— Talvez a minha história fosse diferente se eu tivesse tomado a vacina na época — reflete Elisabete Ramos, 57 anos, aposentada. — Foi bem difícil, não a minha paralisia, mas as sequelas que ela me trouxe.
Embora tenha sido erradicada das Américas há mais de três décadas, a poliomielite deixou cicatrizes latentes até os dias atuais. Quando tinha apenas sete meses de idade, Elisabete foi diagnosticada com paralisia infantil, como a doença é conhecida.
Uma febre alta e incessante levou sua mãe a procurar atendimento médico, mas o sintoma foi considerado normal. Somente quando seus bracinhos e perna paralisaram, o diagnóstico veio.
Ainda que os números tenham melhorado, as baixas coberturas vacinais no Brasil são atribuídas a um cenário multifatorial e complexo, conforme os especialistas ouvidos por Zero Hora. Um dos desafios é a diminuição da percepção de risco: a redução ou erradicação de doenças graves, como a poliomielite, leva à menor visualização de novos casos e sequelas – e, consequentemente, da compreensão da importância da vacinação.
Com fisioterapia, os braços da moradora de Canoas voltaram a funcionar. Porém, com a perna encurtada e sem força mesmo após cirurgias, ela precisou utilizar aparelho para caminhar e muletas. O alto custo do equipamento, entretanto, inviabilizou o uso contínuo, e a jovem teve de passar a contar somente com as muletas.
— A vacina é muito importante. Nunca mais ouvi dizer, em toda a minha vida, que alguém teve paralisia infantil depois que as pessoas começaram a tomar a vacina. Mas a minha mãe não teve esse tempo — compartilha, relatando que, à época, a matriarca foi impedida de vaciná-la devido a uma febre e ao difícil acesso ao transporte.
Os imunizantes são "vítimas do próprio sucesso", afirma Paulo Gewehr, médico infectologista, representante regional da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e supervisor do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento.
— (A pessoa) acaba achando que a vacina não é mais necessária porque não vê mais a doença circulando. Isso é um erro, porque a doença não circula mais graças à vacinação, que faz uma proteção invisível na população — enfatiza.
Com a idade, a doença trouxe outras sequelas para Elisabete, como a Síndrome Pós-Pólio, com fraqueza muscular, fadiga e dor. Sua vida é marcada pela superação: além da pólio, enfrentou um atropelamento, que dificultou ainda mais sua mobilidade e a deixou em uma cadeira de rodas. Apesar de tudo, Elisabete se considera feliz – e não culpa sua mãe.
— Para conviver com as sequelas, tem que ser muito forte. E conviver com o preconceito é pior ainda. Pior que a paralisia infantil — conta.
As barreiras no acesso aos imunizantes
O acesso representa um fator crucial para a hesitação vacinal – fenômeno que envolve dúvidas, atrasos, recusa ou escolha seletiva de imunizantes, de acordo com o Ministério da Saúde. Esse comportamento representa uma ameaça à saúde pública ao comprometer as coberturas e favorecer o retorno de doenças já controladas.
As barreiras incluem os horários limitados de funcionamento das unidades de saúde; desabastecimentos, que podem retardar ou impedir o retorno do usuário ao posto; a dificuldade de distâncias, transporte ou de liberação no trabalho; entre outras.
Especialistas ressaltam ser fundamental ampliar o funcionamento fora do horário comercial e aos finais de semana, bem como facilitar o acesso, por meio de busca ativa em residências – com foco sobretudo em grupos de risco e em comunidades vulneráveis. Levar a vacinação a locais de grande circulação, como escolas, empresas e praças, também é essencial.
— As unidades de saúde têm de modificar os seus fluxos — ressalta Gewehr.
Outro fator significativo é o abalo da confiança de parte da população nos imunizantes, catapultado pelo crescimento do movimento antivacina e anticiência e da disseminação de fake news e desinformação – que ganharam força na pandemia de covid-19. A associação de ciência e saúde à polarização política contribui para o quadro atual, lamenta Diego Falci, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e infectologista do Hospital São Lucas da PUCRS.
Outros fatores que alimentam a hesitação vacinal são o contexto cultural e a qualidade da comunicação. Há uma lacuna de informação contínua. Para resgatar a confiança nas vacinas, é preciso tirar dúvidas, combater a desinformação e desmentir mitos.
— Sem saber que a vacina existe, que está disponível na rede pública, na rede privada, que é uma vacina segura, eficaz para a prevenção da doença, e que a doença ainda existe, ou para a doença não voltar, não adianta, a população não vai buscar a vacina. Então, esse trabalho de educação é fundamental — ressalta Gewehr.
Outro ponto que leva à baixa cobertura é o abandono de esquemas vacinais – muitas pessoas recebem a primeira dose, mas não retornam para a completar a proteção. As estratégias para aumentar as coberturas devem também focar nas doses de reforço, salientam especialistas.
O uso de sistemas como o aplicativo Meu SUS Digital e mensagens por SMS pode ajudar, com alertas sobre vacinações pendentes tanto para o paciente quanto para a unidade e sobre chegada de doses. O app do SUS agora registra também doses tomadas na rede privada.
A cobertura heterogênea nas diferentes regiões de municípios, do Estado e do país é um desafio, aponta Gewehr. No Rio Grande do Sul, as enchentes de setembro de 2023 e maio de 2024 comprometeram a rede e a infraestrutura de saúde – e, consequentemente, o acesso às vacinas em diversas localidades, com um cenário que está sendo superado.
O acesso fácil a dados disponíveis na internet, sem filtro de conhecimento qualificado, também influencia no cenário, na percepção do médico imunologista Luiz Vicente Rizzo. Para o professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretor de Pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, a educação em ciência no mundo ocidental ainda é “muito ruim” e deve ser melhorada.
Além disso, é preciso estabelecer um diálogo mais honesto com a população. Como qualquer intervenção, a vacina traz riscos – que são baixos, ao passo que seus benefícios são muito altos.
Reações como dor no braço e febre são esperados – sinal de que a vacina está “funcionando” –, não sendo considerados eventos adversos, que podem acontecer com uma parcela pequena de pessoas. A maior parte dos eventos adversos relacionados à administração das vacinas não têm relação causal com as doses, mas são lembrados devido à memória do incômodo da aplicação.
— É muito melhor ter a dor no braço do que pegar a infecção. Você vai ter um dia e meio de febre, mas pergunte para alguém que teve herpes zóster o quão ruim é passar, às vezes, meses com dor — enfatiza Rizzo.
Caminhos para ampliar a cobertura vacinal
Os especialistas apontam outras ações que já se mostraram efetivas para ampliar o acesso e a cobertura vacinal:
- Fortalecer parceria entre escolas e equipes de saúde para avaliar, atualizar e acompanhar o status vacinal dos alunos
- Capacitar continuamente os profissionais de saúde para fornecer informações corretas
- Reconhecer e premiar unidades com altas coberturas vacinais, incentivando melhores resultados
- Envolver lideranças comunitárias e formadores de opinião locais
- Revisar e otimizar estratégias
- Revitalizar campanhas sazonais (como influenza), destacando riscos para grupos prioritários
Ações governamentais
Conforme o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do RS (Cosems/RS), os municípios têm adotado estratégias como vacinação em turno estendido, mutirões no final de semana e em eventos e vacinação volante. Ainda assim, o órgão observa que não há retorno da comunidade.
— Vamos todo dia trabalhando, tentando vencer essa situação — destaca Diego Espíndola, secretário executivo do Cosems/RS.
O governo do Estado afirma estar implementando estratégias para aprimorar a vacinação e combater a crise na saúde. As ações incluem um acréscimo de R$ 32 milhões para fortalecer a atenção primária, permitindo a extensão de horários de atendimento, inclusive aos finais de semana e à noite, tanto para a vacinação quanto para consultas.
Os estoques de imunizantes, conforme a Secretaria Estadual da Saúde (SES), estão abastecidos. Para facilitar o acesso, há orientação para vacinação em instituições de longa permanência de idosos, escolas, locais de grande circulação como eventos e shoppings, e realização de busca ativa, incluindo aplicação domiciliar para acamados.
O Estado realiza microplanejamento com os municípios e implementa programas de reconhecimento como o "Amigo da Vacina", em parceria com o Ministério Público, para certificar aqueles que atingem metas de cobertura. Há projetos como o "Imuniza Escola", que vincula doses aplicadas a matrículas escolares para identificar áreas com piores coberturas. Também há publicidade em mídias sociais e rádios.
Procurado por Zero Hora, o Ministério da Saúde se limitou a afirmar, por meio de nota, que a campanha de vacinação começou em abril deste ano e, para reforçar a adesão, a pasta retomou as mobilizações nacionais. A estratégia segue ativa, com distribuição de mais de 65 milhões de doses.
“Aderir à vacinação é a principal forma de proteção contra os vírus respiratórios que mais circulam nesta época do ano. A recomendação do Ministério da Saúde é que Estados e municípios façam a busca ativa dos grupos prioritários, como crianças, idosos e gestantes, e ampliem a vacinação a todos que procurarem os postos de saúde. (...) Neste ano, foram distribuídas 4,4 milhões de doses ao Estado”, afirma a nota.
Na prefeitura de Porto Alegre, as ações incluem divulgação via rádio, TV e subprefeituras, comunicação intensificada em reuniões comunitárias e o envio de avisos sobre a disponibilidade das vacinas em grupos de WhatsApp da comunidade.
Os horários de postos de saúde têm sido ampliados. Além disso, a prefeitura leva imunização a escolas, com o "Rolê da Vacina", bem como a indústrias, parques e eventos.
— O poder público, por meio do SUS, tem um papel central na oferta das vacinas, mas a sociedade como um todo também deve se engajar nesses esforços — apela o médico Diego Falci.



