A manobra de atracação de um navio de grande porte em um porto exige um trabalho em equipe. Trata-se do procedimento de "estacionar" a embarcação para o embarque ou desembarque de passageiros ou de carga.
O processo necessita do apoio de outras embarcações, conhecidas como rebocadores, pois os navios mais pesados e robustos normalmente não podem ser manobrados sozinhos. Um especialista local, conhecido como prático, sobe no navio para auxiliar o comandante na operação.
Zero Hora acompanhou a chegada do navio Port Alberni, com bandeira de Hong Kong, no cais de Porto Alegre no dia 28. Com 175,53 metros de comprimento e 29,40 metros de largura, o cargueiro da empresa Pacific Basin trouxe 10 mil toneladas de cevada de Nueva Palmira, no Uruguai, para uma empresa de bebidas. Antes de chegar à capital gaúcha, esteve em Cabedelo, na Paraíba, para descarregar malte (veja mapa abaixo).
Manobra com três rebocadores
A manobra de atracação acompanhada pela reportagem começa quando o navio chega a uma área do Guaíba sinalizada entre duas boias, nas imediações da Usina do Gasômetro. Três rebocadores da empresa Navegação Amandio Rocha (NAR) — denominados Almirante Tamandaré, Goiania e Cardiff — partem do cais da Capital em direção ao gigante dos mares.
O rebocador Almirante Tamandaré, que conduz a equipe de Zero Hora, posiciona-se na proa, a parte dianteira da embarcação. O Goiania auxilia na popa, a parte traseira, enquanto o Cardiff fica na lateral. Cada rebocador conta com três pessoas na operação: comandante, chefe de máquina e marinheiro de convés.
O comandante do Almirante Tamandaré, Silvio Roberto Padilha de Lima Medeiros, 45 anos, que descende de uma linhagem de marinheiros, explica que o navio não tem autonomia para fazer a manobra sozinho, o que poderia causar um acidente no cais ou avarias nas máquinas. Assim, os rebocadores têm a missão de manter a embarcação mais segura durante o processo.
Após mais de duas décadas participando dessas operações, Medeiros fala sobre a sensação de adrenalina ao ver de perto estruturas tão gigantescas:
— Colocar o rebocador na frente do navio é a mesma coisa que colocar um fusca na frente de um trem. Aquele frio na barriga nunca some.
Em direção ao Cais Navegantes
Assim que os três rebocadores se posicionam, um cabo é lançado da embarcação em direção ao Almirante Tamandaré. Um marinheiro pega o cabo com o auxílio de uma haste de metal chamada de croque.
Na sequência, prende o cabo na estrutura do rebocador conhecida como gato, que serve como ponto de ancoragem, transbordo e reboque. A partir desse momento, a operação segue em direção ao Cais Navegantes, onde o navio com 22 pessoas irá atracar.
Natural de Porto Alegre, o marinheiro Rodrigo Vescia, 26, está na atividade há oito anos. Também vem de uma família de marinheiros e sente orgulho do ofício. A bordo do Almirante Tamandaré, afirma:
— É bem gratificante poder participar dessa operação, que é tão grande para nós e para a economia do Estado.
Dificuldades da navegação
Para executar a operação, o prático Eduardo Bandeira Barboza, que atua na profissão desde 2017, viajou até o Porto de Rio Grande, na Região Sul, onde subiu no navio. Por rádio, durante a operação, explicou à reportagem as maiores dificuldades da navegação:
— A praticagem (serviço que conduz embarcações com segurança em portos, canais e estuários) é bem complicada, porque passamos por canais bem estreitos. É uma navegação longa, mas as dragagens feitas e as melhorias nos balizamentos têm ajudado muito o trabalho da gente.
O prático menciona que o canal da Feitoria e a entrada do canal de Itapuã merecem atenção especial. Além disso, diz que havia nevoeiro no percurso para a Capital.
— A navegação na Lagoa dos Patos em si é bem tranquila, porque ela é bem larga e permite o cruzamento com outras embarcações de maneira segura. O problema são os canais estreitos que ligam Rio Grande à lagoa. E depois da lagoa até Porto Alegre — explica.
Atracação durou uma hora
Então, o navio Port Alberni se aproxima do Cais Navegantes. Em terra, os homens sinalizam com uma bandeira o local para a embarcação atracar.
A manobra deixa o navio em posição paralela ao cais. O rebocador Cardiff encosta na lateral para auxiliar o processo. Na sequência, os outros dois fazem o mesmo. Cabos são arremessados do navio para as pessoas em terra, que o prendem no cabeço (pilar de amarração) do cais. O processo completo de atracação durou 57 minutos.
Importância para o Rio Grande do Sul
O diretor de Relações Institucionais da Portos RS, Sandro Boka, que também acompanhou o procedimento marítimo a bordo do Almirante Tamandaré, destaca o significado desse tipo de operação:
— É importante que a população tenha acesso a essas imagens (veja vídeo no topo), que são únicas e mostram a grandiosidade desse transporte que é fundamental para o Rio Grande do Sul, especialmente para a Região Metropolitana.
Após concluir o processo de descarga da cevada, o navio partiu no sábado (30), sem carga, em direção ao Puerto Bahía Blanca, na Argentina.



