
Psiquiatras, neurologistas, psicólogos e outros especialistas se reuniram na semana passada, em Fortaleza (CE), para debater os avanços em estudos relacionados ao cérebro e ao comportamento. Aliando prática clínica e pesquisa científica, os profissionais compartilharam novidades e discutiram os impactos relacionados a intervenções e a tratamentos na área das neurociências no Brain Congress - Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções – o maior da área no Brasil.
A inteligência artificial também permeou as discussões. As conversas abordaram aspectos como a importância de exercitar a criatividade frente ao uso de IA para manter o cérebro eficiente; a necessidade de balancear o temor da substituição com uma vida com intenção; os efeitos da IA no cérebro em desenvolvimento; reflexões sobre seu uso na medicina; e os riscos e benefícios do uso de IA na psicoterapia – que se popularizou na internet e foi tema de painéis.
As evidências científicas do uso com esse intuito foram discutidas por Fernanda Landeiro e Giovanni Abrahão Salum Jr. A IA pode otimizar o tratamento e ampliar o acesso aos serviços psicológicos por meio de ferramentas como chatbots. A psicóloga alertou, porém, para limitações significativas, como a falta de empatia humana e o risco de isolamento social – com possibilidade de agravo de condições como depressão e ansiedade – se houver dependência excessiva.
Outro risco é o de diagnósticos imprecisos – chatbots falharam no diagnóstico de 25% dos casos de depressão leve a moderada em um estudo da Nature Digital Medicine.
Um relatório da American Psychological Association destacou que pessoas que usavam exclusivamente chatbots para suporte emocional relataram um aumento de 25% nos sentimentos de solidão após três meses. Jovens que usam ferramentas de IA para "desabafar" podem evitar procurar ajuda profissional, prolongando o sofrimento. As consequências do uso incluem, ainda, falta de suporte adequado em crises.
O estudo concluiu que a combinação de IA com a terapia tradicional pode ser benéfica, mas a dependência excessiva pode levar a sentimentos de solidão e desconexão emocional.
— É uma resposta à realidade social marcada pelo aumento da prevalência de transtornos mentais e pela limitação do acesso a serviços psicológicos. O uso de IA pode representar uma alternativa de ampliação do cuidado, facilitando o acesso, reduzindo custos e promovendo intervenções em larga escala — afirmou Fernanda, destacando que pode apoiar intervenções pontuais, especialmente na terapia cognitivo-comportamental.
Há várias possibilidades de uso da IA na saúde mental, destacou o psiquiatra Giovanni Abrahão Salum Jr. em sua exposição: predição de diagnósticos, de respostas a tratamentos e de estratificação de risco – ainda sem valor clínico, em nível de pesquisa; monitoramento; suporte – como no caso dos chatbots – e tratamento.
Uma comparação entre chatbots e terapeutas presenciais revelou que humanos são melhores em "elaborações" e "colaboração conjunta". Contudo, as máquinas superaram os humanos em "sugestão", "asseguramento", "estratégias de psicoeducação" e "validação".
Embora alguns estudos mostrem redução de sintomas e satisfação de usuários com chatbots, há outras limitações, que incluem os riscos de aconselhamento inadequado, vieses de iniquidade e riscos a longo prazo ainda não conhecidos.
— É uma nova geração de mecanismos de autoajuda, em que eles são mais interativos, têm um papel, mas devem ser utilizados agora como uma parte das diretrizes de cuidado. Então, como a sociedade vai encaixar isso? É uma discussão que acabou de começar. Não tem grandes conclusões, é algo que temos de continuar discutindo e entendendo o papel dessas tecnologias no cuidado dos pacientes — ponderou.
As evidências iniciais suportam a eficácia, mas ainda há poucos estudos para conclusões sólidas, sendo necessário dar continuidade, segundo Salum Jr. As pesquisas corroboram a ideia de que a IA deve ser uma ferramenta complementar, não substituta, para fortalecer a psicoterapia – e que a supervisão humana é crucial para garantir a qualidade e a ética do atendimento.
O básico que funciona: exercício, alimentação e sono
Diferentes painéis também reforçaram que apostar no básico – exercício físico, alimentação adequada e sono – funciona.
O exercício está ligado à longevidade com autonomia. É benéfico para a saúde mental e cerebral, assumindo um papel não farmacológico em tratamentos. Melhora a memória e a tomada de decisões, além de diminuir o risco de desenvolver Alzheimer e demências, conforme Mychael Lourenço, professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que atua com neurociência molecular.
Ainda, pode diminuir ou retardar o aparecimento dos sintomas de Parkinson, segundo Joaquim Ferreira, neurologista português.
O sono também é benéfico para a saúde em geral e tem um papel importante na formação e consolidação da memória, além de ser responsável pelo equilíbrio emocional. Faz com que o sistema linfático trabalhe de modo mais ativo, removendo toxinas e permitindo que o cérebro funcione de forma mais satisfatória, conforme o neurocirurgião Fernando Campos Gomes Pinto.
Já a alimentação adequada integra os pilares de uma vida saudável e tem impactos na saúde mental. A ligação entre o eixo cérebro-intestino também tem ficado cada vez mais evidente.
— Hoje a gente já sabe que a alimentação, principalmente saudável, que consiste de frutas, verduras, alimentos integrais, em comparação a alimentos ultraprocessados, está associada tanto ao risco de desenvolvimento de transtornos mentais, principalmente a depressão, como na progressão e na redução de sintomas — afirmou a nutricionista Natasha da Fonseca no evento.
Confira alguns tópicos que estão mobilizando pesquisadores e especialistas:
- Em quadros depressivos, novos tratamentos com quetamina e cogumelos mágicos surgem como esperança, pois talvez possam atuar na parte medial do cérebro, região não bem alcançada pelos antidepressivos atuais e crucial para a sensação de bem-estar, algo que está sendo estudado
- A neurociência cognitiva estuda questões sobre a estética, incluindo o impacto do ambiente construído. Estudos estão começando a explorar como pessoas no espectro autista reagem de forma única a espaços construídos
- A depressão é um dos maiores problemas de saúde mental global, intimamente ligada à ansiedade, mas com baixa detecção, especialmente em países de baixa renda. Dispositivos digitais medem a atividade de uma pessoa com depressão e podem ser úteis na detecção e em possível tratamento
- A esquizofrenia tem vivenciado grandes avanços no tratamento nos últimos 30 anos, permitindo que as pessoas tenham vidas produtivas e com qualidade. Novas moléculas sem dopamina estão sendo lançadas
- A obesidade já é reconhecida como uma doença do cérebro, com forte correlação com a saúde mental e o comportamento. Pesquisas atuais têm buscado caracterizar populações com obesidade e ansiedade. Há também foco nos fenótipos do comportamento alimentar para desenvolver tratamentos mais assertivos
*A repórter viajou a convite do Congress on Brain, Behavior and Emotions 2025



