
A gravidez é um período de descobertas e transformações para a mulher. Nesse processo, o acompanhamento médico regular tem papel fundamental para monitorar a saúde da mãe e do bebê, além de identificar precocemente condições que podem exigir atenção especial. A pré-eclâmpsia é uma delas e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode afetar até 8% das gestantes.
A condição pode estar associada ao aumento da pressão arterial, geralmente após a 20ª semana de gestação, e à presença de proteínas na urina, indicando que os rins podem não estar filtrando o sangue adequadamente. O médico obstetra cooperado da Unimed Porto Alegre José Geraldo Lopes Ramos ressalta que o quadro pode provocar uma série de complicações.
— É uma doença que pode causar agravamentos como hemorragias pós-parto, descolamento de placenta e convulsões. Quando ocorrem convulsões, o quadro é chamado de eclâmpsia. A pré-eclâmpsia é a principal causa de mortalidade materna no Brasil e, por isso, temos feito um esforço muito grande para reduzir sua frequência, inclusive com a adoção de medidas preventivas — explica o especialista.
Como é feito o diagnostico
Além da pressão arterial elevada e da presença de proteínas na urina, alguns sinais que podem indicar pré-eclâmpsia são dores de cabeça intensas, alterações na visão, dor na parte superior do abdômen, náuseas e vômitos após o primeiro trimestre da gravidez, assim como inchaço repentino nas mãos e no rosto.
A investigação combina avaliação clínica e exames laboratoriais, como análises de sangue e urina, que auxiliam no diagnóstico e na avaliação da gravidade do quadro. Nos casos mais graves, pode ser necessária a internação da gestante para acompanhamento mais rigoroso.
— Quando o quadro clínico já está bem estabelecido, dependendo da gravidade, há um risco maior de complicações. A paciente pode ser internada e uma série de medidas são adotadas. Essas mães podem apresentar risco de infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral e, mesmo depois da gravidez, ficam mais propensas a esse tipo de doença — ressalta o obstetra.
Complicações graves
Embora o diagnóstico e a evolução da pré-eclâmpsia variem de uma gestante para outra, alguns casos podem apresentar complicações importantes para a mãe e o bebê. Foi o que aconteceu com Nathiele Censi, que engravidou aos 15 anos e desenvolveu a síndrome HELLP, uma das formas mais graves associadas à pré-eclâmpsia. Caracterizada pela destruição das hemácias — responsáveis pelo transporte de oxigênio e dióxido de carbono pelo organismo —, aumento das enzimas do fígado e redução da quantidade de plaquetas no sangue, a condição levou ao nascimento prematuro de Vitória, com 29 semanas.
Apesar de realizar regularmente o acompanhamento pré-natal e os exames indicados, o quadro foi identificado durante uma consulta de rotina, quando Nathiele apresentou pressão arterial elevada e inchaço intenso. Ela relembra que o diagnóstico levou à internação imediata, com o objetivo de prolongar a gestação pelo maior tempo possível.
— Foi realizada uma cesárea de emergência, e minha filha nasceu com 29 semanas, bem prematura. Ela ficou hospitalizada por praticamente cinco meses, parte desse período na UTI Neonatal, para tratar as complicações relacionadas à prematuridade. Em decorrência disso e da baixa oxigenação durante a gestação, ela desenvolveu paralisia cerebral.
Vitória viveu até os 11 anos. Ao longo da infância, conviveu com as consequências das dificuldades enfrentadas desde o nascimento e faleceu em decorrência do quadro.
Fatores de risco
Algumas condições podem aumentar a probabilidade de desenvolvimento da pré-eclâmpsia durante a gestação. Entre os principais fatores de risco estão:
- Pré-eclâmpsia em gestação anterior
- Hipertensão arterial crônica
- Doença renal crônica
- Diabetes mellitus pré-gestacional (tipo 1 ou 2)
- Doenças autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico
- Primeira gestação
- Obesidade
- Idade materna avançada, especialmente acima dos 35 anos, ou idade inferior aos 18 anos
- Histórico familiar de pré-eclâmpsia em parentes de primeiro grau, como mãe ou irmãs
Atenção redobrada

Fernanda França, 41 anos, desenvolveu hipertensão ainda no início da gravidez de Luca, hoje com um ano. Mesmo com o tratamento, a pressão arterial permaneceu elevada ao longo da gestação, exigindo consultas mais frequentes. Com o passar das semanas, surgiram também sintomas como falta de ar e cansaço intenso. Com 30 semanas de gravidez, ela precisou ser internada e recebeu o diagnóstico de pré-eclâmpsia.
A advogada permaneceu hospitalizada até o nascimento do bebê, que veio ao mundo prematuro, com 33 semanas. Fernanda já conhecia os riscos relacionados à pressão arterial na gravidez. Na primeira gestação, sete anos antes, havia apresentado hipertensão gestacional. O histórico exigia atenção, já que alterações em uma gravidez podem aumentar o risco de recorrência nas seguintes.
— Eu não acreditava muito na época, mas se confirmou. Na gestação do meu filho de sete anos, tive alteração de pressão no finalzinho, mas ele nasceu com 40 semanas. Só que, com o segundo bebê, esse quadro já começou no início e ele nasceu prematuro — conta.
Prematuridade e recuperação
Um ano depois, Fernanda conta que Luca superou as complicações relacionadas à prematuridade, mas lembra que o período após o parto foi difícil, especialmente do ponto de vista emocional. Como o bebê nasceu antes de completar o desenvolvimento pulmonar, havia incerteza sobre a necessidade de permanência na UTI Neonatal. Ao mesmo tempo, a pressão arterial de Fernanda não se estabilizou imediatamente após o parto, o que exigiu que ela permanecesse internada por mais alguns dias.
— A pressão leva um tempo para estabilizar novamente, por isso tive que ficar mais alguns dias em observação no hospital. E ainda tem toda a questão do baby blues — alteração emocional que surge dois a três dias após o parto —, por causa da queda hormonal. Tu permaneces internada, sem poder sair, e ainda tens que cuidar de um bebê prematuro. Foi totalmente diferente da minha primeira gravidez, em que meu filho nasceu a termo — completa.
É possível prevenir?
Não existe uma forma garantida de prevenir a pré-eclâmpsia, mas alguns cuidados podem ajudar a reduzir o risco. Entre eles:
Controlar condições preexistentes, como hipertensão e diabetes
Manter um peso adequado, com orientação profissional antes e durante a gestação
Realizar o pré-natal regularmente, seguindo as consultas e os exames recomendados
Informar ao obstetra fatores de risco, como histórico de pré-eclâmpsia em gestações anteriores ou na família




