
Pioneiro no uso de plasma de pacientes curados de covid-19 para tratar doentes em estado grave por causa do coronavírus, o Hospital Virvi Ramos, em Caxias do Sul, observa resultados positivos do uso da terapia. Das nove pessoas internadas em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) que receberam esse tipo de auxílio desde 26 de maio, uma se recupera da doença no quarto e duas já receberam alta.
— É precoce dizer que isso é a solução de todos os problemas, mas a perspectiva é boa. Nós observamos que a chance de o paciente evoluir melhor é muito maior. Dar a notícia para uma família de que um paciente deixou de piorar já é algo que com certeza faz valer a pena — diz a médica intensivista Eveline Maciel Correa, que coordena o trabalho no Virvi Ramos.
Segundo a intensivista, os pacientes credenciados para receber o plasma convalescente — que é a parte líquida do sangue de pessoas que contraíram a doença e já se curaram — são aqueles que mostram algum tipo de comprometimento das funções respiratórias e necessitam de internação na UTI. Até o momento, os que reagiram melhor à terapia foram aqueles que já estavam com dificuldades para respirar, mas ainda não tinham sido entubados.
Primeiro paciente a receber alta do hospital após o tratamento com plasma, o vendedor Carlos da Silva Borges, 40 anos, começou com a terapia assim que seu quadro se agravou, mais de uma semana depois dos primeiros sintomas — período considerado o mais adequado para iniciar o tratamento. No dia seguinte à primeira transfusão, percebeu mudanças no quadro.
— Estava muito debilitado. Pensava que se fosse para os aparelhos, ia morrer. O médico me deu a opção de receber o plasma, aceitei e, no segundo dia, já estava me sentindo mais forte — conta Borges, que acredita ter contraído a doença de um colega de trabalho que testou positivo para covid-19.
O morador de Caxias do Sul foi dos poucos a atravessarem o período de cuidados intensivos sem precisar de aparelhos para respirar. Voltou para casa no começo da semana, após sete dias na UTI.
Nesta sexta-feira (3), uma mulher de 32 anos foi a segunda paciente a deixar o hospital depois de realizar o tratamento com plasma convalescente. Ela havia passado pela transfusão na segunda-feira (29).
Primeiro paciente que recebeu o plasma de doador no hospital caxiense, Tarcísio Giongo, 63 anos, recupera-se no quarto desde 15 de junho. De acordo com o hospital, ele apresentou melhora no sistema respiratório e é considerado recuperado do coronavírus.
Outros quatro pacientes tratados com a terapia seguem internados na UTI. Duas pessoas que apresentavam quadros mais críticos quando passaram pela terapia com plasma não resistiram. Uma mulher de 83 anos morreu em menos de uma semana após a transfusão, em 20 de junho, mesmo dia em que um homem de 64 anos faleceu.
Hemocentro precisa de doadores
Até o momento, o Hemocentro de Caxias do Sul (Hemocs), que faz a triagem e coleta do material utilizado pelo Virvi Ramos, recebeu mais de 50 candidatos de cidades como Porto Alegre, São José do Herval, Caxias do Sul e Garibaldi para doar plasma convalescente. Alguns foram excluídos por não serem considerados aptos para o procedimento.
Para doar, é preciso passar por uma avaliação e atender a uma série de critérios, incluindo ter apresentado quadro leve da doença. Neste momento, as pessoas que podem doar são homens, entre 18 e 60 anos, que tiveram covid-19 confirmada por meio do teste PCR, estão há mais de 28 dias recuperados, sem sintomas da doença e não apresentam outras doenças infecciosas.
As avaliações precisam ser agendadas pelos telefones (54) 3290-4543 e (54) 3290-4580 ou pelo WhatsApp (54) 98418-8487. O Hemocs atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30min às 17h30min, e aos sábados, das 8h às 12h, na Rua Ernesto Alves, 2.260, ao lado da UPA Central.
Como funciona o tratamento
No tratamento com plasma convalescente, o sangue é retirado de uma das veias do doador e passa por um equipamento que separa plasma, plaquetas, glóbulos brancos e vermelhos. O plasma é acondicionado em uma bolsa plástica. O material pode ser congelado e armazenado até durante um ano. Os demais componentes do sangue são devolvidos ao doador.
O procedimento de coleta de plasma dura, em média, cerca de uma hora, e ocorre nos mesmos moldes da transfusão de sangue. O receptor recebe o líquido por via venosa. Para isso, o sangue dele precisa ser compatível com o do doador. No caso específico das pesquisas envolvendo covid-19, o receptor deve ter a doença ativa no organismo.



