
Sabores atrativos, cheiros agradáveis, embalagens coloridas e lúdicas. Criados para parecerem inofensivos, os cigarros eletrônicos têm preocupado médicos e pesquisadores de saúde. No Rio Grande do Sul, especialistas já observam diferentes tipos de complicações causadas pelo uso dos dispositivos, também chamados de vapes ou pods.
A venda e importação de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil desde 2009, mas os itens são de fácil acesso e se tornaram populares nos últimos anos, especialmente entre os mais jovens.
Dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde na última quarta-feira (28), em alusão ao Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado oficialmente em 31 de maio, apontam crescimento do uso desse tipo de dispositivo entre adultos moradores de capitais brasileiras. Em 2023, o percentual de pessoas que fumavam cigarros eletrônicos era de 2,1%. Já em 2024, o número subiu para 2,6%.
Apesar da oscilação percentual leve, o impacto da popularidade dos vapes é sentido diariamente nos consultórios médicos. Conforme Caroline Freiesleben, pneumologista do Hospital São Lucas da PUCRS, é crescente o número de pacientes com sintomas associados aos dispositivos que buscam atendimento na instituição.
Os quadros vão desde sintomas respiratórios mais leves, como a tosse, até complicações severas, em que há comprometimento da função pulmonar. Em alguns casos, o dano não se restringe ao aparelho respiratório, conforme a médica.
— Já tive um caso grave de intoxicação por nicotina causada pelos cigarros eletrônicos, que têm uma dose muito alta dessa substância. A paciente teve um quadro muito sério, que causou, inclusive, sintomas neurológicos e internação na emergência — conta Caroline.
A médica explica que, em casos mais leves, o paciente pode ser tratado em consultório. Porém, quando a complicação se agrava, pode ser necessário suporte de oxigênio e uso de corticoides. Em algumas situações, o dano é irreversível.
— Temos já a descrição de casos em que os pacientes precisaram ser entubados e que, mesmo com o tratamento, não houve uma resolução total. Ou seja, o paciente perdeu função pulmonar — diz Caroline.
Doença própria
A pneumologista enfatiza que o dano causado pelos cigarros eletrônicos é tamanho que os dispositivos já estão associados a uma doença específica, a EVALI – sigla para Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarros Eletrônicos e Vapes.
Trata-se de uma doença inflamatória aguda, causada pelo contato da mucosa pulmonar com os vapores gerados pelos cigarros eletrônicos, permeados por substâncias tóxicas.
— Essa doença costuma manifestar falta de ar súbita, tosse seca e queda do nível de oxigênio no sangue, o que é muito preocupante. Há descrição de casos de EVALI, inclusive entre pessoas famosas, com danos bastante sérios — explica a médica.
Falsa sensação de segurança
Manuela Cavalcanti, pneumologista da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Rio Grande do Sul (SPTRS), lembra que os cigarros eletrônicos surgiram no início dos anos 2000, apresentados como "alternativas" para o uso do cigarro convencional.
A ideia vendida era de que, com a substituição do tabaco pelos vapes, haveria uma redução de danos. O cheiro, os sabores e a aparência dos dispositivos contribuíram para esse entendimento, mas, conforme a médica, os estudos demonstraram o contrário.
— Os cigarros eletrônicos são tão perigosos quanto o tabaco. Eles têm uma alta dose de sal de nicotina, um tipo de nicotina diferente da usada nos cigarros convencionais, que pode ter um potencial aditivo até maior. Além disso, têm flavorizantes, glicerol, formaldeído e várias outras substâncias altamente tóxicas ao corpo humano — detalha a presidente da SPTRS.
Somatório de vícios
Em razão dos altos níveis de nicotina, é comum que os usuários de cigarros eletrônicos acabem viciados nos dispositivos de forma rápida. Por vezes o uso inicia de maneira despretensiosa, pela curiosidade de experimentar ou pelo desconhecimento dos riscos, mas se concretiza como vício.
Segundo Manuela, também é corriqueiro que o cigarro eletrônico seja consumido por pessoas que já são tabagistas. Nesses casos, o uso costuma ser feito com a intenção de "reduzir os danos" do tabaco, mas o que acontece, na prática, é a adição de um novo vício – aquilo que a área médica conceitua como "uso dual", conforme explica a especialista.
Segundo a presidente da SPTRS, não existe "redução de danos" quando se trata do tabagismo, e os cigarros eletrônicos não devem ser encarados desta forma:
— Temos estudos que mostram que pacientes que usam os dois tipos de cigarro têm riscos elevados de complicação pulmonar, de desenvolver uma doença cardiovascular e de ter uma complicação na cavidade oral. Então, precisamos levar adiante essa informação de que o cigarro eletrônico não é seguro e não é o caminho para quem quer deixar o tabaco.
Conscientização e fiscalização
A médica entende que, para reverter o cenário de popularização dos cigarros eletrônicos, é necessário haver um esforço em duas frentes: conscientizar a população sobre os perigos desses dispositivos e intensificar a fiscalização sobre a venda de vapes e pods.
— É um esforço que deve ser coletivo. Precisamos de mais campanhas de conscientização, precisamos que os médicos falem mais sobre os cigarros eletrônicos com os seus pacientes, perguntem se fazem uso, e precisamos que a fiscalização seja eficiente — diz.
Para Marcelo Coelho, agente de fiscalização da Vigilância Sanitária de Porto Alegre, também é necessário que haja engajamento da população na missão de combater a disseminação dos cigarros eletrônicos.
O fiscal explica que, na Capital, a fiscalização sobre a venda dos dispositivos ocorre mediante denúncias pelo telefone 156. Contudo, segundo ele, o número de delações ainda é baixo.
— Não temos condições de produzir uma fiscalização proativa, somente mediante denúncias. Porém, as denúncias são muito poucas. Talvez seja porque os cigarros eletrônicos já se tornaram uma coisa cultural, mas eles são proibidos, e a gente precisa desse apoio da população. É uma situação que nos preocupa — alerta.
O agente frisa que, além dos dispositivos, essências e acessórios ligados aos cigarros eletrônicos também são proibidos. A fiscalização inclui, ainda, o consumo de vapes e pods em ambientes coletivos fechados — o que vai contra legislação municipal antifumo e também pode ser denunciado ao 156.
— As pessoas têm essa falsa sensação de que cigarro eletrônico não é cigarro, mas ele é — observa Coelho.

