Com andar trôpego, amparado em uma bengala de quatro apoios, o aposentado Antônio Chagas Motta, 90 anos, cruzou sobre os escombros das telhas caídas e puxou um pano da bolsa para tirar a poeira da placa instalada em frente ao coreto da Praça Piratini, diante do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Em cima do palco, um operário se preparava para ligar a britadeira que daria fim a um outrora charmoso espaço público do bairro Farroupilha, em Porto Alegre.
Palco de manifestações estudantis, rodas de violão, encontros apaixonados e, mais recentemente, ponto de tráfico e consumo de drogas, o coreto foi demolido pela prefeitura na manhã desta quarta-feira (10). Tão logo a notícia se espalhou, houve início de comoção em redes sociais e nas mensagens que chegavam ao WhatsApp da Rádio Gaúcha.
Moradores da região, ex-alunos do Colégio Júlio de Castilhos e até mesmo quem apenas circulava por ali de vez em quando demonstraram tristeza pela destruição de um recanto simbólico da região.
Eram 6h30min da manhã quando os servidores da prefeitura chegaram, acompanhados da Guarda Municipal. Quatro casais e um homem dormiam no local, há tempos ocupado por pessoas em situação de rua. Um deles era o guardador de carros Jerri Adriane dos Santos Gerard, o Puff, 38 anos. Vestindo bermuda, meias com chinelos, moletom e uma touca na cabeça, Puff estava inconformado.
— Chegaram gritando “levanta, levanta”. Levaram minhas coisas e agora não tenho para onde ir. Não quero ir para outro lugar, aqui fiz muitas amizades, tirei muita gurizada da rua. Afinal, um simples ato de caridade cura uma onda sem fim que retorna para você. Gentileza gera gentileza. Gostou? Essa frase é minha, do Puff, anota aí que não vou repetir — afirmou.
Com cerca de 100 metros quadrados, o coreto foi construído em 1987, como contrapartida pela implementação do então Centro Comercial João Pessoa, do outro lado da avenida de mesmo nome. Trata-se de um hexágono erguido com pedras, cujo palco fica a 80 centímetros do chão da praça. Colunas de ferro sustentavam as tesouras de madeira sobre as telhas de barro, numa estrutura que alcançava cerca de seis metros de altura.
A prefeitura afirma que a demolição atendeu a laudo técnico que teria identificado risco à segurança dos frequentadores. Em caminhada pelo local em 23 de maio, o prefeito Sebastião Melo recebeu queixas de moradores da região, por conta da elevada concentração de moradores de rua no coreto, com consumo e tráfico de drogas. Três semanas depois, o que restou da estrutura foi transportado em cerca de 20 contêineres papa-entulho.
Vice-diretor do Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, o professor Daniel Damiani, 39 anos, lamentou a destruição. Damiani lembra que que muitas manifestações estudantis tiveram início no pequeno palco de seis bordas, de onde os líderes dos alunos discursavam para mobilizar os colegas.
Damiani reconhece que, desde a pandemia, os moradores de rua haviam tomado conta do local, afastando de vez estudantes e membros da comunidade escolar. A direção da escola enviou vários alertas à polícia sobre o crescimento do tráfico de drogas no entorno. Na manhã desta quarta-feira, cerca de 15 minutos antes da chegada da prefeitura, um homem armado com uma faca perseguia outro numa correria pela praça.
— Está todo mundo triste. Tinha professores que davam aulas ali. Ficou complicado com o tráfico e os moradores de rua, mas é um retrocesso abrir mão de um equipamento público. O problema dos moradores de rua não será resolvido com isso — afirma o diretor.
Sentado em um dos bancos da praça, o aposentado Antônio olhava desamparado para o que restou do coreto. Ele havia chegado ao local por volta das 9h, para fazer “ginástica de velho” no Julinho. Ao concluir os exercícios, não conseguiu ir embora.
Olhava de uma lado, girava em torno dos escombros, parava, olhava de novo, os olhos rasos de tristeza. Por volta das 11h, com a britadeira acelerando a transformação do palco em caliça, ele pediu que não destruíssem a placa de pedra que informava a origem do coreto. Mas o funcionário da empreiteira contratada para o serviço disse que ela também seria triturada.

Leia abaixo a nota oficial da prefeitura
A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb) iniciou, nesta quarta-feira, 10, a desmontagem do coreto localizado na Praça Piratini, no bairro Farroupilha. A medida atende à recomendação de laudo técnico que identificou problemas estruturais na cobertura e na edificação, representando risco à segurança dos frequentadores do espaço.
A estrutura não possui tombamento nem integra o patrimônio cultural protegido do município, tendo sido construída em 1987 como contrapartida pela implementação do então Centro Comercial João Pessoa.
A intervenção foi solicitada durante o programa Mais Comunidade, realizado em 23 de maio na Região Centro do Orçamento Participativo (OP). A iniciativa reúne demandas da população relacionadas à zeladoria urbana, segurança e regularização fundiária, encaminhando as providências necessárias aos órgãos competentes.
Após a retirada da estrutura, o piso da área será recomposto, garantindo melhores condições de uso e circulação no local.


