Com a evolução dos tratamentos, a infecção pelo HIV/AIDS deixou de ser uma sentença de morte, passando à condição crônica manejável, mas continua desafiando a sociedade¹. Ainda são necessárias campanhas de conscientização para alertar sobre a importância da prevenção, do diagnóstico e do tratamento precoces². No Brasil, há cerca de 900 mil pessoas vivendo com HIV, segundo o Relatório de Monitoramento Clínico do Ministério da Saúde de 2019³ – no Rio Grande do Sul, são 23.957 casos de infecção entre 2007 e 2018³.
Embora o Brasil tenha reduzido o número de óbitos relacionados à doença, que caiu 22,8% (de 12,5 mil, em 2014, para 10,9 mil em 2018) a infecção tem crescido entre os jovens³. A maioria dos casos no país é registrada entre os meninos/homens na faixa etária de 15 a 34 anos³.
No Rio Grande do Sul, houve declínio de 36% da taxa de detecção de AIDS nos últimos 10 anos de monitoramento, considerada a terceira mais elevada entre os estados brasileiros – 46/100.000 habitantes. O mesmo ocorre na capital gaúcha, que apresentou diminuição das taxas, porém, mantém a primeira posição no ranking de capitais com a maior taxa de detecção, com mais de 60 casos por 100 mil habitantes. Assim como no país, o Estado apresenta aumento do número de casos em adolescentes, jovens, adultos e idosos – todos homens (4).
Outro dado preocupante é o aumento dos casos de HIV/AIDS em idosos (5). Em determinados locais no mundo, estima-se que, em 2030, 70% da população com HIV será composta de pessoas acima de 50 anos (6).
Inúmeros fatores contribuem para esse aumento desenfreado entre jovens e idosos com HIV, sendo o principal deles o não uso de preservativo durante as relações sexuais (7). No caso da terceira idade, podemos adicionar o fato de hoje ter maior oferta de medicamentos contra a disfunção erétil, como comenta o médico infectologista Carlos Henrique Kvitko:
- A longevidade e o uso desses medicamentos estenderam a atividade sexual nesta faixa etária, que, ao se relacionar sem proteção, está exposta à infecção. Ainda há preconceito com o uso de preservativos e com fazer ou solicitar o teste, o que é preocupante. Se o paciente idoso é ativo sexualmente, está infectado e não tem o diagnóstico, está transmitindo o vírus.
O infectologista relata que reforça com os pacientes, principalmente com aqueles em primeira consulta, que o HIV/AIDS é uma doença crônica que não tem cura e potencialmente fatal, caso não sigam o tratamento. Mas para ser considerada crônica, com evolução positiva, há a necessidade do paciente tomar a medicação diariamente e consultar o médico para monitorar os efeitos adversos:
- Seria interessante que os médicos de outras especialidades incluíssem os exames de detecção de IST nas consultas de rotina, independentemente se o paciente é casado ou solteiro, jovem ou idoso.
Por conta disso, a testagem ainda é um tabu: estima-se que existam 134 mil brasileiros vivendo com o vírus sem saber³. Além do risco de contaminar outras pessoas, o desconhecimento sobre sua condição sorológica pode privar o indivíduo do início precoce do tratamento antirretroviral (8).
O diagnóstico é feito a partir da coleta de sangue ou por fluido oral. No Brasil, há exames laboratoriais e testes rápidos que detectam os anticorpos contra o HIV em cerca de 30 minutos. Esses exames são realizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nas unidades da rede pública, e nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA). Alguns testes rápidos também podem ser encontrados à venda nas farmácias (9).
Além dos testes, no Brasil, o tratamento contra o HIV é disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (8). O Programa Nacional de DST/AIDS do governo brasileiro é reconhecido mundialmente por sua ampla atuação no campo de direitos humanos, prevenção e tratamento, responsável por aumentar o tempo de sobrevida dos pacientes com HIV em tratamento (10).
Kvitko destaca que “a função dos antirretrovirais é suprimir o vírus, tornando-o indetectável no organismo. O impacto do tratamento na pessoa que vive com o HIV é extremamente positivo, pois ela pode ter uma vida normal – pode ter filhos, praticar esportes, trabalhar. Os medicamentos mais modernos proporcionaram qualidade de vida aos pacientes, pois têm menos efeitos adversos e são mais potentes no combate ao vírus, o que não ocorre nos medicamentos mais antigos. Antes, o objetivo era manter o paciente vivo; hoje, é que o paciente tenha uma boa qualidade de vida, sendo fundamental o acompanhamento com o especialista”.
Investimento em ciência
A evolução no manejo da infecção do HIV/AIDS no Brasil – hoje caracterizada como doença crônica – se deve também às alianças estratégicas entre empresas privadas e institutos de pesquisa públicas, por meio de transferências de tecnologia e expertise para se produzir localmente os medicamentos cada vez mais inovadores.
Um exemplo é a recente parceria entre a GSK, que, por meio da ViiV Healthcare, se dedica exclusivamente ao desenvolvimento e produção de medicamentos para o HIV - e o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz). Esta aliança permitirá o desenvolvimento de antirretrovirais no Brasil, melhorando a capacidade nacional de produção de medicamentos para o tratamento de pessoas que vivem com HIV. A colaboração prevê a fabricação local de uma combinação de dois medicamentos já existentes, que resultará em uma nova terapia que pode trazer mais qualidade de vida e menos efeitos colaterais aos pacientes.

Referências
1. BRASIL. Ministério da Saúde. Saude de A a Z – AIDS/HIV. Disponível em: <http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/aids-hiv#:~:text=A%20transmiss%C3%A3o%20do%20HIV%20e,Sexo%20oral%20sem%20camisinha>. Acesso em: 31 ago. 2020.
2. UNAIDS. 90-90-90 Uma meta ambiciosa de tratamento para contribuir para o fim da epidemia de AIDS. Disponível em: <https://unaids.org.br/wp-content/uploads/2015/11/2015_11_20_UNAIDS_TRATAMENTO_META_PT_v4_GB.pdf>. Acesso em: 31 ago. 2020.
3. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Relatório de Monitoramento Clínico do HIV 2019. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/system/tdf/pub/2016/67063/relatorio_de_monitoramento_clinico2.pdf?file=1&type=node&id=67063&force=1> Acessado em: 01 out. 2020
4. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS 2019. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2019/boletim-epidemiologico-de-hivaids-2019. Acesso em: 31 ago. 2020.
5. WING EJ. HIV and aging.International Journal of Infectious Disease. 53:61-68.2016.
6. O ESTADO DE SÃO PAULO. Casos de HIV e AIDS entre idosos crescem. Disponível em: <https://summitsaude.estadao.com.br/casos-de-hiv-e-aids-entre-idosos-crescem-nobrasil/#:~:text=O%20maior%20e%20mais%20importante%20evento%20de%20saúde%20do%20Brasil.&text=O%20vírus%20do%20HIV%20pode,o%20aumento%20foi%20de%20657%25>. Acesso em: 31 ago. 2020.
7. BRASIL. Ministério da Saúde.Tratamento para o HIV Disponível em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/o-que-e-hiv/tratamento-para-o-hiv>. Acesso em: 31 ago. 2020.
8. BRASIL. Ministério da Saúde. Diagnóstico do HIV. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/o-que-e-hiv/diagnostico-do-hiv>. Acesso em: 31 ago. 2020.
9. Telelab. ONU aponta Brasil como referência mndial no controle a Aids. Disponível em: <https://telelab.aids.gov.br/index.php/2013-11-14-17-44-09/item/246-onu-aponta-brasil-como-referencia-mundial-no-controle-da-aids>. Acesso em: 31 ago. 2020
NP-BR-HVX-PRSR-200010 – Novembro/2020

