
Psiquiatra da infância e adolescência, Philip Shaw é pesquisador na área do neurodesenvolvimento, com ênfase no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). É diretor da Parceria King’s Maudsley para Crianças e Jovens do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências do King’s College London, em Londres. Shaw esteve no Brasil para participar do Brain Congress 2025 – Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções, realizado em Fortaleza, em junho.
Em exposição a jornalistas, o britânico destacou que há interesse em usar o escore de risco poligênico (estimativa de desenvolver TDAH baseado na predisposição genética) para ajudar a diagnosticar e predizer o curso do transtorno. Evidências indicam que um alto sinal poligênico se traduz em sintomas mais persistentes.
Em entrevista para Zero Hora durante o evento, Shaw falou sobre os avanços científicos em relação ao TDAH, como a depressão e a ansiedade entre os jovens tem representado preocupação, a importância do diagnóstico precoce e novas possibilidades de tratamento com o auxílio da tecnologia.
Confira a entrevista:
Quais são as descobertas e os avanços mais recentes relacionados ao TDAH em crianças e adolescentes?
Há três grandes descobertas. A primeira é que o curso da vida do TDAH é muito mais complexo do que pensávamos. Costumava-se pensar que começava na infância e persistia na idade adulta, ou melhorava gradual e lentamente ao longo do tempo e depois remitia ou desaparecia na idade adulta.
O que parece que está acontecendo é que essas duas formas existem. Há uma forma persistente, e uma forma que melhora ou remite. Há também uma forma de TDAH de agravamento. No TDAH, pode haver alguns sintomas na infância, mas só se torna realmente evidente na adolescência. Isso é TDAH emergente, emergente tardio ou diagnosticado tardiamente.
E a última coisa, que é uma grande surpresa, é que, provavelmente para cerca de 20% das crianças com TDAH, o transtorno é intermitente. Então, em um ano eles têm TDAH, no ano seguinte não se encontra, no ano seguinte se encontra. E esse curso flutuante é surpreendentemente comum no TDAH. Algumas pessoas se perguntam se isso representa que essas crianças são particularmente sensíveis ao ambiente. Então, mudanças na escola, com os professores – bons professores as ajudam a prosperar e seus sintomas não são um problema. Em um contexto mais difícil, os sintomas se tornam um problema.
A segunda são as grandes descobertas sobre a genética do TDAH. O TDAH é uma das condições mais hereditárias da infância. E agora sabemos muito sobre quais genes, o que é realmente empolgante. Acho que isso eventualmente levará a novas maneiras de ajudar indivíduos com TDAH.
E a última questão são os insights sobre as diferenças cerebrais no TDAH. Isso aconteceu porque muitas pessoas com TDAH gentilmente concordaram em permitir que seus exames cerebrais fossem compartilhados com a comunidade internacional. Então, agora temos cerca de 20 mil exames cerebrais de pessoas com TDAH compartilhados em todo o mundo.
Isso nos mostra muito sobre as diferenças cerebrais no TDAH. A grande lição é que elas são muito sutis. Parece haver padrões diferentes em pessoas diferentes com TDAH.
Há algo preocupante sobre essa condição no momento?
Não acho que seja preocupante. Acho que algumas pessoas pensam que o TDAH é superdiagnosticado. Não sei se é verdade. No Reino Unido, de onde eu venho, se você perguntar a qualquer pessoa, dirão que todo mundo tem TDAH. É um absurdo.
Mas, na verdade, se você olhar para a ciência, para os números, como temos um Serviço Nacional de Saúde (NHS), sabemos exatamente quantas pessoas têm TDAH. Então, em adultos, se você fizer uma pesquisa grande, duas em cada cem pessoas terão TDAH. No Reino Unido, no momento, menos de 1 em cada 500 pessoas têm um diagnóstico de TDAH.
Então, esse número está aumentando. Isso é reconhecido. Mas costumava ser completamente não diagnosticado, não reconhecido. Estamos passando de muito pouco para um pouquinho. E parece um grande aumento, porque é um grande aumento. Mas partimos de uma linha de base muito baixa em adultos, especialmente em mulheres. Parece que sim, por causa da atenção da mídia. Eu acho que é bom, porque significa que há menos estigma em torno do TDAH. E isso é bom.
E quando se trata de problemas de saúde mental em geral, entre os jovens, o que é mais preocupante hoje?
Para mim, e esta é uma opinião pessoal, o mais preocupante é o aumento de problemas de humor e ansiedade entre os jovens. Novamente no Reino Unido, mas acho que há evidências em todo o mundo, de que a ansiedade e a depressão estão aumentando entre os jovens. Acho que o aumento é real, e acho que isso é uma grande preocupação.
Não acho que nenhum sistema de saúde no mundo possa atender a essa necessidade. Nenhum. Simplesmente não temos especialistas suficientes em saúde mental infantil e adolescente. Então, teremos que pensar em como podemos ajudar melhor esses jovens e suas famílias. É uma crise. É realmente uma crise.
No Reino Unido, não conseguimos atender a essa necessidade. É um problema real. Então, estamos tendo de pensar nas alternativas. Será saúde digital? Isso pode ajudar as pessoas? Podemos oferecer apoio entre pares? Isso ajudará as pessoas? Podemos oferecer outros tipos de tratamentos sem medicamentos para TDAH muito leve? Isso vai ajudar? Há muita pesquisa sobre isso. Mas, basicamente, há um grande aumento na ansiedade e na depressão. Essa é a grande crise.
Qual é a importância da identificação precoce do TDAH? Pode ajudar a prever desfechos na vida adulta?
A identificação precoce é vital. Se você conversar com um pai ou mãe de uma criança pequena com TDAH, a preocupação dele é: como meu filho se sairá na escola? E como será o futuro dele? Se tratarmos e gerenciarmos precocemente, as coisas vão melhorar. A criança vai se sair melhor na escola. Então, o que podemos fazer para ajudar as crianças desde cedo é, antes de tudo, trabalhar com as escolas.
Precisamos de professores, e muitos professores são muito bons nisso, que sejam inclusivos em seu estilo de educação, para garantir que criem um ambiente de aprendizagem adequado para uma criança com TDAH. Coisas como instruções simples, entregar aos pais, deixar a criança se mexer.
Coisas realmente simples podem fazer uma grande diferença para uma criança. Muitos elogios quando apropriado, sem muitos "não faça isso", tentando incentivar. Muitos professores fazem isso, na verdade.
Às vezes, se isso não funcionar e se trabalhar com as famílias não ajudar, então a medicação tem um papel, e podemos realmente ajudar as crianças. Os medicamentos para TDAH são muito eficazes e seguros, mas precisam de monitoramento rigoroso porque, como qualquer medicamento, podem ter efeitos colaterais. Só devem ser tomados quando a criança tiver um diagnóstico e estiver em acompanhamento.
Qual é a contribuição de fatores genéticos e ambientais no desenvolvimento do TDAH?
Genética. Os genes se expressam em um ambiente, então a interação dos genes com o ambiente é muito clara. A genética é muito importante aqui. E eu acho que, na verdade, para o Brasil em particular, é muito importante que todos participem da pesquisa genética, porque, no momento, a maioria dos nossos dados genéticos é de europeus brancos, e isso é um grande problema.
Existem diferenças genéticas importantes, pequenas, mas importantes, de acordo com a sua ancestralidade. Para a medicina genética, que virá, para ajudar a todos, precisamos da participação de todos. Principalmente de indivíduos de origens que não conseguimos alcançar. Deveríamos estar trazendo-os para a ciência.
Quando falamos de tratamentos e intervenções, há novas possibilidades envolvendo tecnologia e realidade virtual. Seu grupo vem realizando estudos nesse sentido. Qual foi o impacto demonstrado até agora?
É para o futuro, é um trabalho muito empolgante. Os resultados iniciais são muito promissores. Ainda estamos aguardando os grandes testes para mostrar que eles funcionarão. Portanto, está em estágios iniciais, e os resultados iniciais são muito bons.
A ideia é que crianças com TDAH querem tratamentos sem medicamentos. Todos gostariam disso. Então, tentaremos analisar as diferenças de pensamento cognitivo no TDAH e tentar ajudar as crianças com essas diferenças. Uma maneira de ajudar crianças com diferenças cognitivas são jogos inteligentes, jogos de realidade virtual, nos quais a criança pensa que está jogando, mas está fazendo treinamento cognitivo.
Meu grupo, e muitos outros grupos, estamos fazendo jogos diferentes, cada um buscando uma diferença cognitiva específica no TDAH: atenção, memória, velocidade de processamento, muitas coisas diferentes. E cada uma delas é um jogo. O legal é que, como é realidade virtual e usamos inteligência artificial, você pode individualizar.
Então, a criança receberá mais treinamento nas coisas em que é ruim e menos treinamento nas coisas em que é boa. Então, é uma intervenção cognitiva personalizada. Muitas pessoas estão fazendo isso.
No RS, há uma pesquisa sendo conduzida para avaliar os benefícios do tratamento do TDAH com realidade virtual e exercícios para adolescentes.
Isso tudo é muito emocionante. O exercício é muito poderoso. É para tudo. Para todas as condições de saúde mental, exercícios são importantes. Dormir é outra coisa muito importante. Coisas simples. Não devemos esquecer o básico.
Garantir que as crianças comam bem, se exercitem, durmam bem e tenham quantos amigos quiserem. Alguns querem mais do que outros. Tudo bem. Dê-lhes oportunidades. Certificar-se de que eles não passem todo o tempo no celular. De que eles também interajam com as pessoas. Bom senso.
Mas é difícil para os pais, porque informações claras são difíceis de encontrar, porque ainda não sabemos. Então, entendo por que os pais estão dizendo: "Olha, não sabemos o que fazer”, porque ninguém está dizendo.
Acho que precisamos de pesquisas melhores para dar diretrizes mais claras aos pais. Primeiro, para todas as crianças, deve haver algumas diretrizes. E, depois, para grupos específicos de crianças, porque elas são diferentes. Crianças com autismo, por exemplo, terão necessidades diferentes das crianças sem autismo. Precisamos ser sensíveis a isso. Algumas diretrizes gerais também são necessárias, especialmente em relação a aspectos como o uso de mídia e a quantidade de sono. Precisamos desse tipo de coisa.
No que você está trabalhando atualmente?
Estou observando os diferentes padrões de TDAH ao longo do crescimento, as diferenças genéticas que acompanham os diferentes padrões de crescimento. A ideia é que pode haver diferenças genéticas. Se você tem oito anos e tem algumas diferenças genéticas que significam que é mais provável que você tenha um TDAH persistente do que uma melhora.
Seria muito útil saber disso quando uma criança tem oito anos. A genética só explica uma pequena parte disso. Mas se você adicionar genética, imagens cerebrais, talvez testes cognitivos, histórico clínico, se você somar tudo isso, você pode ser capaz de dar às crianças e às famílias informações muito úteis sobre o que provavelmente acontecerá no futuro, para que elas possam planejar o futuro.

