
Renomado cardiologista, professor da Harvard Medical School e médico do Brigham and Women's Hospital, Peter Libby esteve em Porto Alegre no início de agosto para participar do evento Clinical Research Summit, promovido pelo Hospital Moinhos de Vento. Libby ministrou uma aula magna sobre inflamação, destacando seu papel comum em diversas doenças.
Especialista no estudo da inflamação em doenças vasculares e aterosclerose, Libby é autor de mais de 400 publicações e referência na produção de conhecimento científico de alto impacto. Ele busca transformar pesquisas básicas de laboratório em ensaios piloto e, posteriormente, em estudos clínicos de grande escala.
Em entrevista a Zero Hora, o cardiologista falou sobre inflamação, o potencial do Brasil na pesquisa clínica, os desafios da divulgação da ciência e o papel do estilo de vida e de novas terapias – como as canetas emagrecedoras – na prevenção e saúde cardiovascular.
Confira a entrevista com Peter Libby
Nas redes sociais, o tema da inflamação ganhou popularidade, muitas vezes, de forma distorcida, com alegações de que praticamente tudo poderia causar o problema, até mesmo o leite. Considerando que sua pesquisa mostrou conexões entre a inflamação e a saúde cardiovascular, alguma dessas alegações tem fundamento científico?
É preciso exigir rigor científico em todas as alegações de relação com inflamação. Então, depende da alegação específica. Mas é claro que existem alguns alimentos e nutrientes que têm efeitos anti-inflamatórios, e pode ser que outros sejam pró-inflamatórios. Deixe-me dar alguns exemplos em que acredito que os dados corroboram esses pontos de vista. Por exemplo, o azeite de oliva, extravirgem, demonstrou ser um suplemento alimentar capaz de melhorar os resultados cardiovasculares em estudos de larga escala. E isso pode ser porque atua como antioxidante, entre outros mecanismos. Também está claro que certas carnes superoxidadas podem, quando metabolizadas por bactérias intestinais, dar origem a compostos químicos que podem ser prejudiciais à saúde cardiovascular. Então, definitivamente há alguma verdade, um fundo de verdade nisso. Basicamente, acho que é muito mais o quanto comemos, e não o que comemos, que determina nossa saúde.
Durante sua apresentação, você falou sobre canetas emagrecedoras e seu impacto na inflamação. Elas podem ter uso potencial em cardiologia ou ainda é preciso mais cautela?
Estamos apenas no começo, no limiar de uma revolução na medicina. É triste que questões comportamentais e sociais tenham levado a esta pandemia de obesidade e diabetes. Mas estou feliz que temos pelo menos uma maneira de colocar o dedo no dique, para evitar algumas das piores consequências antes de nos tornarmos mais inteligentes em relação ao nosso meio ambiente e às nossas escolhas pessoais em termos de um estilo de vida saudável.
Há evidências crescentes de que os medicamentos de incretina (que ajudam a regular os níveis de glicose) têm efeitos anti-inflamatórios, não apenas devido à perda de peso, porque o tecido adiposo visceral, o tipo de gordura que temos dentro do abdômen ou em locais ectópicos (os lugares onde normalmente não temos muita gordura) é muito pró-inflamatório. Está repleto de células inflamatórias e produz mediadores inflamatórios. Portanto, a perda de peso por si só reduz a inflamação.
Mas observamos que os benefícios anti-inflamatórios, os marcadores de inflamação, diminuem em pessoas que tomam miméticos da incretina antes que ocorra uma perda de peso substancial. Então, é como a cirurgia bariátrica, que tem o mesmo tipo de efeitos na saúde que precede a perda de peso.
Portanto, não pense na obesidade apenas como um problema estético. É um problema médico intimamente relacionado à inflamação. E, felizmente, os miméticos da incretina podem prevenir parte da inflamação associada à obesidade, além de ter efeitos anti-inflamatórios diretos, que estamos valorizando mais e tentando entender de uma perspectiva mecanicista.
Mas esses medicamentos já estão sendo prescritos? Sabemos que há um uso off-label por outros motivos, principalmente estéticos. Eles já estão sendo utilizados para reduzir eventos cardiovasculares ou ainda não?
Estamos na era inicial do uso aprovado de miméticos da incretina para fins cardiovasculares. Um medicamento, com base em ensaios clínicos, foi aprovado pela Food and Drug Administration nos EUA para indicações cardiovasculares. Mas você tem razão. Muitos de nós prescrevemos esses medicamentos aos nossos pacientes, não por razões estéticas, mas para melhorar a saúde metabólica. E (também) para os nossos pacientes de maior risco, que já tomam diversos tipos de medicamentos ativos e baseados em evidências, mas ainda estamos preocupados e compartilhamos a preocupação com o paciente sobre risco, acho que muitos de nós estamos usando esses agentes talvez antes da aprovação.
Lembre-se de que, uma vez que um medicamento é aprovado para qualquer indicação, um médico pode usar o julgamento para utilizá-lo, é isso que você chama de uso off-label. E eu acho que isso está acontecendo.
Você tem uma longa trajetória na pesquisa científica, com diversas publicações e uma colaboração constante com pesquisadores brasileiros. Na sua visão, como está o desempenho do Brasil na área de pesquisa clínica?
O Brasil tem um potencial imenso para alcançar a liderança mundial. Acredito que há um capital humano fantástico aqui. O povo brasileiro é incrivelmente inteligente e pode ser muito trabalhador. Acho que a infraestrutura para pesquisa melhorou imensamente desde que cheguei ao Brasil, na década de 1970. Agora, em princípio, o problema de infraestrutura está resolvido.
Vou lhe dizer o que vejo que está faltando: uma cultura de apoio à pesquisa, onde os médicos jovens, em particular, tenham tempo reservado para se dedicar à pesquisa. Com muita frequência, os melhores e mais brilhantes, mesmo aqueles que receberam treinamento avançado em pesquisa, precisam passar o dia no hospital e as tardes e noites em pronto socorro ou consultório particular para ganhar a vida. Enquanto a pesquisa for feita nos fins de semana e tarde da noite, o Brasil não alcançará seu potencial de liderança mundial. Porque você tem todos os outros ingredientes (...) Agora o que você precisa é de uma mudança cultural para que os sistemas médicos ofereçam suporte às pessoas durante um tempo reservado para pesquisa. Durante o governo Dilma (Rousseff), quando havia o Ciências Sem Fronteiras, fiz um lobby muito forte junto ao Ministério para que reconhecesse essa lacuna. Acho que sempre houve uma escuta educada, mas não vi nenhuma ação. Então, eu realmente acho que os líderes, tanto de instituições acadêmicas e hospitais quanto do governo estadual e federal, precisam entender que um investimento real em pesquisa de qualidade, protegendo o tempo de jovens pesquisadores, teria um retorno enorme em termos da projeção internacional do Brasil, mas também em termos de saúde pública.
Como podemos garantir que o conhecimento gerado pela pesquisa científica chegue à sociedade e realmente se traduza em benefícios para os pacientes?
Temos um problema na medicina, e falo particularmente por nós, nos Estados Unidos, que conheço bem: estamos perdendo a confiança do público na ciência e nos avanços da medicina. Por exemplo, há muito ceticismo em relação à vacinação, em relação a produtos farmacêuticos, porque muitos médicos são vistos como instrumentos da indústria farmacêutica. E certamente há indivíduos que podem ser motivados por ganhos econômicos pessoais, mas, de longe, a grande maioria das pessoas que se dedica à investigação e se esforça para melhorar a saúde pública não o faz por interesses financeiros próprios.
E como podemos remediar isso? Precisamos ser melhores comunicadores. Precisamos tentar contrabalançar a ciência lixo que está prontamente disponível na internet e as teorias da conspiração que são amplamente difundidas, com ciência rigorosa, mas apresentadas de uma forma que não seja vista como arrogante, onisciente ou interesseira. Portanto, precisamos ser tão bons em comunicação pública quanto muitos populistas são na arena política, para tentar equilibrar a conversa.
E como você tem se adaptado a esse cenário?
Digo que, pessoalmente, na minha prática médica, me tornei muito mais aberto à perspectiva do paciente à medida que adquiri experiência e talvez idade, e também com a mudança cultural. Quando eu era um jovem médico, havia uma atitude muito paternalista, em que o médico sabia mais. E agora, toda vez que entro no quarto de um paciente ou na sala de consulta, acho que é meu trabalho adaptar meu sistema de crenças ao do paciente, de forma a levar ao melhor resultado para a saúde daquele paciente em particular. Então, tenho muitos pacientes que recebem cuidados de profissionais de medicina alternativa e de mim, e trabalho com eles para tentar negociar essa dicotomia entre a medicina não padrão e meu tipo de medicina baseada em evidências, para realmente criar um plano de tratamento que o paciente aceite e que seja apropriado para ele. O modelo agora é de decisões compartilhadas em vez de um modelo paternalista. Também precisamos aprender a falar de uma forma que as pessoas entendam, em vez de usar termos gregos e latinos que são misteriosos.
Como podemos financiar pesquisas que não oferecem lucro a curto ou médio prazo? Por exemplo, estudos que abordam tópicos muito específicos.
O investimento em ciência básica traz retornos imprevisíveis. Há consequências práticas de muitas investigações teóricas. Portanto, minha opinião é que, se você apoia a boa ciência, a ciência rigorosa, os benefícios desse investimento serão multiplicativos a longo prazo, mas de maneiras imprevisíveis. Por exemplo, estudos científicos muito básicos sobre a estrutura dos componentes químicos do RNA, que poderiam ser incorporados ao RNA e torná-lo menos imunogênico, menos pró-inflamatório, pareciam pesquisas muito misteriosas. Mas então, quando precisávamos fazer vacinas de RNA, esse conhecimento científico básico acabou tendo imenso benefício público e seria totalmente imprevisível em relação às grandes aplicações dos cientistas que estavam trabalhando em seus laboratórios para tentar aprender sobre a modificação do RNA para torná-lo menos inflamatório.
O investimento em pesquisa de qualidade, garantindo tempo para os jovens pesquisadores, traria um retorno enorme, não só em termos de projeção internacional do Brasil, mas também na saúde pública
PETER LIBBY
Cardiologista e pesquisador
Quais são as estratégias mais eficazes para prevenir problemas cardiovasculares e aterosclerose?
Um estilo de vida saudável é a base de toda prevenção cardiovascular — o que inclui alimentação equilibrada e atividade física regular, apropriada para a idade e a pessoa. Quando digo isso a pacientes que afirmam “não ter tempo”, costumo perguntar: “Bem, você tem tempo para um ataque cardíaco?”. E, quando dizem que não conseguem ir muito longe por causa de problemas no joelho ou no quadril, respondo: “Alguma coisa é melhor que nada”.
Por isso, encontre alguma forma de atividade física que não te limite, que você possa praticar regularmente. A consistência é fundamental no estilo de vida.





