
As emergências pediátricas do Sistema Único de Saúde (SUS) operam com superlotação em Porto Alegre na manhã desta terça-feira (27). O pior cenário atinge o Hospital de Clínicas, que atendia com 215% da capacidade (28 pacientes em 13 leitos disponíveis) às 9h40min.
Na segunda-feira (26), a instituição chegou a ter 35 crianças em atendimento e mais 15 aguardando. Na porta de entrada, uma placa informa que o setor recebe apenas casos de risco e está com restrição máxima.
Na tarde desta segunda, o Hospital Criança Conceição também restringiu os atendimentos para receber apenas situações trazidas pelo Samu. Pela atualização desta terça de manhã, a emergência estava com 121% da capacidade, com 17 leitos ocupados em uma estrutura que comporta 14 vagas.
A instituição informou que manterá a limitação até pelo menos as 17h desta terça-feira, quando haverá nova avaliação.

Portão fechado
A garçonete Cintia Garcia, 40 anos, não conseguiu levar o filho de oito anos à emergência pediátrica do Hospital Criança Conceição nesta terça-feira. Com o portão fechado, ela recebeu um papel do segurança com outros endereços para buscar atendimento:
— Meu filho está desde ontem com 40 graus de febre. Já levei no posto de saúde, cheguei aqui e os portões estão fechados. Deram só um papel e ficou por isso mesmo.
A mãe decidiu ir embora após medir a temperatura do menino na calçada e verificar que a temperatura havia estabilizado com o efeito da medicação administrada em casa.

Demora no atendimento
A técnica em saúde bucal Katryn Gonçalves, 31 anos, também tentou levar a filha à emergência e não teve sucesso. Ela afirma que buscou primeiro a unidade no Morro Santana e passou na frente da UPA Bom Jesus, mas desistiu pela demora no atendimento:
— Já fui no posto de saúde onde moro e lá também está superlotado, não tem previsão. Agora vou ver o que faço. Provavelmente vou ter que pagar uma consulta particular para ela.
"Colapso na rede"
Em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da rádio Gaúcha, o diretor-presidente do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Gilberto Barichello, chamou a atenção para a gravidade do cenário:
— Tomamos uma decisão que é inédita no GHC, porque volto a frisar: nunca vivemos na história da saúde pública, na qual já estou há 30 anos, uma situação tão grave de superlotação nos hospitais. Há um colapso na rede de atenção hospitalar.
Impacto da baixa vacinação
Também em entrevista ao Atualidade, o chefe médico da Unidade de Emergência Pediátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, João Carlos Santana, chamou atenção para o impacto da baixa adesão à vacinação contra a gripe entre as crianças, aumentando o risco de complicações:
— Só de fazer a vacina já diminui um monte a chance de ficar doente. Então, não vacinar é terrível para nós. Tem um fenômeno, uma onda contra a vacina, que não pode existir.
Questionada sobre a situação, a Secretaria Municipal de Saúde também citou a ampliação da vacinação como um dos fatores que podem ajudar a amenizar a alta demanda de crianças nos atendimentos. Nesta terça-feira, a cobertura vacinal de crianças na Capital estava em 28,62%, com 21.874 doses aplicadas mesmo após o Dia D de vacinação no sábado (24).
A recomendação das autoridades e hospitais é que, em casos mais simples, a população evite as emergências e procure as unidades básicas de saúde ou prontos atendimentos.
Lotação de emergências pediátricas em Porto Alegre
Os números são da manhã desta terça-feira (27).
Via Sistema Único de Saúde (SUS)
- Hospital de Clínicas: 215% (28 leitos ocupados em 13 vagas)
- Hospital Criança Conceição: 121% (17 ocupados em 14)
- Hospital Materno Infantil Presidente Vargas: 150% (18 ocupados em 12)
- Santa Casa: 113% (nove ocupados em oito). Esta emergência é referenciada: recebe apenas pacientes encaminhados para atendimento de alta complexidade
Via convênios e particular
- Hospital Moinhos de Vento: 110%
- Santa Casa: ainda não atingiu a ocupação total da emergência. Nesta manhã desta terça, conta com cinco pacientes em observação, aguardando leito de internação





