é de que o local esteja em funcionamento ainda em 2025.
Confira a nota da prefeitura de Canoas na íntegra:
"A Prefeitura de Canoas, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, informa que todos os pagamentos para a empresa CAP Emergências Médicas, gestora do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Canoas, estão rigorosamente em dia. A empresa já foi notificada a apresentar a comprovação do recolhimento do FGTS 2024 e o pagamento de vale-alimentação dos seus funcionários.
A Secretaria Municipal da Saúde ressalta ainda que é de responsabilidade da empresa a higienização e desratização das acomodações dos funcionários, bem como o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados. A manutenção dos equipamentos e ambulâncias do Samu também é de responsabilidade da CAP Emergências Médicas e, sempre que há problemas, os veículos são tirados de circulação para reparos.
A Prefeitura informa também que o Município já alugou um novo imóvel para instalar a sede do Samu na área central de Canoas. O espaço está passando por reformas e sendo adequado às normas federais do Samu e deverá entrar em funcionamento ainda em 2025."
