Um vídeo que viralizou nas redes sociais, do criador de conteúdo Giulian Serafim, trouxe uma curiosidade que muita gente não sabe sobre um dos pontos mais icônicos de Porto Alegre. O monumento Painel Recortado, instalado na Praça Dom Sebastião, que para muitos é só um bloco de concreto adornado a obras de arte, na verdade é o "pulmão" do Túnel da Conceição e funciona como uma espécie de chaminé das vias ali subterrâneas.
Apesar de imperceptível para muitos, o respiradouro do túnel está ali desde a entrega do projeto, que data de 1972. Sua função é retirar os gases emitidos pelos veículos que passam pela travessia na parte escavada da elevada. Na ocasião da sua entrega, o Túnel da Conceição foi considerado a maior obra viária da história de Porto Alegre.
A obra compõe uma trinca de projetos arquitetônicos contemporâneos da Capital. O historiador e professor Amon da Costa relembra que Telmo Thompson Flores, prefeito de Porto Alegre entre 1969 e 1975, definiu que cada grande construção teria uma arte em seu entorno. Era uma maneira de quebrar a brutalidade do concreto.
As demais são o Monumento aos Açorianos, próximo ao viaduto de mesmo nome, e o Painel Loureiro da Silva, no viaduto Loureiro da Silva, por onde passam as vias Salgado Filho e Professor Annes Dias.
— O respiradouro é desta época, e como ficou uma coisa monstruosa, agrediu a cidade esteticamente, especialmente naquele equilátero com a igreja Nossa Senhora da Conceição e a Santa Casa de Porto Alegre, aproveitou-se a ideia do Flores de a cada mega obra a prefeitura incluir um artista a embelezando — diz o historiador.
O bloco de concreto virou obra de arte. Quatro painéis em aço, de obra do artista Francisco "Xico" Stockinger, transformaram as faces da estrutura em representação do imaginário do povo e da cultura gaúcha. Os detalhes recortados representam um guerreiro, uma figura feminina, um cavaleiro mitológico e touros em combate.
A obra intitulada Homens e Touros, concluída há mais de cinco décadas pelo artista morto em 2009, foi revitalizada algumas vezes. A última delas, entregue em 2022, resolveu a oxidação das placas de aço, efeito de remoção da pintura protetiva em restauro anterior. Hoje, pichações no concreto disputam atenção com os painéis.
O historiador Amon da Costa observa que, mesmo que algumas grandes obras funcionem como pontos de referência para a localização na cidade, muitas delas não são vistas com olhos de arte, e por isso surpreendem ao se revelar:
— Muitos desses monumentos, além de contarem uma história, são marcos de navegação da cidade. Mas como a cidade ficou poluída no sentido arquitetônico, certos marcos ficaram invisíveis. Mesmo sendo um megamonumento, várias pessoas comentam que nunca tinham o percebido. E a percepção do outro ativa a curiosidade.
Construção é marco urbanístico
Inaugurado em 1972, o Túnel da Conceição estreou um marco urbanístico na Capital ao conectar pontos de grande movimento a partir de uma obra viária. O corredor subterrâneo foi construído para melhorar o trânsito, mas virou ponto de referência da cidade.
O túnel tem duas galerias, uma sobre a outra. A maior é de 241 metros de extensão, no sentido bairro-centro. O sentido contrário tem 142 metros. Fotos publicadas pelo colunista Leandro Staudt relembram como foi a construção. Nos cliques de mais de 50 anos atrás é possível ver, ao fundo das imagens, a "chaminé" que integra a obra.
