
Psicóloga clínica e professora emérita na Escola de Medicina David Geffen da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos, Catherine Lord atua com foco no transtorno do espectro autista (TEA) e distúrbios relacionados.
Autora de centenas de artigos e mais de 10 livros sobre autismo, a norte-americana é reconhecida pelo codesenvolvimento do Protocolo de Observação para Diagnóstico de Autismo (ADOS) e da Entrevista Diagnóstica para o Autismo Revisada (ADI-R), consideradas ferramentas "padrão ouro" para o diagnóstico do TEA.
Seu trabalho busca melhorar os métodos de identificação de pontos fortes e dificuldades em indivíduos com possível TEA e trabalhar com as famílias para maximizar a independência e o bem-estar de todos.
Recentemente, a especialista veio ao Brasil para participar do Brain Congress — Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções, onde frisou que vacinas não causam autismo. Destacou que não há um tratamento exclusivo ou único para crianças e que pessoas com autismo são muito diferentes entre si.
Em entrevista a Zero Hora, a psicóloga discorreu sobre o diagnóstico e a aceitação social, a importância da detecção precoce, os avanços em intervenções e caminhos promissores da pesquisa clínica.
Leia a entrevista com Catherine Lord
Algumas pessoas acreditam que aumentou o número de diagnósticos de TEA. Também temos visto mais pessoas adultas recebendo o diagnóstico. Houve uma melhora na conscientização ou na qualidade do diagnóstico?
As pesquisas sugerem que não há um aumento real, mas que as pessoas estão muito mais conscientes do autismo, mesmo em adultos. Pessoas que sempre tiveram autismo estão começando a se dar conta agora. Parte disso se deve ao fato de que os critérios para o autismo estão mais amplos, então pessoas com problemas mais atenuados estão recebendo o diagnóstico.
O TEA também é mais aceito, não é mais tão estigmatizado. Nos Estados Unidos, pelo menos, as pessoas podem se tornar parte de comunidades de autismo. Há um benefício em ter um diagnóstico, o que não existia antes. Todos esses fatores resultaram em números mais altos.
Qual é a importância do diagnóstico precoce?
Quando diagnosticamos mais cedo, podemos trabalhar melhor a comunicação. Isso faz diferença para a família e para a pessoa, para o que elas podem fazer.
Você defende a necessidade de acompanhar as crianças diagnosticadas com autismo não uma só vez, mas durante todo o período até os cinco anos, inclusive na fase pré-escolar. Por que esse acompanhamento longitudinal é considerado tão crucial?
Parte disso é que o autismo é uma desordem muito diversa. As pessoas são diferentes umas das outras. Então, quando você sabe que uma criança tem autismo, há muitas coisas que você ainda não sabe sobre o que vai acontecer com ela e o que faz mais sentido para ela. E essas coisas se tornam mais aparentes à medida que você passa pela pré-escola.
Seria também para diferenciar de outros diagnósticos?
Seria sim, até certo grau. Em cada caso, é preciso diferenciar o autismo de outros transtornos ou entender se o autismo está associado a outros transtornos.
Quais são as novidades em termos de intervenções em autismo?
A intervenção precoce mais comum é a comportamental. O que mudou é que as pessoas ficaram muito melhores em fazê-la de forma natural e ligada ao desenvolvimento da criança. Também ficaram mais conscientes de como fazê-la em circunstâncias mais normais, como na pré-escola, em vez de sentar em uma mesa em um quarto vazio.
Outro aspecto é que estamos muito mais conscientes de que quanto mais os pais se envolverem, melhor. Não é apenas os pais fazendo tratamento, mas os pais entendendo o que faz diferença para o filho. O ideal é que o clínico trabalhe com os filhos e com os pais em vez de um ou outro.
Para onde caminha a pesquisa clínica em transtorno do espectro autista?
A maioria das pesquisas tem estado focada na biologia. Há muitas descobertas interessantes, mas muito pouco que seja prático.
A grande esperança da biologia são intervenções para condições genéticas muito raras. Há muito interesse, mas ainda não é claro quando você pode fazer isso. Provavelmente você precisa fazer isso cedo, mas quantas pessoas iriam querer que seus filhos fizessem essas intervenções que são muito novas?
Além disso, há mais foco em como ajudar pessoas autistas inteligentes a serem parte de uma comunidade. O que você precisa fazer para ajudá-las a serem tão ativas, positivas e independentes quanto possível?
E o terceiro aspecto é que há mais ênfase agora no que você pode fazer para ajudar pessoas com autismo muito profundo a viver uma vida tão feliz quanto possível. Não vamos torná-las completamente independentes, mas o que você pode fazer para ajudar suas famílias e essas pessoas?
Você tem exemplos dessas intervenções genéticas?
Não no autismo. Há algumas intervenções meio miraculosas em um tipo de atrofia espinhal e, recentemente, em um bebê com uma doença autoimune, em que conseguiram usar a genética e proporcionar um tratamento que o preveniu de morrer. Essa é a empolgação.
O problema é que o autismo está no seu cérebro. Uma coisa é inserir um gene no cordão espinhal ou no sangue; outra, bastante complicada, é colocá-lo no cérebro. Mas essa é a esperança.
Como você avalia o impacto do uso de telas por crianças com autismo?
Há três aspectos. Em primeiro lugar, precisamos nos perguntar: há coisas que elas não estão fazendo porque estão em frente à tela?
Em segundo: ao que elas estão assistindo? Porque se elas estão vendo o TikTok ou coisas que não são muito baseadas na realidade, ou vendo jogos, mas nem mesmo jogando, então isso provavelmente é diferente de assistir a outras coisas.
E em terceiro: é adicto? Porque as pessoas ficam adictas ao tempo de tela e não conseguem parar.
Então, não é a tela em si: é o que elas estão fazendo, o que elas não estão fazendo e se você pode controlar isso, ou se o filho pode controlar.

