
Países do mundo inteiro lançaram mão de diferentes estratégias de combate à pandemia de coronavírus. O Brasil, que ultrapassou os 100 mil mortos pela doença neste sábado (8), optou por um modelo responsável por dois dos piores resultados internacionais diante da covid-19.
Segundo especialistas em infectologista e epidemiologia, o opção brasileira ignorou exemplos de nações melhor sucedidas na redução de impactos à saúde e seguiu uma receita semelhante à dos Estados Unidos – recordista mundial em número absoluto de mortes e oitavo em óbitos por habitante, uma posição à frente do Brasil.
O modelo americano, seguido em nível federal, combinou itens como negação presidencial da gravidade da doença, politização da pandemia, resistência a medidas coordenadas de fechamento da economia, demora na indicação do uso generalizado de máscaras e aposta em medicações sem comprovação científica de eficácia contra o coronavírus, como a cloroquina.
— O Brasil deu uma lição de como não deve ser uma resposta nacional a uma pandemia. Não houve uma liderança nacional clara. A mensagem do governo federal foi de naturalizar a morte dos brasileiros mais vulneráveis — avalia o infectologista Ronaldo Hallal, consultor do Comitê Covid-19 da Sociedade Rio-Grandense de Infectologia.
O infectologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alexandre Zavascki avalia que, diante desse cenário, mais recentemente prefeitos e governadores acabaram “desistindo” de tentar controlar a pandemia e admitindo flexibilizar restrições mesmo com a doença em expansão.
— Estados e prefeituras, trabalhando isoladamente, não se sustentaram e foram se adaptando à lógica do negacionismo. E não é que a questão econômica não seja importante. Mas nós tínhamos de resolver o problema da pandemia justamente para a economia funcionar — explica Zavascki.
Não faltavam bons exemplos a seguir: a Nova Zelândia investiu em um isolamento rigoroso e esmagou a curva de contaminações em vez de achatá-la, para em seguida reabrir a economia. A Coreia do Sul usou ampla testagem para identificar e isolar casos suspeitos. Asiáticos em geral assumiram desde o início o uso massivo de máscaras, o que permitiu a países como o Japão evitar um lockdown.
— Taiwan é outro bom exemplo, com certeza, entre outros países como Noruega, Dinamarca e Finlândia — opina o mestre em Saúde Pública pela Universidade Harvard Marcio Sommer Bittencourt.
Mesmo com a proximidade à China, os taiwaneses aplicaram um conjunto de boas práticas (veja detalhes no quadro) incluindo adesão social a medidas de prevenção e uso de tecnologia para identificar casos suspeitos. Até sexta-feira (7), haviam notificado apenas sete mortes entre 23 milhões de habitantes.
GaúchaZH entrou em contato com o Ministério da Saúde, mas não obteve retorno. O ministério, por meio de suas redes sociais, destaca que o Brasil tem um número de curados superior ao de casos ativos — eram 2 milhões contra pouco mais de 740 mil até a sexta-feira (7). O governo federal também destaca que “mantém esforço contínuo para garantir o atendimento em saúde à população, em parceria com Estados e municípios, desde o início da pandemia”.
Para isso, informa já ter repassado mais de R$ 47 bilhões especificamente para combate ao coronavírus. Ressalta ainda a distribuição de 216 milhões de equipamentos de proteção e mais de 13 milhões de testes, entre outros investimentos.
As lições de Taiwan
Aja rápido
Ainda na virada do ano, enquanto a China ainda avaliava a gravidade da nova doença, Taiwan passou a examinar passageiros chineses em busca de possíveis sintomas. Casos suspeitos já eram colocados em quarentena.
Identifique e isole
Mesmo antes de confirmar seu primeiro caso, Taiwan passou a testar pessoas para identificar doentes e colocá-los em isolamento, assim como aqueles com quem tiveram contato, e dessa forma cortar a transmissão do vírus. Viajantes vindos de áreas afetadas se submetem a uma quarentena de 14 dias.
Use a tecnologia
Monitores de temperatura identificam suspeitos em locais como aeroportos, um aplicativo permite informar histórico de viagens e sintomas a um banco de dados nacional. Bancos de dados também foram cruzados com informações sobre a saúde dos taiwaneses para agilizar e priorizar atendimentos.
Engaje a sociedade
Desde o começo da pandemia, o governo promoveu campanhas de esclarecimento, prestou orientações de prevenção e contou com o apoio da população na adoção de medidas como higienização, uso de máscaras e distanciamento social.




