Entrevista

"A possibilidade de dobrar até o final do ano passa a ser real", afirma Miguel Nicolelis sobre mortes por coronavírus no país

Processo de interiorização contribui para o aumento do número de óbitos no país, acredita cientista. Brasil tem hoje cerca de 91 mil casos

O coordenador voluntário do Comitê Científico do Nordeste, Miguel Nicolelis, afirmou, nesta sexta-feira (31) que, por conta do processo de interiorização, há a possibilidade de o Brasil chegar ao fim do ano com cerca de 200 mil mortes por coronavírus. Em entrevista ao Timeline, ele afirmou que o comitê começou a estudar a transmissão do vírus através das rodovias ainda em março. Um efeito nomeado por Nicolelis de bumerangue, que faz com que haja uma sobrecarga no sistema de saúde das capitais, poderá ser visto em todo o país, inclusive no RS.

— Aí no Rio Grande do Sul vocês provavelmente vão começar a experimentar muito breve, que é primeiro a interiorização (do avanço do coronavírus), mas depois a volta para as capitais, que tem mais recursos médicos, mais leitos de UTI por exemplo, de casos graves que não tem como ser tratados no Interior e retornam às capitais. Isso leva a uma sobrecarga secundária do sistema de saúde — afirmou.

O cientista lembrou que a maior tragédia humana do país, fora o genocídio indígena e a escravidão, foi durante a Guera do Paraguai, que em seis anos fez 50 mil vítimas no Exército e entre 10 mil a 15 mil civis. 

— Em seis meses, nós estamos cruzando praticamente o dobro das perdas humanas daquela guerra. Então, acho que é um momento de todo brasileiro, na minha modesta opinião, refletir sobre o que isso significa. Um país perder 100 mil brasileiros e brasileiras (o país tem nesta sexta-feira 91,2 mil mortes, podendo atingir 100 mil nos próximos dias)? É uma coisa assim que nunca imaginei passar, mas eu acho que o Brasil ainda não se deu conta, não caiu a ficha aqui no Brasil do que isso implica. Do que a história vai contar sobre esse momento — disse.

Ele ainda afirmou que nunca imaginou, quando viu a situação da China em janeiro, que estaria falando sobre o potencial recorde de cem mil óbitos no Brasil. Ressaltou que "é como ter uma bola de neve descendo uma montanha", e não há como brecar a média de mil, 1,2 mil óbitos por dia.

— O pior de tudo é que a possibilidade desse número (cem mil mortos) dobrar até o final do ano passa a ser real daqui para a frente. Ela é uma possibilidade remota, mas passa a ser absolutamente real — disse. — A interiorização do vírus, se já está sendo absolutamente definitiva nesse momento, vai criar um número de fatalidades muito grande — acrescentou.

Ouça, abaixo, a entrevista completa

Transmissão do vírus e malha rodoviária

Nicolelis lembrou que o vírus entrou no Brasil a partir dos aeroportos internacionais. Para ele, a região sul teve um retardo de casos não apenas pela falta do tráfego de aviões vindo do Exterior, mas também pela malha rodoviária, que tem um fluxo diferente daquele encontrado em outras partes do país.

— Poucos lugares no Brasil se deram conta que as rodovias brasileiras são as grandes artérias de espalhamento do vírus para o Interior. Então, todo o processo de interiorização que ocorreu no Brasil se deu através da malha rodoviária brasileira — afirmou.

Ele apontou como erros o fato do país ter mantido o espaço aéreo brasileiro aberto durante março inteiro, uma vez que continuamos a receber pessoas que voltavam da Europa e Estados Unidos, aumentando o fluxo de infecção no país. Contudo, também alertou para a necessidade de regular as rodovias.

— A entrada claramente no Brasil foi pelos aeroportos internacionais, então, os Estados que tem maior fluxo de voo (...), a semeadura do vírus veio por essas portas. Depois, ele se espalhou pela malha rodoviária — explicou.

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— Tem outro fator complicador, que é o inverno (no caso do Rio Grande do Sul). No momento em que o inverno foi chegando na região sul, teve esse delay de pessoas que chegaram do exterior e o delay provocado pela malha rodoviária. Tudo confluiu na época do inverno. E é por isso que, entre outros fatores, a gente está vendo essa subida (de casos) agora na região sul — disse.

O cientista ressaltou que havia falado, em outra ocasião, de um eixo rodoviário identificado na análise de risco do Comitê para chegar à região sul. O trajeto saía do oeste de São Paulo e passava por Paraná, Santa Catarina, entrava no Rio Grande do Sul e vinha por Caxias até Porto Alegre. 

— Hoje eu tava olhando o mapa da região sul, com a distribuição de casos, e eu consegui reconstruir esse eixo rodoviário só olhando as cidades que estão com um número alto de casos. Caxias, Passo Fundo (... essas cidades) fazem parte dessas rodovias que conectam a região sudeste com a região sul, além das duas grandes artérias que são a BR-101 e a BR-116. — contou.

Solução à vista

Questionado sobre qual seria a solução, ele deu o exemplo do que foi feito na Paraíba. Além do lockdown que foi realizado na Região Metropolitana de João Pessoa, barreiras sanitárias foram colocadas nas principais rodovias que levavam à cidade. Nesses locais, motoristas eram testados e tinham sua temperatura medida.

— A gente sugeriu inclusive, o que ainda não foi feito, mas se a situação se complique em algum local (...), propusemos a potencial execução de rodízios. Durante alguns dias da semana, bloquear ônibus intermunicipais, e isso foi feito na Bahia inteira, foi feito no Alagoas, foi feito em Pernambuco, mas também fazer isso com veículos particulares para reduzir o tráfego para interior das capitais e vice-versa — afirmou.

De acordo com o cientista, a medida é efetiva pois você quebra a transmissão do vírus.

— Você não consegue fazer isso num hospital, num leito de UTI. Você tem que ter os leitos de UTI para as pessoas. (...) mas a maneira mais decisiva de combater uma pandemia é você quebrar a transmissão ou na casa das pessoas, nas vizinhanças, ou impedindo que pessoas que são infectadas viajem e levem o vírus para outras localidades que não tem casos. Ou que tem, mas podem piorar com mais casos — disse.

Avaliação sobre o modelo federal

O cientista avaliou a gestão federal no combate à pandemia como ruim. Afirmou que, embora tenha tristeza em dizer isso, dentro de sua profissão não pode "se furtar a dizer a verdade".

—  O consenso mundial da comunidade científica a que eu pertenço é que o Brasil teve erros crassos. O governo federal falhou em quase tudo. É muito difícil dizer no que o governo federal conseguiu acertar — afirmou.

Dentre as falhas citadas pelo cientista, estão: a minimização da gravidade da pandemia, a falta de preparo para a crise, o governo não ter ido ao mercado internacional e comprado reservas de medicamento, não fechar o espaço aéreo, permitir que o Carnaval acontecesse e não passar uma "mensagem clara, transparente e objetiva de alerta para todo o Brasil da gravidade do que estava por vir".

— Isso é um estado de guerra. Nós estamos em uma guerra biológica. Você tem que ter  um estado de guerra, tem que ter um comando central para decidir estratégias para combater numa guerra. E infelizmente isso não foi feito no Brasil, e estamos pagando um preço muito trágico por isso — disse.

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