
Os novos medicamentos nacionais à base de liraglutida já estão disponíveis nas farmácias. Com a queda da patente no final de 2024, as canetas injetáveis para obesidade e diabetes passaram a ser fabricadas pela indústria nacional neste ano.
Fabricadas pela EMS, as canetas brasileiras têm a mesma substância e dosagem dos medicamentos internacionais, com duas indicações: Olire é para o tratamento de obesidade e sobrepeso; e Lirux, para diabetes tipo 2. A aplicação também é diária.
O produto foi apresentado à classe médica na última quarta-feira (3), durante o Congresso Brasileiro de Atualização em Endocrinologia e Metabologia 2025, em Gramado.
Quanto custam as canetas nacionais?
Conforme consulta realizada pela reportagem nesta manhã de segunda-feira (8) em sites de três redes de farmácias com presença no Rio Grande do Sul, os medicamentos nacionais têm preços médios de R$ 507 (Lirux, caixa com duas canetas) e R$ 760 (Olire, três canetas). Os valores estão de R$ 103 a R$ 107 abaixo dos concorrentes internacionais, que custam em média R$ 610 (Victoza, duas canetas) e R$ 867 (Saxenda, três canetas), respectivamente.
Segundo Iran Gonçalves Jr, diretor-médico da EMS, a companhia se preocupa com acesso e tem como objetivo oferecer os produtos no mercado pelo menor preço possível. A empresa também oferece um programa de fidelidade. Conforme as vendas e a capacidade de produção aumentarem, o preço deve ser ajustado, informa ele.
Os medicamentos são produzidos na fábrica de Hortolândia (SP). O projeto foi desenvolvido ao longo de mais de 10 anos, com pesquisas e análises para avaliar a possibilidade de produção da molécula no Brasil. O ciclo de vida de um processo da indústria farmacêutica é longo: é preciso aguardar o fim da patente, que costuma durar 20 anos, aponta o diretor-médico da empresa.
O investimento nos produtos foi de cerca de R$ 1 bilhão, com construção de fábrica, contratações e desenvolvimento de tecnologia. O grande diferencial é a incorporação no complexo industrial da saúde, segundo a empresa.
— É uma coisa que ficou bastante em voga depois da pandemia de covid-19. O país não pode só depender de insumos externos. Então, o governo federal, desde aquela época, por meio do BNDES e de outros órgãos de fomento, tem procurado fazer com que tenhamos autonomia e capacidade de produção de vários insumos nesse complexo médico-industrial de saúde — afirma Gonçalves Jr.
Questões jurídicas
Na última semana, uma decisão da Justiça Federal do Distrito Federal recompôs a vigência da patente da Novo Nordisk por mais oito anos, após a empresa alegar atraso de 13 anos na análise do processo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). A farmacêutica dinamarquesa produz os medicamentos com liraglutida Saxenda e Victoza. Ainda cabe recurso, e por isso a decisão não terá impacto imediato.
No último sábado (6), o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) concedeu liminar em favor da EMS, assegurando a continuidade da fabricação e comercialização de seus medicamentos à base de liraglutida.
Descontinuação do Victoza
A Novo Nordisk informou que está em processo de descontinuação da produção e comercialização do medicamento Victoza até o último trimestre de 2025. A decisão afeta todos os países onde a empresa opera, inclusive o Brasil. Além disso, há intermitência de fornecimento do Saxenda devido à alta demanda. A companhia também produz canetas à base de semaglutida, como Ozempic e WeGovy.
O diretor-médico da EMS aponta que os medicamentos com liraglutida ainda são vendidos nos principais mercados mundiais, inclusive nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, serão 250 mil canetas produzidas em 2025, com uma capacidade produtiva que será ampliada e deve chegar a 20 milhões por ano.
Com a quebra de patente da semaglutida em 2026 e o parque industrial já montado, a empresa conseguirá produzir o insumo — e há esse plano, segundo o diretor-médico da EMS.
No final de 2024, a empresa brasileira Cimed também indicou que deve começar a produzir um medicamento injetável em breve, sem fornecer detalhes.

Perda de peso
Mesmo que a liraglutida não resulte em perdas de peso tão expressivas quanto outros medicamentos com semaglutida ou tirzepatida, leva à diminuição de eventos cardiovasculares, frisa Gonçalves Jr. O diretor-médico da empresa ressalta que o foco não é a questão estética, e sim os tratamentos para obesidade e diabetes.
— Essa não é uma medicação para o cidadão só caber no terno ou caber no vestido na véspera do casamento. É para diminuir a incidência de infarto, AVC, morte súbita. É isso que esperamos. A obesidade é uma doença crônica e, no Brasil, já é um problema de saúde pública, que leva a uma série de doenças cardiovasculares, insuficiência renal crônica, infarto, AVC, doença vascular periférica — salienta.
