
O Ministério da Saúde estima que cerca de 14 milhões de brasileiros convivem com doenças cardiovasculares. Trata-se de um número preocupante, já que problemas de coração (como infarto agudo do miocárdio, derrame e insuficiência cardíaca) são a principal causa de morte no país. De acordo com a pasta, respondem por aproximadamente 30% de todos os falecimentos registrados anualmente.
Nesse contexto, investir na prevenção pode ser uma das melhores estratégias para minimizar os impactos das doenças cardiovasculares. A adoção de hábitos saudáveis, como manter uma alimentação equilibrada, praticar atividades físicas regularmente e realizar acompanhamento médico periódico, contribui para diminuir os fatores de risco e para favorecer diagnósticos precoces.
Outro ponto fundamental é contar com atendimento especializado para garantir avaliações precisas, acesso a exames, procedimentos e suporte em casos de emergência. Com mais de 60 anos de história, o Instituto de Cardiologia – Fundação Universitária de Cardiologia (IC-FUC) é uma das grandes referências do país e, atualmente, representa cerca de 70% dos atendimentos cardiológicos do Rio Grande do Sul.
– Temos muito orgulho de estar sempre em prontidão, de portas abertas todos os dias e todas as noites do ano. Isso é essencial já que, em caso de infarto, que hoje é a cardiopatia mais fatal no Brasil, quanto mais rápido for o atendimento para abrir a coronária do paciente, maior será a chance de sobrevida e a evolução da recuperação – conta o diretor-presidente do IC-FUC, Gustavo Glotz de Lima.
Hoje, a fundação gere três unidades de saúde (em Porto Alegre e Santa Maria, além do Distrito Federal) e atende, só na unidade da capital gaúcha, mais de 800 pessoas por dia. Também realiza anualmente, em média, mais de 10 mil internações, 2,5 mil cirurgias cardíacas, 13 mil procedimentos de hemodinâmica e mais de 1,1 mil procedimentos de eletrofisiologia, bem como cerca de 650 mil exames laboratoriais, 45 mil exames de imagem, 90 mil eletrocardiogramas e 10 mil testes ergométricos.
Inovação e pioneirismo
Marcada por inovação, a história do IC-FUC começou em 1966, quando o professor Rubem Rodrigues, inspirado por modelos internacionais, propôs um projeto ousado: transformar um ambulatório de Porto Alegre em um centro de excelência em cardiologia. Para alcançar esse objetivo, ele fechou um acordo inédito de cooperação com o Governo do Estado, que permitiu à Fundação Universitária de Cardiologia assumir a gestão do Instituto.
Nos anos seguintes, a organização se tornou pioneira em inúmeros procedimentos da área no Rio Grande do Sul, como a primeira ponte de safena (1970), a primeira angioplastia (1982) e o primeiro transplante cardíaco (1984), realizado pela equipe do Dr. Ivo Abrahão Nesralla. Além disso, o instituto foi responsável pela criação da primeira Unidade Pediátrica de Tratamento Intensivo cardiológica do Brasil (1989).
Na década de 1990, o Instituto de Cardiologia registrou mais feitos inéditos na América Latina: desenvolveu a unidade cardiofetal (1993) e protagonizou o primeiro implante de marcapasso intrauterino (1995). Já em 2001, foi responsável pelo primeiro implante de marcapasso com utilização de robô do mundo.
Para o diretor-técnico do IC-FUC, Luciano Ceolin Rosa, conquistas como essas só foram possíveis porque o instituto foi estruturado com base em um princípio que permanece atual: integrar assistência, ensino e pesquisa para promover avanços contínuos na medicina cardiovascular.
É sob essa mentalidade que, em 2025, a organização ajudou na criação da tecnologia Taura, caixa de transporte capaz de preservar o coração por até oito horas fora do corpo, ampliando as possibilidades (distâncias e logística) de salvar vidas por meio de transplantes. Em apenas 10 meses foram 20 transplantes – um recorde, já que a média anterior era de quatro a cinco por ano.
– O recurso já está sendo utilizado em algumas cidades do Brasil, como São Paulo. Recebi comentários de médicos que estão muito satisfeitos. Como a caixa não coloca o coração em contato com o gelo, o órgão chega em condições melhores ao paciente, que tende a sair muito bem do transplante cardíaco – conta Rosa

Maior formador de cardiologistas do Estado
Desde sua fundação, o IC-FUC contribui diretamente para o fortalecimento da rede de saúde do país. Por isso, é reconhecido como o maior formador de cardiologistas, cirurgiões cardíacos e especialistas em cardiologia intervencionista do Estado.
Até hoje, já formou mais de 1,5 mil cardiologistas e cerca de 400 profissionais com especialização em cardiologia das áreas de enfermagem, fisioterapia, nutrição e psicologia.
No campo da pesquisa, a instituição já orientou mais de mil alunos de iniciação científica. Além disso, soma mais de 2,2 mil artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais.
Desafios, ampliação e planos para o futuro
Segundo o diretor-presidente do IC-FUC, o principal desafio enfrentado atualmente é garantir a sustentabilidade financeira da operação. Por ser uma instituição filantrópica, mais de 80% dos atendimentos são destinados a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) – percentual superior aos 60% exigidos por lei. No entanto, a defasagem da tabela de remuneração do sistema público, sem reajustes compatíveis com a inflação há cerca de 30 anos, faz com que procedimentos como as cirurgias de alta complexidade apresentam déficit operacional de aproximadamente 40%.
Diante desse cenário, o instituto depende de recursos não operacionais, como campanhas de arrecadação e verbas parlamentares, para manter os atendimentos. Recentemente, por meio de investimentos do Governo do Estado, a organização concluiu as reformas de um novo prédio com mais de quatro mil metros quadrados.

Com capacidade para ampliar a capacidade assistencial da instituição em até 40%, a estrutura conta com três novas salas de hemodinâmica e 47 leitos destinados à recuperação cirúrgica e aos procedimentos hemodinâmicos. Há também 180 equipamentos de última geração, incluindo o sistema Azurion 7, da Philips, uma das plataformas mais modernas do mundo para procedimentos guiados por imagem.
– É por meio de ações como essas que conseguimos acolher melhor os pacientes e trabalhar na missão de equilibrar a parte financeira. Costumo dizer que estamos cuidando do coração do Instituto de Cardiologia para poder cuidar do coração dos gaúchos – finaliza Lima.

