Um dos mais reconhecidos críticos de cinema do país, o intelectual Hélio Nascimento aposentou-se da atividade em março deste ano. Porém, a paixão pela sétima arte ainda o estimula a assistir aos filmes nas salas de exibição.
Aos 89 anos, o cinéfilo vive em um confortável apartamento no bairro Independência, em Porto Alegre, cidade onde nasceu. Estantes o circundam e acomodam livros de cinema, discos de vinil, CDs e DVDs. Todas as críticas de sua autoria estão guardadas.
Como colunista, marcou época no Jornal do Comércio, onde começou em 1961 e se aposentou meses atrás. Também colaborou com críticas em veículos de comunicação como Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Brasil.
Ao longo da carreira, Hélio circulou por diversas mídias. Produziu e apresentou o programa Cinema de Segunda a Segunda, veiculado na Rádio da UFRGS. Publicou ainda os livros Cinema Brasileiro (1981, da Mercado Aberto) e O Reino da Imagem (2002, edição da prefeitura de Porto Alegre).
Também frequentou o Clube de Cinema de Porto Alegre e exerceu diferentes funções no Festival de Cinema de Gramado, onde foi homenageado na 50ª edição com o Troféu Gramado 50 anos, em 2022.
Hélio vai a sessões de cinema, mas sem o compromisso de acompanhar tudo o que o ofício de crítico exigia antes. Agora, seleciona apenas o que o interessa.
Assegura que são poucas películas, e apresenta provas. Desde os tempos de crítico, manteve o hábito de anotar todos os filmes que viu.
Assistiu ao blockbuster espacial Devoradores de Estrelas, com Ryan Gosling; à comédia algo polêmica O Drama, com Zendaya e Robert Pattinson; ao vencedor do último Festival de Veneza, Pai Mãe Irmã Irmão; e às mais recentes obras dos cineastas Pedro Almodóvar e Steven Spielberg: Natal Amargo e Dia D.
Não se empolgou por nenhum deles.
— Mas o do Spielberg é bem interessante, por ser uma espécie de antologia de sua obra — declara Hélio, sem dissertar muito a respeito.

Mesmo longe da crítica, Hélio enxerga uma crise criativa no cinema.
Se a gente tirar os filmes americanos de cartaz não vai ninguém ao cinema. E o cinema americano, nos últimos anos, está entrando em decadência. São só filmes infantis e de aventura.
HÉLIO NASCIMENTO
Ex-crítico de cinema
Para sustentar a avaliação, menciona o destino de alguns dos gigantes do século 20.
— Tirando o Spielberg quem mais tem? O Woody Allen não pode filmar, o Brian De Palma parou e outros diretores pararam também. Ou se aposentaram ou morreram — lamenta.
O ex-crítico assistiu ao filme brasileiro O Agente Secreto (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura. Porém, não achou nada de especial.
— Em primeiro lugar, quem é o agente secreto do filme? Ninguém sabe. Muito melhor é o Ainda Estou Aqui (vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025) — diverte-se.

Streaming, só para óperas
Hélio não assina nenhum serviço de streaming. Ao menos, por enquanto.
— Com os streamings e as séries, eu tenho um certo distanciamento. Eu sou dos resistentes, mas reconheço que algumas séries são muito boas, muito bem dirigidas e tal. Mas o streaming é uma coisa que eu não... Eu prefiro ir no cinema — resume.
O principal motivo é as séries exigirem muito tempo. Prefere aproveitar a aposentadoria lendo jornais, livros e ensaios, além de escutar música. Mas não é avesso à tecnologia: um de seus prazeres recentes é assistir a óperas e concertos no YouTube.
Hélio tampouco é um saudosista dos tempos do cinema de rua.
— Sempre vai ter gente que vai ao cinema, não vai desaparecer. Agora, não vai ser o que era antes, não vai ser o que era no século 20. O que vai fazer o cinema sobreviver é o som. Porque esses cinemas de shoppings são excelentes. São muito melhores do que os daquela época em que todos iam ao cinema — compara.
Os preferidos
Elencar os melhores diretores e filmes pode deixar de fora importantes referências cinematográficas. Entretanto, Hélio não esconde suas preferências. Tem na ponta da língua seu filme favorito.

— Gritos e Sussurros (1972, do sueco Ingmar Bergman). Sobre o ser humano, acho que o cinema nunca fez um negócio mais impressionante que aquilo — revela.
E na cinematografia nacional?
— Eu ainda acho Memórias do Cárcere (1984), do Nelson Pereira dos Santos, o melhor filme brasileiro. Ele foi feito no final da Ditadura Militar, mas se passa um pouco antes do Estado Novo (1937-1945). O final é muito bonito, tocando variações do Hino Nacional.
Ao falar de seus cineastas prediletos, Hélio relembra uma história que liga O Sétimo Selo (1957), de Bergman, a 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. No clássico do cineasta sueco, o cavaleiro Antonius Block (Max von Sydow) desafia a Morte (Bengt Ekerot) para uma partida de xadrez — uma das cenas mais célebres da história do cinema.
— Eu gosto muito de dois diretores: Ingmar Bergman e Stanley Kubrick. Fiquei feliz da vida quando li que o Kubrick era um grande admirador do Bergman, a ponto de lhe escrever uma carta de fã depois de ver O Sétimo Selo. E, quando estava fazendo 2001, pensou em homenageá-lo. Fez isso na cena em que o astronauta Frank Poole, interpretado por Gary Lockwood, joga xadrez com o computador HAL 9000 — detalha.
Talvez o maior legado de Hélio como crítico de cinema tenha sido incentivar o público a olhar para os filmes com o mesmo olhar atento que tem. Com atenção, indo além da superfície e percebendo detalhes que nem sempre são evidentes.
— Através do cinema conhecemos o mundo, as pessoas e os dramas. É como um romance ou a ficção de um modo geral. Eu devo muito ao cinema por causa disso — conclui.




