
Dois anos após a interdição do templo da Nova Ordem de Lúcifer na Terra (N.O.L.T.) em Gravataí, na Região Metropolitana, o espaço onde foi instalada a estátua de Lúcifer continua sem autorização para funcionar.
O terreno tem cinco hectares de área aberta na zona rural da cidade. Já o monumento que representa Lúcifer tem cinco metros de altura (contando com o pedestal), pesa uma tonelada e custou R$ 35 mil, pagos por integrantes da ordem.
Mestre Lukas de Bará da Rua afirma que a estátua deve contar com uma iluminação especial caso seja inaugurada.
A imagem de Lúcifer foi produzida em cimento por um ateliê e, segundo o religioso, retrata a dualidade do homem humano e do esqueleto, com pés e asas, representando o espírito da divindade. Mestre Lukas afirma ter sonhado com a imagem para concebê-la. O projeto contou com o apoio de um engenheiro.
— Para nós, é algo sagrado. Eu tenho uma história de 21 anos dentro da religião. A gente tem feito um trabalho de conscientização, para demonstrar a força que a nossa religião tem — comenta.
Apesar de uma decisão judicial ter determinado a reabertura do processo administrativo, a concessão do alvará para funcionamento do templo ainda depende da apresentação de novos documentos exigidos pela prefeitura.
Quem realizar atividades no espaço interditado, situado a cerca de 15 km da área urbana, pode receber multa diária de R$ 50 mil.
Entraves com a prefeitura
A interdição ocorreu em agosto de 2024, quando a inauguração do templo foi impedida por falta de licença. Desde então, o caso se transformou em uma disputa administrativa e judicial entre o grupo religioso e o município.
A batalha pelo funcionamento do templo ocorre em duas frentes. Na Justiça, o mandado de segurança movido pelos representantes do grupo religioso foi remetido ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em junho de 2026.
Já no âmbito administrativo, a prefeitura reabriu a análise do pedido de alvará e passou a exigir novos documentos para dar continuidade ao processo.
No entanto, a Justiça entendeu que o processo deveria voltar a ser analisado na esfera administrativa. A decisão não concedeu automaticamente a licença de funcionamento.
Segundo Mestre Lukas, durante a vistoria da prefeitura de Gravataí, foi apontada a necessidade de um novo estudo de viabilidade e de outros documentos para dar continuidade ao pedido de licença.
Novas exigências

A Prefeitura de Gravataí informou que, para dar prosseguimento à análise interna do pedido de alvará, solicitou uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) referente à estátua instalada no local.
— Nós já estamos com o engenheiro verificando essa documentação agora e vamos levar adiante — ressalta Mestre Lukas.
Ele sustenta que essas exigências não haviam sido feitas quando o pedido original foi protocolado.
— Se eles tivessem solicitado isso há dois anos atrás, a gente já tinha entregue. Mas, na primeira viabilidade, não pediram nada disso — declara.
Segundo a prefeitura, a apresentação da análise técnica da estrutura é necessária para que o processo siga tramitando até a decisão sobre a concessão do alvará.
O município também explicou que os responsáveis pelo espaço apresentaram dois pedidos distintos de licenciamento para o local. O primeiro buscava o enquadramento como religião de matriz africana. Posteriormente, foi protocolado um novo pedido para enquadramento como templo religioso, enquanto o requerimento anterior ainda permanecia em tramitação.
Segundo Mestre Lukas, primeiro, o grupo tentou enquadrar o templo como "povo de terreiro". Depois, como instituição. Ambos os pedidos foram inicialmente negados.
Repercussão e ameaças
Em conversa com o g1 em dezembro de 2025, Mestre Lukas afirmou que a negativa da prefeitura não é apenas burocrática e que o caso se tornou "perseguição religiosa".
— Estamos no Brasil, e o Estado é laico. Então, nós temos a liberdade de culto. E nós não temos verba pública aqui. É um espaço privado. Nós trabalhamos, nos dedicamos, investimos pra ter o nosso espaço. Não é um espaço aberto ao público — desabafa.
Na época, a reportagem entrou em contato com a prefeitura, que não se manifestou.
Na ocasião da interdição do espaço, a polêmica ganhou repercussão nacional. No início, segundo Mestre Lukas, houve muita intolerância: o grupo recebeu ameaças de morte, mensagens dizendo que iriam botar fogo no local e até cortar-lhes os pescoços.
No entanto, com o tempo, os ataques diminuíram e surgiram mensagens de apoio:
— A prefeitura acha que está nos atrapalhando e pelo contrário: está nos dando espaço para falar sobre a nossa ordem, a nossa visão sobre Lúcifer. E hoje nós temos muito mais adeptos do que tínhamos no passado, mais pessoas se aproximaram — comenta.
Atualmente, o noltismo conta com, aproximadamente, 250 pessoas no Brasil, de acordo com Mestre Lukas.
Para a ordem, Lúcifer não é um demônio, mas um símbolo de conhecimento.
— Ele é o portador da luz. Queremos estudar, conhecer mais. Esse espaço na natureza foi pensado para isso — explica Lukas.
Noltismo
A Nova Ordem de Lúcifer na Terra (N.O.L.T.) foi oficializada pelos fundadores do templo em 2024.
De acordo com Mestre Lukas de Bará da Rua, o noltismo tem dogmas próprios, prega o culto aos demônios e uma nova interpretação da espiritualidade luciferiana.
Os seguidores são chamados de noltistas ou daimomantes, termo derivado da união entre daimon (entidade espiritual interior) e amantia (estado de entrega ritual), explica Lukas.
— O noltismo não é apenas mais um movimento. É agora uma religião e uma casa simbólica para os que caminham com o Lúcifer vivo. E todos estarão convidados a entrar — afirma o religioso.
Apesar de estar associado ao diabo e ao "mal" no cristianismo, o nome de Lúcifer é, para os noltistas, uma "manifestação simbólica de transformação, conhecimento e libertação", conforme Mestre Lukas.
Quem é Mestre Lukas
Natural de Gravataí, Mestre Lukas de Bará da Rua é um mestre de quimbanda independente e trabalha com cartas e búzios negros. Em maio do último ano, o religioso atuou na criação de um monumento dedicado a Exu no município.
Lukas conta que decidiu fundar a ordem para poder trabalhar com as figuras de demônios.
— A gente resolveu tratar fora da casa (de quimbanda) porque existe um preconceito muito grande quando se fala de demônios — diz.



