
— Como mãe que perdeu um filho de um ano e três meses por falta de informação e de uma vacina no particular, me revolta só em pensar que hoje possam existir crianças que não são vacinadas. Que não fazem nem o que o SUS fornece de graça — desabafa Juliane Fetzer, 36 anos, mãe de Arthur.
Em 2023, o filho da moradora de Estância Velha foi vítima de uma infecção pela bactéria meningococo do tipo B, para a qual não há vacina disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), apenas na rede privada. Com todos os imunizantes obrigatórios em dia, mas sem esta vacina específica, o pequeno morreu em três dias.
Para além de consequência individual extrema, a ausência de imunização pode gerar impactos na saúde coletiva – como se verifica no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Como outros Estados, o RS enfrentou um aumento de doenças respiratórias e casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2025, devido principalmente aos vírus influenza e sincicial respiratório (VSR), conforme o boletim InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A situação levou à grande procura pelos serviços, agravando a crise na saúde no Estado, com falta de leitos e superlotação.
Uma das principais causas do cenário é a baixa adesão à vacinação. Em junho, não imunizados chegaram ao patamar de 94% das mortes e 92% das hospitalizações de SRAG por influenza, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde do RS (SES). A vacina, entretanto, já está disponível gratuitamente no SUS para toda a população desde 15 de maio.
O desinteresse de parte da população não é exclusividade da vacina contra gripe. Historicamente considerado referência em imunização, o Brasil vem enfrentando dificuldades com as coberturas vacinais de diferentes imunobiológicos nos últimos anos. A queda se acentuou após a pandemia e, embora tenha apresentado melhora nos anos recentes, segue desafiadora.
As que mais preocupam
Criado em 1973, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde é um dos maiores em saúde pública do mundo e disponibiliza gratuitamente à população brasileira 30 vacinas pelo SUS. Os imunizantes protegem contra uma gama de doenças imunopreveníveis, tais como HPV, dengue, hepatite, febre amarela e meningite. Os imunobiológicos são oferecidos no Calendário Nacional de Vacinação em todas as etapas da vida.
As coberturas vacinais no Brasil apresentaram uma queda relevante nos últimos anos, e vários esforços vêm sendo empregados para melhorá-las, ressalta Paulo Gewehr, médico infectologista, representante regional da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e supervisor do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento.
— Os dados que nós temos de 2023 para 2024 mostram uma melhora quase que em todas as coberturas vacinais. Algumas vacinas ainda não tiveram essa melhora, mas, em geral, houve avanço. Os dados preliminares de 2025 ainda estão abaixo de 2024, mas tem de ser dada uma atenção, para ver se há espaço e tempo ainda para recuperar o mesmo patamar de cobertura e avançar mais — avalia.
Do ponto de vista da saúde individual, todos que podem receber vacina devem ser imunizados; coletivamente, embora a cobertura ideal seja de 100%, com cerca de 90% a 95%, a depender da doença, já há proteção significativa.
Há conquistas e desafios, na avaliação de Diego Falci, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e infectologista do Hospital São Lucas da PUCRS. O cenário não é de total carência, e houve avanços. O RS registra taxas de cobertura vacinal superiores à média nacional. Tanto Estado quanto país, porém, ainda enfrentam lacunas importantes.
Observação semelhante é feita por Luiz Vicente Rizzo, médico imunologista, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretor de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, que aponta que as coberturas geram certa preocupação.
As vacinas administradas ao nascer apresentam coberturas altas – o problema é a manutenção das taxas nos anos seguintes:
— Temos melhorias a ser feitas, no Brasil o resultado não é desastroso, mas está aquém do que gostaríamos.
O Brasil, entretanto, voltou a ser um dos países com mais crianças sem nenhuma vacina em 2024, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, embora o país tenha atuação notória em prol da vacinação, a disponibilização dos dados relativos às coberturas vacinais é descentralizada em diferentes sistemas, o que dificulta a compreensão do panorama.
Da gripe à tríplice viral
A vacina contra a gripe (influenza) está entre as coberturas que mais preocupam, pois deve ser tomada anualmente, assim que disponibilizada, para que a população esteja protegida a tempo do período de maior circulação do vírus. No RS, a cobertura para os grupos prioritários está em 49,7%, levemente maior do que no Brasil (44,5%) – resultado muito aquém do ideal e que exige reflexões por parte dos órgãos de saúde.
Em relação à covid-19, o desafio reside na percepção equivocada da população de que a pandemia acabou e a doença não é mais importante – o que leva à baixa procura, embora ainda haja mortes entre os grupos de risco, com 68 registros neste ano no RS.
A vacina da dengue também preocupa especialistas – ainda que não haja dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde sobre a cobertura vacinal. Há grande procura em clínicas privadas, onde está em falta, devido à necessidade do fabricante de fornecer ao SUS – onde sobram imunizantes, dado que o restrito público-alvo (jovens de 10 a 14 anos) não tem se vacinado.
A segunda dose da vacina tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba) também é motivo de alerta, pois a cobertura cai significativamente em comparação à primeira (de 98,7% para 86% no RS), deixando uma parcela da população desprotegida. Do mesmo modo, a vacina DTP (difteria, tétano e coqueluche) apresenta queda na dose de reforço (de 93,3% para 88,5%).
Ainda, a vacina da febre amarela desperta receio, pois a doença tem desfechos graves e está associada a mortes, reforça Gewehr, destacando que a cobertura tende a baixar após surtos diminuírem – e está "muito aquém" do necessário tanto no RS (72,6%) quanto no Brasil (73%).
Embora tenha bons índices (92% e 95%), o imunizante para pneumonia exige atenção contínua para manter a alta adesão – a bactéria causa doenças graves e mortes. A poliomielite também é motivo de alerta, já que o vírus ainda circula em outros países e pode ser reintroduzido.
A preocupação se estende para a ausência de importantes vacinas no calendário do SUS, como as doses contra a dengue para outras faixas etárias, VSR e herpes zóster, já disponíveis na rede privada, acrescenta Rizzo. As vacinas no calendário do SUS são obrigatórias, de acordo com a SES. Os imunizantes disponíveis na rede privada, por sua vez, são opcionais.
Novos imunizantes são rapidamente incorporados na rede particular. Para entrar no portfólio do SUS, entretanto, precisam passar por avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que analisa prioridades, evidências científicas e compara benefícios, custos e orçamento.
Os efeitos colaterais da baixa adesão à vacinação
As vacinas estimulam o sistema imunológico a proteger o indivíduo contra doenças. Quando adotadas como estratégia de saúde pública, são consideradas um dos melhores investimentos considerando custo-benefício, segundo o Ministério da Saúde e a OMS.
É fundamental para a prevenção de várias doenças muito importantes, algumas que não circulam mais graças à vacinação, e outras que continuam circulando, e que vemos o impacto delas no dia a dia. A vacinação é extremamente segura e eficaz para todas as faixas etárias, conforme avaliação médica
PAULO GEWEHR
Infectologista e representante da SBIm
É importante lembrar que a vacina não impede o desenvolvimento da doença, mas oferece proteção contra desfechos graves. Para o indivíduo, isso pode representar a diferença entre viver ou morrer, já que pessoas que não receberam a dose estão vulneráveis.
— O objetivo principal é prevenir casos graves, hospitalizações, morte — salienta Diego Falci, infectologista e membro da diretoria da SBI.
O impacto estende-se além da proteção individual, representando um cuidado com a saúde coletiva – os imunizantes protegem pessoas que não podem ser vacinadas (como imunossuprimidos), ao criar uma espécie de cordão de isolamento, gerando a chamada "imunidade de rebanho" e dificultando a circulação do patógeno.
Dessa forma, os imunobiológicos demonstraram sucesso ao erradicar a varíola – que assolou a humanidade por séculos – e eliminar doenças como a rubéola congênita no Brasil. A tecnologia mudou o cenário de mortalidade das doenças imunopreveníveis no mundo e representou o grande triunfo para o controle da pandemia de covid-19.
Entretanto, devido às baixas coberturas vacinais, a ameaça de reintrodução de doenças como o sarampo serve de lembrete dos riscos e da importância de manter a imunização mesmo quando o patógeno não circula. A doença já havia sido erradicada no Brasil, mas o país chegou a perder o status de área livre de sarampo na OMS – que foi reconquistado em 2024.
— Fica de aprendizado para nós que não adianta chegar no objetivo, tem de também manter esforços para continuar naquele patamar — observa Gewehr.
Impactos no sistema
Além de salvar vidas, a imunização é crucial para desafogar o sistema de saúde – e evitar cenários como o verificado no Rio Grande do Sul.
— Se temos uma cobertura vacinal mais ampla, mais robusta, que alcança uma proporção maior da população, temos menos casos graves e, consequentemente, menos internação hospitalar, menos pessoas nas emergências — aponta Falci.
Isso permite que os recursos públicos sejam direcionados para outras demandas e evita despesas extras. A prevenção por meio da vacinação é “muito mais barata” do que o tratamento de casos graves, destaca Gewehr. A baixa adesão às vacinas, por outro lado, tem impacto no sistema.
— Aumenta muito os gastos de saúde em vários níveis, e prejudica o acesso de outras pessoas àquele sistema — acrescenta Falci.
Cenário no RS aflige governos
Conforme a Secretaria Estadual da Saúde (SES), o governo do RS tem realizado movimentos junto aos municípios em relação a vacinas prioritárias e recuperado coberturas em imunizações de rotina, como HPV e tríplice viral, com crescimento na grande maioria dos imunobiológicos. Alguns já atingiram metas, e outros estão próximo.
Porém, além da dengue, as coberturas para influenza e covid-19 permanecem frágeis – especialmente para grupos de risco, como idosos e crianças, neste caso.
— A cobertura vacinal (da gripe) hoje está muito aquém do que poderíamos e deveríamos. Estamos precisando que todo mundo se conscientize, busque a sua vacinação e as medidas de proteção — apela Ana Costa, secretária-adjunta da Saúde.
Na Capital, apesar dos esforços, a adesão da população às vacinas ainda é um obstáculo. As taxas permanecem abaixo do patamar ideal de 95%, com exceção da BCG e da tríplice viral, embora haja crescimento gradual na cobertura de alguns imunizantes infantis nos anos recentes.
— As pessoas que não são grupo de risco estão indo vacinar mais do que as de grupo de risco — afirma o secretário municipal de Saúde de Porto Alegre, Fernando Ritter, a respeito do imunizante contra influenza.
O Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do RS (Cosems/RS) também demonstra preocupação, principalmente em relação a vacinas infantis, para as quais há maior resistência, indica o secretário executivo Diego Espíndola. Há dificuldades de mobilização da comunidade, como também no caso do imunizante contra a dengue.
— (Para influenza) Aumentou de maneira bastante considerável a cobertura dos idosos, mas ainda, nas outras faixas etárias, principalmente nas crianças, é bastante preocupante.
"Uma simples vacina pode salvar a vida do seu filho"

Se, de um lado, há pessoas que deixam de buscar os imunizantes, na outra ponta, há pais que gostariam de proteger os filhos dos perigos das doenças, mas não têm acesso às oportunidades. Após perder Arthur, Juliane Fetzer decidiu divulgar o caso e disseminar informações sobre a bactéria que infectou seu filho.
A mãe se deparou com uma realidade na qual muitos pais, assim como ela, desconheciam a existência do imunizante ou não tinham condições de adquiri-lo na rede privada. Juliane ouviu relatos de famílias que fizeram esforços para parcelar e garantir a imunização após o desfecho de Arthur.
No intuito de garantir acesso à vacina contra a doença que vitimou seu filho, Juliane e o marido fizeram um abaixo-assinado para a incorporação da vacina meningocócica B no SUS. A petição chegou a 140 mil assinaturas, porém, os pais não conseguiram apoio político para levar a mobilização adiante.
Acho que a questão que os pais hoje precisam entender é que uma simples vacina pode salvar a vida do seu filho. Não é sobre guerra política, é sobre a vida do seu filho. Mas tenho a esperança de que as pessoas tenham mais interesse e mais responsabilidade com a vida dos seus filhos, e pelo menos o básico possam correr atrás.
JULIANE FETZER
Mãe de Arthur
O que explica a baixa vacinação e quais são as estratégias para ampliar o acesso às doses? Leia a outra parte desta série de reportagens
*Infografia de Carlos Garcia


