
Você já se sentiu mais solitário durante o inverno? Dias mais curtos e temperaturas mais baixas costumam reduzir a disposição para atividades do cotidiano, como praticar exercícios físicos e socializar com amigos e familiares. Embora possa afetar pessoas de todas as idades, esse sentimento tende a ser mais frequente entre os idosos, que costumam reduzir as atividades sociais nos períodos de frio intenso.
Em alguns casos, o desânimo e a vontade de se isolar podem estar associados ao Transtorno Afetivo Sazonal (TAS), também conhecido como depressão sazonal. Entre os principais sintomas estão tristeza persistente, irritabilidade, cansaço, sono excessivo (hipersonia), aumento do apetite e tendência ao isolamento social.
Embora a solidão não seja necessariamente consequência de um quadro depressivo, o isolamento social típico dessa época do ano contribui para o agravamento de diversos problemas de saúde, entre eles a depressão.
— O isolamento social também contribui para alterações metabólicas, como dislipidemia — alteração dos níveis de colesterol e triglicerídeos — e hiperglicemia — excesso de glicose no sangue —, pois a pessoa tende a se fechar, deixar de praticar exercícios, comer e beber em excesso, tornando-se cada vez mais solitária. Existe a ilusão de que estar conectado às redes sociais pelo celular substitui a convivência, mas isso não é verdade — explica o médico psiquiatra cooperado da Unimed Porto Alegre Paulo Belmonte de Abreu.
O especialista ressalta que há um efeito cumulativo no inverno: dias chuvosos e com pouca luminosidade aumentam a probabilidade de desenvolvimento de quadros depressivos. Além disso, a redução da interação social pode desregular parâmetros metabólicos, processos inflamatórios e o sistema imunológico. Segundo o psiquiatra, essas condições deixam o organismo mais suscetível a infecções, doenças autoimunes, inflamatórias, hiperglicemia e artrite, caracterizada pela inflamação nas articulações.
— Todos esses fatores relacionados ao isolamento estão, de forma independente, associados ao aumento de quadros de ansiedade, depressão, desregulação metabólica, infecções e dor. Quando somados, os riscos podem se multiplicar de cinco a 10 vezes. Por isso, é fundamental manter um estilo de vida ativo durante todo o ano, o que inclui necessariamente a interação social — afirma o psiquiatra.
Quando se preocupar
No inverno, o organismo tende a produzir mais melatonina, hormônio relacionado ao sono, enquanto os níveis de serotonina, neurotransmissor associado ao bem-estar, podem diminuir. Como consequência, algumas pessoas apresentam mais sonolência, desânimo, irritabilidade, dificuldade de concentração e falta de energia. O cuidado deve ser ainda maior com os idosos, já que a redução do contato social está associada à piora do humor, ao aumento do risco de depressão e ao comprometimento da saúde física.
No Rio Grande do Sul, esse cenário pode ser ainda mais desafiador, já que o inverno costuma ser marcado por longos períodos de frio e chuva. Nessas circunstâncias, um recolhimento eventual por um, dois ou até quatro dias é compreensível. O sinal de alerta, no entanto, surge quando há uma mudança perceptível no comportamento habitual da pessoa.
Segundo Belmonte, após cinco dias ou mais de alteração na rotina, já se considera uma mudança de padrão, semelhante ao descompasso provocado pelo jet lag — desregulação do relógio biológico causada por mudanças rápidas de fuso horário que resultam em fadiga, distúrbios do sono e alterações físicas e mentais.
— Seja no padrão alimentar, de repouso ou de atividade física, ultrapassar esse período exige atenção para que a intervenção ocorra precocemente. As estratégias mais eficazes contra a solidão dependem da presença real e do contato humano, como um abraço, um toque ou um aperto de mão. Essa proximidade reduz a ansiedade e os sintomas relacionados a processos inflamatórios e metabólicos — observa.
Como evitar a solidão na prática
Fortalecer as conexões sociais é uma das principais formas de prevenir a solidão, estimulando tanto a saúde física quanto a mental. Para os idosos, especialmente, é importante que esses vínculos sejam diversificados. Eles podem estar relacionados à torcida por um time de futebol, ao interesse compartilhado por jardinagem ou à participação em uma comunidade religiosa, por exemplo.
Belmonte destaca que, quanto mais variados forem os círculos de convivência, maior tende a ser a proteção contra doenças cardiovasculares e alterações nos níveis de gorduras e açúcares no sangue.
— Pessoas que não socializam sofrem uma aceleração desses quadros de adoecimento. Estudos populacionais com acompanhamento de 500 mil pessoas mostram que ter contatos sociais ativos, mesmo além do núcleo familiar primário, protege a saúde de forma significativa — incentiva.
O psiquiatra destaca que essa recomendação não se restringe aos idosos, mas também vale para jovens.
Cuidado integrado

Uma das formas de prevenir a solidão é manter a mente e o corpo ativos por meio da prática de exercícios físicos e da participação em atividades de convivência. Em Porto Alegre, a Unimed oferece o Viver Bem, um modelo de cuidado voltada à promoção da saúde e do bem-estar.
O coordenador médico do Viver Bem, Dirceu Reis da Silva, explica que a proposta vai além do acesso a consultas, exames, internações, fisioterapia e fonoaudiologia. O objetivo é integrar esses serviços para que cada pessoa receba o cuidado mais adequado às suas necessidades.
— Quando os cuidados acontecem de forma isolada, a trajetória do paciente pode se tornar mais desorganizada. Por isso, o Viver Bem atua para apoiar as pessoas no enfrentamento de suas condições de saúde por meio das chamadas linhas de cuidado. Nelas, pacientes com doenças crônicas são acompanhados para acessar os serviços mais indicados, favorecendo melhores desfechos — destaca.
Foco no bem-estar
Com foco na promoção da saúde e da qualidade de vida, a Unimed Porto Alegre oferece à comunidade e aos seus beneficiários iniciativas coletivas de integração, como a oficina quinzenal de escrita criativa. A atividade é conduzida por um professor de Letras e busca incentivar a produção textual, ao mesmo tempo em que cria um ambiente favorável à convivência e à troca de experiências entre os participantes.
— Também oferecemos caminhada orientada, corrida e atividades online de meditação e yoga, que podem ser realizadas em casa. Os participantes se conectam pela internet enquanto o professor conduz os exercícios. A solidão é um dos problemas mais frequentes nessa época do ano, e o Viver Bem desenvolve iniciativas justamente para ajudar a enfrentá-la — afirma Silva.
Atualmente, o Viver Bem está presente em oito unidades de Porto Alegre e Canoas, além das atividades no formato online. Acesse a programação completa em http://cliente. unimedpoa.com.br/viverbem. Além das ações coletivas, a iniciativa mantém um núcleo de saúde mental voltado à identificação de beneficiários em sofrimento emocional. O serviço é realizado por psicólogas que acompanham os casos e, ao identificarem sinais de sofrimento psíquico, entram em contato com o paciente para orientá-lo sobre onde buscar o atendimento mais adequado.
— A proposta do Viver Bem não é manter um ambulatório de psiquiatria ou psicologia, mas ajudar a pessoa a encontrar, dentro da rede da Unimed Porto Alegre, os recursos de que necessita. Muitas vezes, ela precisa de atendimento, mas não sabe por onde começar a procurar — reforça.
Quatro atitudes para combater a solidão no inverno
Aproveite a luz natural
Sempre que possível, exponha-se à luz solar durante o dia. A luminosidade estimula a produção de serotonina, neurotransmissor relacionado ao bem- -estar e ao humor.
Mantenha a prática de exercícios físicos
A atividade física ajuda a reduzir sintomas de ansiedade e depressão, além de favorecer a disposição e a qualidade do sono.
Preserve o convívio social
Reserve momentos para encontrar amigos, familiares ou participar de atividades em grupo. O contato presencial é um importante fator de proteção para a saúde mental.
Tenha uma alimentação equilibrada
Evite excessos e mantenha uma dieta variada e nutritiva. Uma boa alimentação contribui para o equilíbrio do organismo e para a manutenção da energia.





