A fachada verde e branca do tradicional casarão da Brigada Militar localizado na Rua Dezessete de Junho, em Porto Alegre, ficou em parte coberta por tapumes de metal nesta semana. Máquinas ingressaram no terreno e iniciaram a demolição do 1º Batalhão de Polícia Militar (1º BPM), conhecido como "Batalhão de Ferro".
O prédio, localizado entre a Dezessete de Junho e as avenidas Ipiranga e Praia de Belas, no bairro Praia de Belas, será substituído pelo novo edifício da corporação. Da construção atual, restará apenas a fachada principal, erguida na década de 1920. Nenhuma parte da construção é tombada.
O projeto prevê a construção de uma torre de três andares. O investimento estimado é de R$ 38 milhões, custeado pelo governo do Estado e executado pela construtora Porto Beton, escolhida em leilão. O projeto foi doado pelo Instituto Cultural Floresta (ICF).
Conforme a corporação, também estão previstas reformas no telhado da parte que segue em pé. Toda a estrutura precisará passar por reparos de elétrica e hidráulica.
Segundo o tenente-coronel Eduardo Moura Mendes, que estava à frente do batalhão na época da idealização do projeto, após a conclusão das obras, o espaço preservado contará a história do batalhão.
— O espaço vai servir como um memorial do 1° BPM, reunindo fotografias históricas, cartas e objetos ligados à trajetória do batalhão desde o início do século passado — explica o tenente-coronel.
A obra deve ficar pronta em um ano e oito meses a partir do início dos trabalhos. Enquanto isso, o efetivo de cerca de 300 policiais militares está realocado para outras unidades da Brigada Militar.
Um prédio com diferentes fases
O 1º BPM é a mais antiga unidade operacional da Brigada Militar, com atuação marcante em importantes momentos da história do Rio Grande do Sul. O batalhão foi criado em 1892 como 1º Batalhão de Infantaria.
Ao longo da trajetória, a unidade teve diferentes denominações, até receber, em 1968, o nome de 1º Batalhão de Polícia Militar.
A designação "Batalhão de Ferro" surgiu em 1932, a partir de um documento específico, expedido pelo então tenente-coronel Argemiro Dornelis, comandante da vanguarda das Forças Ordinárias do Sul, durante a Revolução Constitucionalista.
O prédio foi doado ao Estado em 1932, quando passou por uma grande reforma. Desde então, nas mãos da Brigada Militar, passou por dois incêndios e pelas enchentes de 1941 e 2024.
Embora registros da Brigada Militar apontem a criação do batalhão em 1893, a fachada que será preservada é posterior. Para o arquiteto, doutor em Planejamento Urbano e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) José Daniel Craidy Simões, a edificação revela diferentes etapas construtivas ao longo de sua história.
— É fácil notar que tem várias fases de construção reunidas nessa mesma edificação. O prédio tem elementos como arcos plenos, arcos abatidos e diferentes tipos de esquadrias que indicam ampliações realizadas em períodos distintos. A fachada principal apresenta características típicas da arquitetura eclética da Primeira República e, ao menos em parte, remonta à década de 1920 — explica o arquiteto.
O pesquisador afirma que não há registros conhecidos sobre a autoria do projeto original.

Preservação parcial divide opiniões
Mesmo sem proteção legal, Simões considera que o casarão possui relevância patrimonial. Na avaliação do arquiteto, manter apenas a fachada reduz parte da capacidade do edifício de contar a própria história.
— Ele não é tombado e também não consta em inventário. Na minha avaliação, tem mérito para constar em uma dessas classificações. Quando se fragmenta uma edificação, o conhecimento dos processos históricos que aconteceram ali naturalmente é diminuído — pontua.
Mesmo assim, o especialista pondera que o interior já havia sofrido diversas modificações ao longo das décadas, inclusive em razão de incêndios.
A demolição também é contestada por moradores da região. Moradora do bairro Menino Deus, Sylvia Mignot registrou o início do trabalho do maquinário e publicou em rede social. Para ela, a preocupação é o apagamento da história do prédio.
— Na minha visão foi sucateando, caiu um telhado da estrutura junto à Avenida Ipiranga e daí falaram que estava comprometido. Claro, não fazem manutenção. A minha indignação é pelo lado histórico. Os prédios da Europa têm séculos porque não deixaram sucatear. É claro que é muito mais barato construírem, mas não acho que é por aí — pontua Sylvia.
Nova estrutura busca modernizar a unidade

Segundo a BM, a obra da nova sede do 1° BPM prevê a construção de uma estrutura voltada às necessidades atuais da corporação. O prédio terá escritórios, estruturas de acolhimento e salas de treinamento. Estão previstas, ainda, quadras esportivas e estacionamento na área. Além do acesso principal pela Avenida Ipiranga, o novo edifício terá acesso para carros na Avenida Praia de Belas.


