Depois de ter uma postagem sobre tratamento precoce contra o coronavírus retirada do Twitter, que classificou o conteúdo como enganoso, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, informou que a imprensa tem de saber diferenciar o "tratamento precoce" com "atendimento precoce". Na mensagem escondida pela rede social, o ministério informava: "Para combater a covid-19, a orientação é não esperar. Quanto mais cedo começar o tratamento, maiores as chances de recuperação. Então, fique atento! Ao apresentar sintomas da covid-19, #NãoEspere, procure uma Unidade de Saúde e solicite o tratamento precoce".
Quando foi aprovado o uso emergencial das vacinas de Oxford e da Coronavac, no domingo (17), a gerência de medicamentos da Anvisa também alertou que as imunizações eram necessárias devido à ausência de alternativas terapêuticas — ou seja, refutando a existência de remédios que possam tratar a covid-19.
Apesar de seu ministério ter alertado para que a população procurasse tratamento precoce, Pazuello informou em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (18) que não cabe à pasta orientar que remédio o paciente deve tomar ou não. Pazuello destacou que cabe ao ministério orientar que a população não fique em casa assim que os sintomas aparecerem, que um médico deve ser procurado.
— Nós defendemos, incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de saúde. Que procure o médico e ele faça o atendimento clínico e o diagnostico precoce dos pacientes. O ministério não tem protocolos sobre isso, nem poderia ter, não é missão do ministério para o tratamento. Tratamento é uma coisa, atendimento é outra. Como leigos, às vezes falamos o nome errado. Mas nós temos que saber exatamente o que nós estamos querendo dizer. Atendimento precoce, é esse o nosso objetivo — informou Pazuello.
Para ele, a falta de atendimento precoce faz os sintomas se agravarem, o que acaba impactando ainda mais no sistema de saúde.
Em diversas ocasiões, porém, desde que foi empossado como ministro da Saúde, Pazuello, assim como o presidente Jair Bolsonaro, defendeu especificamente o chamado "tratamento precoce" com medicamentos sem comprovação científica de eficácia no combate à covid-19.
Quatro dias antes de declarar que "tratamento é uma coisa, atendimento é outra", o ministro da Saúde criticou a falta de atenção ao suposto "tratamento precoce", que é como o governo federal chama a administração de hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina para pacientes com coronavírus — não há comprovação de eficácia destas medicações no combate à covid-19 em qualquer fase da doença. Ao comentar questões relacionadas ao colapso do sistema hospitalar em Manaus, Pazuello disse:
— Manaus não teve a efetiva ação no tratamento precoce com diagnósticos clínicos, no tratamento básico. Isso impactou muito a gravidade da doença. Por outro lado, a infraestrutura hospitalar é bastante reduzida em termos de percentual, é um dos menores do país. Se juntar esses dois fatores e colocar o clima, você vai ter uma grande procura por estrutura e tratamento especializado — afirmou Pazuello.
Coloco de maneira bem dura: a UTI e o respirador são para último caso. Precisamos tratá-los de forma precoce com medicamentos
EDUARDO PAZUELLO
Ministro da Saúde, em passagem por Porto Alegre em julho de 2020
Meses antes, em passagem por Porto Alegre em julho do ano passado, após reunião com o governador Eduardo Leite e outras autoridades, o ministro da Saúde afirmou que a decisão médica é soberana, mas deixou clara sua opinião:
— Coloco de maneira bem dura: a UTI e o respirador são para último caso. Precisamos tratá-los de forma precoce com medicamentos — disse Pazuello na ocasião.
A afirmação de Pazuello, nesta segunda-feira, de que "o ministério (da Saúde) não tem protocolos sobre isso (tratamento precoce)" tampouco é verdadeira.
No dia 20 de maio de 2020, sob comando – então interino – de Pazuello, o Ministério da Saúde divulgou um documento que ampliou a possibilidade de uso da cloroquina e da hidroxicloroquina também para pacientes com sintomas leves do coronavírus. O próprio texto, porém, reconhece que não há evidências suficientes de eficácia, e o termo de consentimento do paciente cita risco de agravamento da condição clínica.
A orientação foi atualizada em 15 de junho e continua disponível no site da pasta. Até então, o protocolo adotado pelo Ministério da Saúde previa o uso do medicamento apenas por pacientes graves e críticos e com monitoramento em hospitais. O ministro da Saúde Nelson Teich saiu da pasta no dia 15 de maio após divergir do presidente Jair Bolsonaro sobre o uso da cloroquina.





