Porto Alegre tem uma "irmã" no Japão há quase 60 anos: Kanazawa. Essa relação fez com que um Laçador fosse parar em um parque japonês e uma lanterna de pedra passasse a ornar o Parque Moinhos de Vento, o Parcão.
Um decreto de 1967 declara Kanazawa, no litoral do Mar do Japão, cidade-irmã de Porto Alegre, levando em conta, por exemplo, o intercâmbio cultural que poderia ser feito.
No ano seguinte, uma via gaúcha ganhou o nome da nova parente: Estrada Kanazawa, na zona sul de Porto Alegre.
Por que existe um Laçador no Japão
Conforme a presidente da Associação dos Amigos de Kanazawa, em Porto Alegre, Carolina Bueno de Oliveira, uma figura de Laçador foi dada de presente à Kanazawa em 1995:
— Kanazawa estava montando uma praça das cidades-irmãs e eles precisavam que algo que representasse Porto Alegre.
Como acrescenta, uma réplica do presente fica nesta praça. Uma placa que acompanha a obra afirma que ali, no alto da colina, está "uma estátua que simboliza o gaúcho (vaqueiro)". Carolina não tem detalhes sobre a produção da obra.
O presente original está na entrada de um centro de treinamento, junto a um informativo que destaca a relevância dos clubes Grêmio e Inter na capital gaúcha.
Na praça das cidades-irmãs de Kanazawa, o formato do local destinado à homenagem a Porto Alegre — onde fica a figura do Laçador — teve como inspiração a Lagoa dos Patos, ressaltando o papel portuário da capital gaúcha. A suspeita, claro, é de que tenha ocorrido alguma confusão durante a escolha.
O que diz a família de Antonio Caringi
Procurada por Zero Hora, a família de Antonio Caringi, autor do Monumento ao Laçador, afirma que não foi consultada à época ou depois para que fosse produzida uma obra em referência à original.
Para Antonella Caringi, porta-voz do legado do avô, isso pode ter acontecido até mesmo por um desconhecimento. Mas ela ressalta:
— As obras dele se tornaram símbolos. (O Laçador) É uma obra que não está em domínio público.
Antonella ressalta que, há seis anos, começou a organizar o acervo do avô e a fazer um trabalho de educação patrimonial sobre o direito ao crédito do autor. Ela pontua que erros do passado servem de exemplo para mudanças no presente e no futuro:
— Para documentar o uso da obra de Antonio Caringi por toda e qualquer entidade, ou novos artistas que tanto se encantam com as obras de Caringi, que eles jamais esqueçam o dever de referenciar a autoria do original, que é único e símbolo oficial da cidade.
A história da lanterna japonesa no Parcão

Em 2017, em comemoração aos 50 anos da relação com Kanazawa, Porto Alegre recebeu um kotoji toro, um tipo de lanterna de pedra que é símbolo da cidade japonesa.
— Eles têm muito essa coisa de preservar a cultura tradicional. E essa lanterna remete ao pedaço de um instrumento tradicional, que é o koto, um instrumento de corda — explica Carolina.
A estrutura está no Parque Moinhos de Vento, próximo ao lago. E remete à existente no Jardim Kenrokuen, em Kanazawa, considerado um dos principais jardins do Japão.
Os bastidores da produção
Segundo a Organização Nacional de Turismo do Japão, a lanterna foi oferecida como símbolo de amizade não apenas a Porto Alegre, mas também às outras cidades-irmãs de Kanazawa: Buffalo (Estados Unidos), Irkutsk (Rússia), Nancy (França), Suzhou (China), Ghent (Bélgica) e Jeonju (Coreia do Sul).
Quem viu o presente ainda sendo construído em Kanazawa foi a engenheira mecatrônica gaúcha Gabriela Franco Barbosa, 46 anos. Durante uma viagem ao Japão em 2016, ela e o marido puderam visitar o ateliê.
— Eles fizeram questão de fazer com as técnicas manuais da época, porque eles levam isso muito em consideração, para reproduzir realmente uma réplica do kotoji toro — lembra ela.
Porto Alegre tem estrada com nome da "irmã"
A relação de Gabriela com a cidade japonesa começou em uma das edições do Festival do Japão RS. Ela viu informações sobre Kanazawa e desconfiou que era dali que vinha o nome da rua onde a família tem um sítio em Porto Alegre: Estrada Kanazawa.
A via ganhou esse nome em 1968. Antes, chamava-se Estrada Velha de Belém Velho. A lei determina que, além do nome, a placa de identificação contivesse os dizeres: "Cidade do Japão - irmã de Porto Alegre".
Como mostra documentação localizada pela Câmara Municipal de Porto Alegre a pedido de Zero Hora, a solicitação de mudança de nome da rua partiu do então prefeito Célio Marques Fernandes, atendendo à sugestão do vereador Adel Carvalho.
Entre as justificativas, Fernandes citou a homenagem à cidade e aos "filhos da Terra do Sol Nascente", assim como a demonstração de amizade. A escolha do local se relacionou, segundo ele, à ligação que a estrada faz de "bairros onde se acha concentrada a maioria da laboriosa e simpática colônia japonesa em nosso município".
Como surgiu a relação com Kanazawa
Os detalhes da história fazem parte da trajetória do antigo oficial de chancelaria Luiz Carlos Lessa Vinholes, músico, compositor e poeta de Pelotas.
Hoje aos 93 anos, ele explica ter notado que as relações com o Japão à época estavam baseadas exclusivamente em interesses econômicos, mas que havia espaço para trocas culturais.
— Eu tive a oportunidade de escrever o hino de uma pequena escola da cidade de Suzu (no Japão), do bairro de Otani. E, com isso, montei um esquema grande de aproximação daquela parte do Japão (banhada pelo mar) com o nosso Rio Grande do Sul. A primeira coisa foi justamente criar as primeiras cidades-irmãs: Pelotas e Suzu. Em seguida, aquilo repercutiu muito bem no Japão e eu entrei em contato com o prefeito de Kanazawa — lembra.
À época, Vinholes morava no Japão, e a passagem por Kanazawa era obrigatória para ir a Suzu. As notícias se espalharam e Kanazawa passou a ter interesse em ter uma cidade-irmã gaúcha. A ideia foi unir o município, que é capital da Província de Ishikawa, com Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
— Kanazawa e Porto Alegre tinham universidades, então eu sempre pensava: a universidade pode dar um pulo muito grande nessas coisas, porque ela tem departamentos específicos, tem pretensões diferentes e muito maiores. E eu sempre tinha esperança nessas coisas — acrescenta.
Essa amizade gerou impacto. Influenciou, por exemplo, na trajetória do porto-alegrense Vinicius Brum Bertoldo, 34 anos, que atua como coordenador de relações internacionais na prefeitura de Komatsu, na mesma província de Kanazawa. Ele também integra a Associação dos Amigos de Kanazawa, de Porto Alegre.
— O acordo de irmandade vai na onda pós-Segunda Guerra de estreitamento de laços internacionais e promoção da paz, esforço promovido por muitas cidades pelo mundo nessa época — pontua.
Do outro lado do mundo
A proximidade entre cidades que ficam em lados opostos do mundo se expressou, no passado, em encontros oficiais, doação de materiais e visitas de times infantis de futebol.
Conforme Vinicius Brum Bertoldo, Kanazawa tem promovido festivais anuais sobre as cidades-irmãs. Por parte de Porto Alegre, a associação de amigos e o Escritório Consular do Japão faz atividades em eventos voltados à cultura japonesa.
— Fora eventos, indivíduos que transitam entre os países pelas mais diversas razões se amparam no fato das duas cidades serem irmãs e, com isso, criam um pretexto para visitação — complementa.
No fim das contas, o antigo oficial de chancelaria Luiz Carlos Lessa Vinholes serviu de intermediário ou, na língua japonesa, um tipo de "nakodo" entre as cidades, como brinca que um dia o chamaram.





