
Uma pesquisa publicada na revista científica Nature Medicine mostra que fatores sociopolíticos, ambientais e sociais de um país influenciam de forma significativa o envelhecimento cerebral, podendo resultar em maior declínio cognitivo e quadros de demência. As descobertas devem contribuir para a formulação de políticas públicas que melhorem as condições de vida na terceira idade.
O envelhecimento geralmente é associado a condições individuais, como genética e estilo de vida. Segundo o estudo, envolve ainda uma combinação entre o ambiente e as exposições físicas, sociais e sociopolíticas às quais a população está sujeita no dia a dia.
A pesquisa avaliou mais de 160 mil pessoas em 40 países e foi desenvolvida por 41 cientistas da América Latina, Europa, África e Ásia, com a participação de professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Como foi feito o estudo
O estudo avalia como o expossoma (conjunto de exposições físicas, sociais e sociopolíticas ao longo da vida) impacta o envelhecimento, analisando como fatores de proteção ou de risco contribuem para um envelhecimento saudável ou acelerado, respectivamente.
A pesquisa se baseia nas diferenças de idade biocomportamentais (BBAGs), termo que se refere à diferença entre a idade real (cronológica) de uma pessoa e a idade predita pelo modelo com base em indicadores de saúde, cognição e educação, por exemplo. O BBAG pode prever declínio cognitivo e funcional, conforme Eduardo Zimmer, coautor do estudo, professor da UFRGS e pesquisador apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
Os resultados mostram que o local onde as pessoas vivem pode levar ao envelhecimento de forma acelerada, aumentando o risco de declínio cognitivo e funcional. Há níveis diferentes de impacto no envelhecimento devido à disparidade de acesso à saúde, segundo os pesquisadores.
Outro coautor do estudo, o médico neurologista no Hospital Moinhos de Vento (HMV) e pesquisador da UFRGS apoiado pelo Instituto Serrapilheira Wyllians Borelli, observa:
— Se eu tenho 60 anos e vivo em um país ditatorial, que não tem voto universal, eu tenho hipertensão, diabetes, o meu envelhecimento é muito maior do que deveria ser.
Fatores de risco e de proteção
Vários fatores foram associados a um envelhecimento mais rápido:
- Físicos, como má qualidade do ar e poluição
- Sociais, incluindo desigualdade econômica, desigualdade de gênero e migração
- Sociopolíticos, como instabilidade política, falta de representação política, liberdade partidária limitada, direitos de voto restritos, democracias frágeis e corrupção
O envelhecimento mais rápido parece ser fortemente associado a níveis mais baixos de renda.
Há ainda fatores de risco como doenças cardiometabólicas, deficiência auditiva e visual, excesso de peso, consumo de álcool e problemas de sono. A pesquisa mostra que as desigualdades estruturais e exposições ambientais têm impactos duradouros, mesmo quando controlados os fatores individuais.
Já os fatores protetores da saúde incluem educação, cognição, bem-estar, capacidade funcional e atividade física.
Se eu tenho 60 anos e vivo em um país ditatorial, que não tem voto universal, eu tenho hipertensão, diabetes, o meu envelhecimento é muito maior do que deveria ser.
WYLLIANS BORELLI
Neurologista no Hospital Moinhos de Vento, pesquisador da UFRGS e coautor do estudo
A situação no Brasil
Países europeus e asiáticos apresentaram um envelhecimento mais lento. Já o Egito e a África do Sul, mais rápido. O Brasil ficou entre os dois extremos. O estudo mostra que o brasileiro envelhece, em média, cinco anos mais rápido que a média dos 40 países estudados. Para Borelli, a desigualdade influencia esse cenário.
— Esse envelhecimento acelerado aumenta em duas vezes as chances de declínio cognitivo e perda de funcionalidade, como perda de independência, em comparação à idade cronológica — ressalta Zimmer.
A importância das políticas públicas
As descobertas são relevantes para planejar políticas públicas, conforme o estudo, que também teve a participação de Lucas da Ros, pesquisador da UFRGS e integrante do Zimmer Lab.
Eduardo Zimmer observa:
— Mudanças individuais no estilo de vida, como atividade física, saúde cardiovascular e educação, são importantes, mas não suficientes. Existe a necessidade de políticas públicas que melhorem a qualidade do ar, reduzam desigualdades e fortaleçam instituições democráticas, por exemplo.
Na visão de Borelli, a pesquisa servirá para uma maior valorização do contexto sociopolítico e dos fatores ambientais:
— Temos agora a evidência científica de que a democracia é boa para a saúde, esse é o grande ponto do artigo. Outro ponto é valorizar os fatores do ambiente, não só o genético, não só os problemas de saúde que as pessoas têm. Um ambiente com educação de qualidade, acesso à saúde, higiene básica e rede de esgoto aumenta a saúde e melhora o envelhecimento da população.
Diferenças regionais
O estudo não diferenciou as regiões do Brasil, mas os pesquisadores já trabalham para identificar diferenças regionais — mais especificamente, macrorregiões ou cidades em que as pessoas envelhecem mais rápido. Os especialistas acreditam que as descobertas podem ter impacto na saúde pública.




