
Para muitos brasileiros, o verão é sinônimo de férias, lazer ao ar livre, dias de praia, piqueniques com os amigos e viagens. A mudança traz benefícios para o bem-estar. No entanto, o período também exige atenção à saúde: as altas temperaturas favorecem a proliferação de bactérias e microrganismos, aumentando o risco de doenças gastrointestinais, especialmente quando não há cuidados adequados com a alimentação e a higiene.
Por isso, durante a estação mais quente do ano, o organismo passa a demandar cuidados redobrados. Nesse cenário, a hidratação assume papel central, sendo fundamental para prevenir quadros de desidratação, problemas digestivos e gastroenterites — inflamações no estômago e no intestino provocadas por vírus ou bactérias.
O médico gastroenterologista cooperado da Unimed Porto Alegre Augusto Mantovani explica que o calor excessivo interfere diretamente no funcionamento do intestino. Segundo ele, o organismo tende, inicialmente, a direcionar o fluxo sanguíneo para os rins e para a manutenção do volume dos vasos sanguíneos, garantindo líquidos e nutrientes aos órgãos vitais, o que pode impactar o ritmo intestinal.
— Como o intestino necessita de uma quantidade adequada de água para hidratar as fezes, a perda excessiva de líquidos pela respiração e pelo suor, especialmente em climas quentes e úmidos, reduz o volume de água que chega ao intestino grosso. Por isso, é comum que pessoas com ritmo intestinal regular apresentem constipação durante o verão, assim como aquelas que já convivem com o problema percebam uma piora do quadro — explica.
Cuidado com a água parada
Durante o verão, é recorrente o registro de surtos de diarreia nas praias do litoral brasileiro. Florianópolis, destino tradicional dos gaúchos nesta época do ano, já contabilizou em 2026 um aumento nas internações hospitalares associado a um surto de virose, com sintomas como diarreia, vômitos e náuseas. Em 2025, o Rio Grande do Sul também enfrentou um cenário semelhante, com cerca de seis mil casos registrados apenas no mês de fevereiro em Porto Alegre.
O médico Augusto Mantovani alerta que a contaminação por meio da água representa um risco significativo à saúde. Embora a maioria dos casos esteja associada ao contato com a água do mar, o especialista chama atenção para o uso de rios, lagos e açudes.
— O sal presente na água do mar ajuda a reduzir parte dos microrganismos, mas em águas paradas o risco é maior. Se uma pessoa infectada entra nesses locais, pode contaminar outras com facilidade. O ideal é evitar a exposição das mucosas, como nariz e olhos, e não mergulhar em locais suspeitos. Em piscinas, o cloro atua como um fator de proteção, mas em rios e açudes o risco de contaminação é mais frequente — explica.
Segundo o médico, basta que uma pessoa com gastroenterite tenha contato com a água para que um surto de diarreia se instale entre os banhistas. Além da água, a alimentação também merece atenção redobrada, já que alimentos mal lavados ou armazenados de forma inadequada também representam perigo. No verão, as bactérias se multiplicam rapidamente, especialmente em temperaturas entre 34 °C e 37 °C. Nesse ambiente ideal para a proliferação, elas produzem toxinas capazes de provocar vômitos, dores abdominais e diarreia.
— Mesmo que o alimento seja reaquecido, essas toxinas permanecem ativas e continuam oferecendo risco à saúde — ressalta Mantovani.
Os cuidados se estendem ainda às frutas e hortaliças, especialmente aquelas consumidas com casca. A orientação é higienizá-las em solução de água sanitária, utilizando uma colher de sopa para cada litro de água filtrada. Na praia, o especialista também recomenda atenção às latinhas de bebidas.
— O gelo em que elas ficam imersas pode estar contaminado pelo contato frequente com dinheiro e mãos sujas. É comum receber no consultório pacientes que se alimentaram corretamente, mas adoeceram após beber diretamente da lata de refrigerante ou cerveja contaminada — completa.
Quando procurar atendimento hospitalar
Gastroenterite é o termo genérico utilizado para definir infecções do trato gastrointestinal, que podem ser altas, quando atingem o estômago e provocam náuseas e vômitos, ou baixas, quando acometem o intestino, causando cólicas e diarreia. Mantovani explica que, quando o desconforto é pontual e dura menos de 24 horas, geralmente está relacionado a um episódio de má digestão.
O alerta para buscar atendimento hospitalar surge quando a pessoa não consegue sequer ingerir líquidos sem vomitar, apresenta febre persistente ou observa a presença de sangue nas fezes. Crianças pequenas e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis e exigem atenção redobrada.
— Sintomas leves costumam ser controlados com a adoção de uma dieta branda. Quando o quadro evolui para febre, dor abdominal intensa, vômitos e diarreia, já caracterizamos a gastroenterite. Não existe medicação capaz de prevenir a diarreia infecciosa; por isso, manter-se hidratado e bem nutrido é a principal forma de proteger o sistema intestinal — ressalta.

O que priorizar no cardápio do verão
Além de reforçar a ingestão de líquidos, o verão exige atenção especial à alimentação. As altas temperaturas interferem no funcionamento do intestino e favorecem a proliferação de bactérias, o que torna a escolha dos alimentos e o modo de preparo fatores decisivos para uma boa digestão e para a prevenção de desconfortos gastrointestinais. O médico Augusto Mantovani reuniu algumas orientações.
- Prefira carnes mais leves e de fácil digestão, como peixes e frango
- Reduza o consumo de carnes vermelhas e cortes mais gordurosos, que dificultam a digestão
- Evite o excesso de álcool, já que ele aumenta a permeabilidade do intestino e o torna mais suscetível a infecções
- Tenha cuidado no preparo do feijão, evitando o acréscimo de gorduras como linguiça, bacon ou carnes muito gordas
- Aposte em alimentos ricos em fibras solúveis, como manga, laranja e mamão, que ajudam a hidratar o intestino
- Inclua na alimentação iogurtes com lactobacilos — bactérias que equilibram o intestino — desde que não haja intolerância à lactose





