Uma carta assinada por médicos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) ganhou espaço na prestigiada revista científica britânica The Lancet na edição online de 10 de novembro. De autoria do residente André Zimerman, dos cardiologistas Luis E. Rohde e Leandro Zimerman, do Serviço de Cardiologia do Clínicas, e com colaboração de Renato D Lopes e André D’Ávila, cardiologistas com atuação nos Estados Unidos, o texto "Covid-19 no Brasil: as manchetes deveriam ser sobre ciência" aponta os avanços da pesquisa brasileira sobre o coronavírus, em particular sobre técnicas de tratamento da doença.
Ao mesmo tempo em que menciona que disputas políticas e declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro dominam o espaço no noticiário, o artigo destaca que há uma colaboração fundamental entre médicos e cientistas para fazer novas descobertas sobre a infecção, mas acabam relegadas pelas manchetes. Elogia, ainda, um poder de articulação científica incomum para países pobres.
— A gente fica acompanhando as revistas científicas como a própria The Lancet criticando a forma como os políticos no Brasil enfrentam a pandemia, mas que ignoram todo esforço e a competência dos pesquisadores que trabalham para controlar a covid-19 — explica Leandro Zimerman.
Conforme a publicação, o Brasil tem mais de 70 centros de pesquisa trabalhando em coalizão para vencer a doença e tem realizado 11 ensaios clínicos randomizados com mais de 5 mil participantes.
Cientistas brasileiros conseguiram elaborar estudos bem fundamentados que forneceram evidências de que hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, não beneficiou os casos de covid-19 de tom moderado. O país também confirmou que a dexametasona ajuda os pacientes com casos graves da infecção.
— Poucos países têm conseguido contribuir tanto para o tratamento da doença como o Brasil — assegura Zimerman.
São esperados para um prazo entre três e seis meses conclusões de pesquisas em andamento em instituições no país, como o resultado da prescrição de anticoagulantes orais diretos para pacientes hospitalizados e de antivirais para infecções em estágios avançados.
"Em meio a turbulências políticas, citações polêmicas e confusão, pesquisadores brasileiros, por meio de resiliência, discrição e excelente ciência, conseguiram responder a perguntas relevantes relacionadas à covid-19, e continuar a fazê-lo. E esta é uma história que também merece ser contada ", conclui o artigo.

