
Durante muito tempo, vigorou a crença de que quem está enfrentando um câncer deve repousar e ficar, no máximo, em casa. No entanto, essa ideia tem se mostrado ultrapassada diante das evidências científicas sobre os benefícios do exercício físico durante o tratamento da doença.
De acordo com uma pesquisa latino-americana, apresentada no congresso American Society of Clinical Oncology (ASCO 2025), se exercitar durante o tratamento oncológico pode melhorar a qualidade de vida, reduzir os efeitos colaterais das terapias e aumentar as chances de cura. O estudo tem como primeiro autor o oncologista Paulo Bergerot, da Oncoclínicas (grupo dedicado ao tratamento do câncer na América Latina).
— O exercício físico é importante para quem está fazendo quimioterapia ou radioterapia, pois é capaz de reduzir a toxicidade do tratamento e melhorar a tolerância a ele. Já existem estudos que sinalizam que quem faz exercício neste período tem melhores resultados, ou seja, melhor eficácia — afirma o oncologista Gabriel dos Anjos, também integrante da Oncoclínicas.
Desigualdades
Além de reduzir a fadiga e melhorar o humor, o sono, a imunidade e a massa muscular, o exercício também pode se tornar uma importante ferramenta para a sobrevida dos pacientes. Contudo, uma análise detalhada do estudo, que entrevistou 454 médicos em 21 países da América Latina, revela um cenário preocupante de desigualdade: enquanto 82% dos oncologistas da rede privada avaliam os hábitos de atividade física de seus pacientes, na rede pública esse número cai para 53%.
A prescrição de exercícios também segue essa lógica desproporcional, com 56% na rede privada contra apenas 12% no sistema público. Entre as razões citadas pelos médicos para não incluir o exercício físico na rotina de seus pacientes estão a falta de estrutura para encaminhamento, os efeitos colaterais dos tratamentos e a falta de capacitação para prescrever exercícios de forma segura.
— Perguntamos aos entrevistados quais seriam os obstáculos, e o principal obstáculo mencionado foi a falta de logística adequada. Mesmo entre médicos, é uma cultura que precisa ser aprimorada — salienta Gabriel.
Questionado sobre o tipo de exercício ideal para pacientes oncológicos, Gabriel explica que a prática não precisa ser intensa inicialmente e que é fundamental individualizar cada caso.
Para uma pessoa sedentária ou com muitos sintomas, por exemplo, a recomendação é iniciar gradualmente, respeitando sua capacidade física. Com o tempo, o paciente pode progredir, aumentando sua capacidade e colhendo os benefícios do exercício. O objetivo final é conseguir realizar atividades de intensidade moderada.
Mesmo diante da dor
Aos 42 anos, Fernanda Frizzo Bragato, professora de Direito da Unisinos, hoje com 46, recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Seu tratamento incluiu uma cirurgia na mama esquerda, sessões de quimioterapia e radioterapia, além do uso contínuo de medicação. Mesmo diante dos efeitos adversos, como fadiga extrema e dores intensas, a docente manteve a prática de exercícios físicos na rotina.
— Isso aumentava minha disposição e dava sensação de bem-estar. Foi extremamente importante porque ajudava nos sintomas do tamoxifeno, melhorava o sono, dava mais força muscular e complementava a minha fisioterapia para o braço esquerdo, que ficou com um pouco de limitação no movimento após a cirurgia — relata.
Com o incentivo do seu médico, que compartilhou dados otimistas sobre a relação entre exercício e combate ao câncer, Fernanda intensificou suas atividades na academia, sempre orientada por um personal trainer.
— Hoje, faço exercícios de força pela relação com as melhores chances de a doença não retornar. Associo o exercício físico que faço a um bom sono, boa disposição, força muscular e à ausência de dores no corpo — cita Fernanda.
Quando começar?
Para a professora de Direito, a dica para outros pacientes oncológicos é clara: se você não faz exercícios no momento do diagnóstico, comece a praticar durante o tratamento.
— Claro que haverá dias em que é impossível, pois o mal-estar é muito intenso. A quimioterapia foi a pior parte do meu tratamento, muito dura e com sintomas muito fortes. Mas, assim que o mal-estar passar, já é hora de se exercitar — recomenda a professora.
O oncologista Gabriel dos Anjos recomenda um início gradual: atividades leves como uma caminhada, subir escadas ou, por exemplo, cuidar do jardim. Com a devida orientação médica e, se possível, de um personal trainer, é possível aumentar a intensidade e a duração dos exercícios.
— Em termos de intensidade, o objetivo é a prática moderada. Isso permite que o paciente converse enquanto o faz, mas o impede de cantar, por exemplo. Esse nível de intensidade, se mantido por 150 minutos semanais, pode trazer benefícios reais e significativos. É uma prática que, idealmente, deve ser incorporada para o resto da vida — explica o médico.
Uma mudança de estratégia
Embora as evidências científicas estejam aumentando, ainda se observa uma lacuna de políticas públicas que incorporem efetivamente a atividade física como ferramenta terapêutica no tratamento do câncer. Algo que exige o envolvimento de equipes multidisciplinares, compostas por médicos, fisioterapeutas, educadores físicos e nutricionistas.
Segundo Gabriel dos Anjos, é necessário pensar em estratégias para democratizar esse acesso, já que enquanto tratamentos de alto custo ainda são inacessíveis para grande parte da população, o exercício físico se destaca como uma ferramenta acessível e com potencial transformador na trajetória do paciente.
— Os tratamentos estão ficando com custo muito alto e, muitas vezes, a gente está discutindo um ganho pequeno de um tratamento de custo muito grande, que não teríamos como oferecer a todos, e às vezes abandonando coisas mais fáceis e efetivas, como o exercício. Uma base sólida de atividade física pode ter um impacto superior ao de certos tratamentos com alguns medicamentos. O primeiro passo é a equipe médica reconhecer esse impacto e, o segundo, colocá-lo em prática.

