Sob controle?

Medidas do governo ou ciclo do coronavírus: especialistas analisam queda do contágio na China

Registros de novos casos têm se estabilizado no país asiático, onde a epidemia da doença surgiu

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Uso de máscara em Pequim: país teria estabilizado contaminações pela doença

Na contramão do restante do mundo, que vê os números de coronavírus crescerem dia após dia, a China tem registrado uma certa estabilidade nos casos da doença. Para se ter uma ideia, em 23 de fevereiro, a China contabilizava 76,9 mil casos de coronavírus, conforme informações do mapa desenvolvido pelo Center for Systems Science and Engineering (CSSE) da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos. O restante dos países somava 2 mil. Uma semana depois, em 1º de março, os números chineses chegavam a 79,8 mil, enquanto os outros países atingiam a marca de 8,5 mil registros, um aumento de 76,5% versus 3,6% da China. Por trás dessa derrocada nos registros, uma série de perguntas ainda não tem respostas: seria isso reflexo das medidas do governo chinês ou apenas o comportamento do vírus? A China pode ter novo aumento nos registros ou não?

Como a situação envolvendo o vírus é considerada nova, todas as respostas transitam no terreno das hipóteses, afirma o consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Wladmir Queiroz, professor da Faculdade de Ciências Médicas de Santos. No entanto, a queda nos casos na China, país onde surgiram os primeiros registros da doença, é "muito positiva", diz o médico.

Fabio Gaudenzi, presidente da Sociedade Catarinense de Infectologia, acredita que as respostas para todas as dúvidas envolvendo a doença só devem ser respondidas no período pós-epidemia.

— É um grande problema quando você lida com novos vírus. Muito do que a gente pode discutir é baseado no conhecimento prévio de outras doenças. Uma das respostas é: tudo é muito novo. Não sabemos se as medidas chinesas levaram à redução da circulação ou se tem relação com as características do próprio vírus. Outros agentes do grupo dos coronavírus diminuíram com o passar do tempo sem medidas específicas — afirma.

Hipóteses sobre a redução

Apesar das poucas respostas, há uma série de hipóteses possíveis para compreender a queda nos números chineses. Uma delas, diz Queiroz, é que, depois de entrar em contato com o vírus, as populações afetadas fiquem saturadas e desenvolvam imunidade. O diretor da SBI Marcos Cyrillo também elenca outros fatores:

— Pode ser o ciclo do vírus, mas isso leva mais tempo para sabermos. Pode ser que os casos não estejam sendo notificados (na China). Ou então, há chance de que as pessoas tenham quadros mais leves que as afastem dos hospitais. Mas também pode ser o conjunto da obra das medidas sanitárias adotadas. É prematuro dizer que está melhorando. Precisamos esperar e ver a repercussão no resto do mundo.

Embora ainda bastante comparado ao Influenza, os especialistas não conseguem definir as características específicas do coronavírus e sequer se ele terá novas ondas ou não (isto é, se vai voltar a afetar populações já atingidas pela doença.).

— A velocidade das mutações nos vírus é rápida. Pode favorecê-los ou prejudicá-los. Ele pode perder a capacidade de causar doença e desaparecer, que é o que acontece quando um vírus é mal adaptado ao ser humano. Mas não é o que parece ser o caso deste coronavírus — aponta Gaudenzi.

— A gente conhece pouco do potencial do coronavírus. A última pandemia de H1N1 não teve uma segunda onda, como era esperado. As coisas não são tão matemáticas assim — completa Queiroz.

Medidas chinesas são questionadas

Gaudenzi explica que, via de regra, algumas das ações tomadas pelo governo chinês, como a de isolar em quarentena uma cidade inteira, não são recomendadas por organismos internacionais como forma de conter vírus respiratórios. Isso porque, geralmente, a transmissão para outras pessoas ocorre antes mesmo de aparecerem os primeiros sintomas:

— É o que acontece com o Influenza, que antes dos primeiros sinais já está sendo transmitido. Virtualmente, é impossível conter (vírus respiratórios) porque não conseguimos separar as pessoas que têm das que não têm a doença.

Mapa do coronavírus

Acompanhe a evolução dos casos por meio da ferramenta criada pela Universidade Johns Hopkins:

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Na tentativa de conter a disseminação do vírus, a Itália anunciou, nesta quarta-feira (4), que a partir de quinta-feira (5) as aulas seriam suspensas em escolas e universidades de todo o país. Na avaliação de Queiroz, essas ações, embora tenham um preço social muito alto, podem até ajudar. No entanto, precisam ser seguidas à risca para ter validade.

— Sem dúvida é uma medida agressiva. Ela até poderia ser válida se cumprida à risca. Aqui em São Paulo, quando houve suspensão das aulas em função do H1N1, os shoppings e os cinemas ficaram cheios — exemplifica, situação que serviria apenas para amplificar a disseminação da doença.

Cyrillo acrescenta que o melhor a se fazer, além de reforçar as ações educativas, é isolar apenas os doentes ou quem teve contato com eles:

— Isolar uma cidade toda é complicado. Não é viável.

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