Se o desenvolvimento florestal gera empregos, renda e competitividade à indústria, o plantio de pomares nativos proporciona alimento à fauna e difunde conhecimento sobre as espécies para a população local. Além disso, pode servir como opção de alimentação saudável e gratuita.
Em Porto Alegre, o projeto Pomares Nativos existe desde janeiro de 2025, com o plantio de espécies frutíferas, resilientes e adaptadas à cidade. Por enquanto, cinco praças e um canteiro central já foram contemplados. No próximo ano, a previsão é que as praças John Houlding, no bairro Passo das Pedras, e Júlio Pereira Nunes, na Restinga, também recebam pomares.
— Nós avaliamos e monitoramos as praças para ver os locais onde podemos implantar o projeto. E selecionamos as espécies de acordo com as características daquela região. Se é um lugar que tem o solo mais encharcado, temos que plantar espécies que são adaptadas para aquele local — explica a engenheira agrônoma Tâmara Acosta, da Equipe de Planejamento e Implantação da Arborização (Epiarb) da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus).
A ação também envolve trabalhadores de viveiros onde os vegetais são criados e empresas contratadas para o plantio e para o serviço de zeladoria. A Progaia Engenharia e Meio Ambiente é a responsável por plantar as mudas nos logradouros da Capital, enquanto a Athena Construção e Paisagismo faz o acompanhamento da adubação, das fitas e estacas de amarração.
Até o começo de setembro, 88 mudas haviam sido plantadas. Foram utilizadas 15 espécies de árvores frutíferas no projeto (confira quais são os vegetais na arte abaixo).
— Preferencialmente, tentamos usar espécies coletadas de matrizes do Viveiro Municipal. Algumas vezes, em função de indisponibilidade de variedade de espécies, adquirimos de estabelecimentos comerciais também — destaca a engenheira agrônoma.
São 3,5 mil mudas plantadas por ano na cidade, segundo a Smamus. Dessas, 1,5 mil são originárias do Viveiro Municipal, enquanto as demais são de estabelecimentos comerciais. Localizado na Lomba do Pinheiro, no meio de uma Unidade de Conservação (UC), o viveiro ocupa área de 3,5 hectares e cultiva espécies variadas.
Antes da criação de pomares nativos, as praças passaram por qualificações paisagísticas:
— Essas qualificações serviram para incrementar mais a arborização, preferencialmente as nativas de Porto Alegre. Em 2025, pensamos em fazer pomares com frutas nativas — conta a bióloga Bibiana Cassol, integrante da equipe, sobre o início do projeto.
Árvores frutíferas para a comunidade
Na terça-feira (8), a reportagem de Zero Hora acompanhou o plantio na Praça Eloar Guazzelli, no bairro Hípica. O local, de solo mais encharcado, já estava com seis mudas plantadas. Na ocasião, recebeu mais oito vegetais.
Conforme a bióloga Franciely Ramos, da empresa que realiza o plantio, as mudas têm em torno de 2,2 metros de altura. Ela fala sobre os tipos:
— No pomar, a gente foca em árvores nativas frutíferas, que são supergostosas, mas não são conhecidas do público. As pessoas não estão familiarizadas com elas. Não é uma fruta que tem no mercado.
A reportagem também conferiu como está o pomar recém-plantado da Praça Dante de Laytano, no mesmo bairro. Situado perto de um campo de futebol e de uma academia ao ar livre, o espaço conta com 10 exemplares, como goiabeira, cerejeira e araçá-amarelo.
Além de reflorestar áreas urbanas e colaborar com a fauna e o meio ambiente, as árvores frutíferas podem ser utilizadas para a alimentação. O projeto de plantio integra o Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Plamsan), que tem como meta implantar três pomares nativos anualmente, até 2029.

Tâmara Acosta reflete sobre o que representa o projeto:
— Trata de reaproveitamento, compostagem, economia circular e uso sustentável de recursos naturais. Muitas vezes, as pessoas conhecem a laranjeira e a bergamoteira como uma frutífera para consumo, mas não conhecem as nossas nativas. Temos um potencial muito grande com elas.
Em tempos de aquecimento global e de ilhas de calor nas grandes cidades, o plantio de árvores frutíferas pode contribuir com o meio ambiente e ainda popularizar o conhecimento das pessoas sobre as espécies nativas.
— As pessoas têm que perceber que existe um potencial imenso nas nossas árvores nativas. Porém, as pessoas não reconhecem elas como frutíferas. Estamos tentando mudar o pensamento das pessoas para reconhecer o potencial das nossas nativas — conclui Tâmara.
O coordenador de Arborização da Smamus, Diogo Del Ré, reforça a questão de valorizar as árvores frutíferas do Estado:
— Quando a gente fala em frutíferas não são somente as que temos no mercado. Temos muitas espécies nativas do Rio Grande do Sul que valorizam muito o nosso ambiente, qualificam os espaços públicos e trazem frutos que a maioria das pessoas não conhecem.
Saiba mais sobre arborização
Em 2024, a prefeitura contratou uma empresa para catalogar as árvores de Porto Alegre. Desde então, uma ferramenta realiza o mapeamento e o diagnóstico das plantas adultas existentes nos logradouros públicos, com capacidade para indicar a necessidade de extração de espécimes em casos de doença ou risco de queda.
O cadastro possibilita que a prefeitura tenha dados mais precisos sobre as árvores na Capital e possa planejar políticas públicas. Dessa forma, informações como altura, espessura, inclinações, posição em relação à via e outros indicadores botânicos são coletados com o auxílio da plataforma.
Segundo a Smamus, o inventário já cadastrou 69.617 espécimes arbóreas. Dessas, 64 mil estão em idade adulta.
No ano passado, Porto Alegre foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pela Fundação Dia da Árvore (The Arbor Day Foundation) com o prêmio Cidades Globais das Árvores (Tree Cities of the World). A certificação, que é anual, foi concedida a 210 cidades de 24 países.
Os municípios premiados necessitam cumprir cinco requisitos:
- estabelecer responsabilidades por parte do município
- leis e políticas públicas de gestão arbórea
- revitalização
- alocação de recursos
- conscientização dos moradores
Para quem deseja acompanhar a arborização na cidade, a prefeitura tem uma plataforma de monitoramento de plantio de árvores. O painel elenca a área de cobertura arbórea de cada bairro. A ferramenta também oferece orientações sobre cuidados, como solicitar mudas e fiscalizar os serviços.
— As coberturas maiores têm um efeito na regulação climática mais amplo, distribuição solar mais importante porque conseguem abafar o som melhor e capturam poluentes. A cobertura de copa é o que de fato vai refletir a arborização urbana na cidade — ensina o coordenador de Arborização da Smamus.
Dados sobre a cobertura de copa por bairros
- Porto Alegre apresenta 43% de sua área total coberta por vegetação arbórea
- Se apenas a zona urbana for considerada (retirando-se a macrozona Cidade Rururbana e o Parque Estadual Delta do Jacuí), a cobertura de copa é de 29%
- O bairro Sétimo Céu possui 81% de cobertura e lidera a relação
- O bairro Navegantes, com apenas 4,6%, ocupa o último lugar. Trata-se de uma das regiões mais impactadas pela enchente de 2024
- O Centro Histórico possui 8,9% da área de cobertura de copa





