Cuidado com o coração

É hora dos "atletas de verão" saírem às ruas, mas prática traz riscos, alertam médicos

Para começar uma atividade física é recomendável fazer uma avaliação prévia

A combinação verão e férias permite trocar o escritório pela liberdade de correr e jogar bola na praia, fazer caminhadas à beira-mar ou se exercitar em parques. Praticar atividades físicas sem preparo ou sem conhecimento sobre a saúde do coração, contudo, pode trazer riscos — e, em casos extremos, até levar à morte.

Para começar ou recomeçar uma atividade física é recomendável procurar um médico e fazer uma avaliação, especialmente se o exercício for de alto impacto. A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo divulgou na última semana um alerta sobre os riscos a que os "atletas de verão" estão sujeitos.

Segundo a entidade, ataque cardíaco fulminante é a principal causa de morte durante as atividades físicas. Se o indivíduo tiver mais de 35 anos ou histórico de doença cardíaca na família, os cuidados devem ser redobrados, porque as chances de morte súbita são maiores.

O infarto pode ocorrer em qualquer idade, mas idosos têm chance maior de sobrevivência porque, com o passar da idade, surgem vasos colaterais que irrigam o coração e ajudam a salvar um paciente após parada cardíaca.

— Hoje as pessoas vivem mais, mas também são mais sedentárias, não têm tempo para o exercício e se alimentam mal. A combinação de sedentarismo com falta de tempo e alimentação inadequada resulta em excesso de peso. Aí vêm as promessas milagrosas de final de ano. De uma hora para a outra, a pessoa resolve praticar esporte sem saber como está a pressão, a glicemia e o coração — afirma o presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, José Francisco Kerr Saraiva.

— Quando você começa a se exercitar, a pressão sobe, porque o coração é requisitado para uma demanda maior de sangue. O resultado pode ser a morte — diz o médico. Foi o que ocorreu com o humorista Bussunda, que morreu na Alemanha, durante a Copa do Mundo de Futebol de 2006, após uma partida de futebol com amigos.

A editora de livros Luciana Pereira dos Santos Cunha, 49 anos, de Petrópolis (RJ), é a típica atleta de verão. Há dois anos, é adepta da corrida e caminhada seis vezes por semana, uma hora e 20 minutos por dia, mas não o ano inteiro.

— No outono e no inverno não faço exercícios, porque aqui é muito frio. Volto na primavera, quando o tempo começa a ficar mais quente — diz Luciana, que recomeçou as atividades físicas há 15 dias.

O empresário Tom Borges, 48 anos, de Santa Rita do Passa Quatro (a 248 quilômetros de São Paulo), também admite que é no verão que se dedica mais aos exercícios.

— Sou o praticante de verão. Com a minha agenda de trabalho complicada, deixo os exercícios de lado. Quando volto, opto por correr na esteira, durante 40 minutos, com intensidade alta. Sei que é prejudicial, mas conheço meu corpo — diz.

Além do coração, o resto do corpo também sofre com o excesso repentino de exercícios sem orientação de um profissional.

— Há uma sobrecarga das articulações, porque o corpo não está acostumado com o exercício realizado. Existe o risco de lesões musculares, por falta de flexibilidade e coordenação motora, e aumentam as chances de lesões de ligamento de joelhos e ombros — diz Karina Hatano, médica com mestrado em medicina do exercício e do esporte.

Durante o treino, de acordo com os especialistas, é preciso se hidratar e repor os sais. Se a atividade física durar até uma hora, com pequena e média intensidade, basta beber água. Caso seja longa e intensa, é recomendável acrescentar isotônico ou água de coco.

Ao final, é preciso repor a energia e a proteína. A quantidade depende da intensidade, do tempo de treino, do índice de gordura e da massa muscular. Um nutricionista pode indicar o cardápio ideal para cada um.

— As pessoas acham que podem correr e fazer musculação de uma hora para a outra. É imprescindível fazer uma avaliação médica, evitar bebida alcoólica, parar de fumar, dormir bem e adotar hábitos e alimentação saudáveis — afirma Murilo Alves, personal trainer.

Para Alves, o ideal é começar com caminhadas leves três vezes na semana, aumentando progressivamente tempo e intensidade. Se a opção for pela musculação, treinar em dias alternados, com cargas leves e exercícios de adaptação muscular e cardíaca.

— A dor não é indício de bons resultados, como muitos pensam, mas que você fez algo errado ou exagerou nas atividades.

Bom senso é um ótimo parceiro do esporte, de acordo com os especialistas consultados.

— Não vou dizer que é preciso consultar um médico toda vez que atravessar a avenida Paulista, mas é importante procurar um médico antes de iniciar até mesmo uma caminhada. O médico do posto de saúde pode avaliar — explica Saraiva.

Cuidados ao praticar atividade física

Alimentação

Adote uma dieta baseada em vitaminas, minerais e nos grandes nutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras). Exemplos de cardápio:

Dicas para iniciar atividade física corretamente

Fontes: Sociedade Brasileira de Cardiologia, Assessoria Personal 360 e Instituto Cohen de Ortopedia, Reabilitação e Medicina do Esporte.

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