
A doação de órgãos salva vidas todos os dias. O ato de doar órgãos, tecidos ou células para quem precisa de um transplante pode ajudar muitas pessoas quando o doador é falecido e o procedimento é autorizado pela família. Em casos de morte é possível doar coração, fígado, rins, pâncreas, pulmões, pele, além dos ossos, córnea e medula óssea. Embora nobre, a doação no Brasil não acompanha a necessidade de transplantes no país.
Hoje, conforme o Ministério da Saúde, 47.034 brasileiros esperam por um órgão no país. A maioria deles, 43.620, precisa de transplante de rim, seguido de fígado (2.322) e coração (437). No Rio Grande do Sul, 1.782 pessoas aguardam por uma doação. Até o dia 5 de setembro deste ano, 6.517 transplantes foram realizados no Brasil. Destes, 505 somente no Estado. A cada ano o número de transplantes vêm crescendo, contudo, há menos doadores. Conforme a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a taxa de recusa familiar em 2024 foi de 46%.
Para o médico cirurgião cooperado da Unimed Porto Alegre Marcelo Hartmann, a recusa familiar é um dos maiores desafios para reverter esse cenário. Na maioria das vezes, essa dificuldade passa pela falta de informação adequada.
— Por isso campanhas de conscientização são essenciais, como o Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos, no dia 27 de setembro. Também enfatizamos a importância das pessoas manifestarem seu desejo de serem doadoras em vida e discutir isso com a família. Pela nossa legislação, a autorização deve ser dada por um parente legalmente responsável, ou seja, mesmo que se tenha deixado o desejo registrado, a decisão final cabe aos familiares. Por isso o diálogo em casa é fundamental.
Doador vivo e falecido
Existem dois tipos de doação, a realizada com o doador vivo ou falecido. Em ambos os casos, quem determina a aptidão para a doação é um médico responsável. O doador vivo é aquele que, por livre e espontânea vontade, decide doar um órgão ou tecido. Pela lei, esse tipo de doação só acontece entre parentes de até quarto grau e cônjuges. Com autorização judicial, é possível doar para alguém fora do círculo familiar.
Nesse cenário, é possível doar um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão ou parte da medula óssea. Hartmann explica que a doação de rins costuma ser a mais comum em vida e que a cirurgia é feita por videolaparoscopia, uma técnica minimamente invasiva que causa menos dor.
— Há muitas vantagens na doação em vida. A mais significativa é que ela encurta o tempo de espera do receptor na fila de transplantes. Além disso, o órgão de um doador vivo costuma ter mais tempo de circulação sanguínea, o que melhora seu funcionamento inicial. A compatibilidade também é maior e o órgão costuma ter uma sobrevida mais longa.
No entanto, o médico ressalta que é mais comum no Brasil a doação feita depois do falecimento. Em casos de morte encefálica é possível doar coração, pulmões, fígado, pâncreas, rins, córnea e tecidos. Já se a morte foi causada por parada cardiorrespiratória, é possível doar apenas tecidos, como córnea e tendões, pele e ossos.
— Dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) indicam que dos 4,8 mil transplantes realizados no Brasil no primeiro semestre de 2025, apenas 477 foram de doadores vivos. Os outros 4.349 vieram de falecidos — detalha Hartmann.
Avaliação médica
Para ser um doador após a morte, os principais critérios, conforme o especialista, são a confirmação da morte encefálica, autorização familiar e condição física saudável
— Idade e condições de saúde específicas são avaliadas pela equipe técnica, o que nos permite aproveitar mais órgãos. Uma pessoa mais velha pode não ter condições para doar um pulmão ou coração, mas seus rins ou córneas podem ser doados — finaliza.
Sistema organizado
O Sistema Nacional de Transplantes (SNT) é o responsável por estruturar, coordenar, normatizar e monitorar a realização de transplantes de órgãos, tecidos e células no Brasil. O principal objetivo é garantir que os transplantes sejam realizados de forma ética, segura e transparente, respeitando os princípios do SUS (Sistema Único de Saúde), que financia cerca de 86% dos transplantes de órgãos no país.
O SNT atua para garantir a transparência e igualdade no processo de doação por meio do monitoramento da lista única de espera, que é constituída pelos potenciais receptores, inscritos para o recebimento de cada tipo de órgão, tecido ou célula. O sistema é organizado por estado ou região, impossibilitando que uma pessoa conste em mais de uma lista. Isso permite que a ordem legal dos transplantes seja obedecida.
Vida mudada pelo transplante

Clarissa Auler sempre foi uma mulher ativa. Formada em Direito, e fazendo uma transição de carreira para Moda, descobriu uma insuficiência cardíaca aos 39 anos. O alerta veio com sintomas de cansaço extremo e inchaço. Para tratar a doença, passou por internações e tratamentos intensivos, resultando na perda significativa de peso e massa muscular.
— Fiquei muito debilitada, não caminhava direito. De agosto de 2018 a janeiro de 2019, saí de uma mulher viva e saudável para uma pessoa que não caminhava direito, que não conseguia fazer mais nada. E com medo do que aconteceria com a minha vida — recorda.
O tratamento seguiu com a implantação no coração de um ressincronizador, dispositivo que atua na sincronização das contrações cardíacas. O procedimento ajudou Clarissa a ter uma vida melhor. Em março daquele ano, a médica que a acompanhava falou pela primeira vez sobre o transplante de coração. A designer de moda acredita que esse momento é extremamente delicado, e que se o profissional de saúde não souber como conversar com o paciente, a situação pode ser ainda mais difícil.
— Em agosto daquele ano eu fui transplantada, o que considero um verdadeiro renascimento. É essencial falar sobre isso para mostrar como a medicina evoluiu e como a decisão de uma família, mesmo em um momento de dor, pode salvar a vida de um desconhecido. Sou grata pela minha vida e por todas as pessoas que me ajudaram, desde a equipe médica até amigos transplantados. A vida pós-transplante exige cuidados, mas vale a pena.
Momento de esperança
Para pessoas que estão passando por uma fase de pré-transplante e estão com dúvidas ou receios, Clarissa recomenda que cada paciente pare, olhe para si, e entenda seus limites. Cada processo é diferente e, para ela, o importante é se abraçar a fé, independente de qual seja.
— Se você acredita em Deus ou não, abrace a sua fé na medicina. Não perca a esperança, porque esse momento é passageiro. Vai ficar na lembrança como uma experiência difícil, mas é fantástica a oportunidade de dar a volta por cima. Depois será possível contar essa história, que é tão grandiosa, o "fantástico mundo dos transplantados", como gosto de dizer — completa.
Após o transplante, Clarissa conquistou em 2023 o primeiro lugar PCD no circuito de natação Rainha do Mar Open500m. Seu sonho é participar na modalidade dos Jogos Mundiais dos Transplantados em 2027. Hoje, produz peças autorais de crochê e mantém os exercícios físicos em dia.



