
Um assado que foi diretamente para o Guinness World Records. Foi isso o que ocorreu no último 25 de abril, durante a quarta edição do Festival Internacional de Churrasco — o ExpoChurrasco, realizado no Jockey Club de Porto Alegre.
O evento contou com nada menos que 14 toneladas de carne, distribuídas em 60 estações gastronômicas, com cinco horas de degustação liberada. Naquele dia, cerca de 12 mil pessoas passaram pelo local — que também recebia o Ladies Day.
E o recorde veio a partir da decisão do idealizador do Expochurrasco, o médico veterinário Eduardo de Assis, 56 anos, de realizar o evento com o maior número de proteínas em um mesmo churrasco — foram 43. Foi um processo burocrático, que demandou meses de preparo até a validação.
Entrar para o Guinness foi uma nova conquista para o evento que renova seus desafios a cada ano. Em sua primeira edição, em 2023, serviu de palco para o lançamento do selo de Capital Mundial do Churrasco, desenvolvido pela prefeitura de Porto Alegre para fomentar o turismo na cidade.
Em 2024, o evento contou, pela primeira vez na história do Rio Grande do Sul, com uma etapa do campeonato mundial de churrasqueiros ancestrais. Já no ano passado, o Expochurrasco recebeu o Selo Verde Carbon Free Código Verde, entregue após um trabalho de reduzir o impacto negativo ecológico. Em 2026, chegou o Guinness.
Agora, temos que ver o que vamos fazer para 2027. Todo o ano, temos uma conquista. A única certeza, até agora, é que o evento será realizado novamente no Jockey Club e o assado será em 24 de abril, no Dia do Churrasco
EDUARDO DE ASSIS
Idealizador do Expochurrasco
Confira, abaixo, a entrevista completa com o idealizador do Expochurrasco.
Bateu água no dia do Expochurrasco e, mesmo assim, o evento seguiu e com o fogo acesso e grande público...
Tem uma frase do Ayrton Senna que diz: "Na adversidade, uns desistem, enquanto outros batem recordes". E foi um pouco do que aconteceu conosco no dia 25 de abril, desde a montagem, sob condições climáticas desfavoráveis. Para levantar todo o evento, a gente precisa de cerca seis dias. É uma verdadeira cidade do churrasco no Jockey Club.
No dia, tivemos cerca de 12 mil pessoas e parece que elas se adaptaram a essa instabilidade do clima e com o barro. Até tinha pessoal brincando que gaúcho não se mixa por causa de uma chuvinha. E os grandes eventos ao ar livre que temos no Estado sempre acontecem em um período de chuva, como a Expointer, o Planeta Atlântida, o Acampamento Farroupilha e, agora, o ExpoChurrasco.
A edição de 2026 foi a maior até agora?
Quando começamos, tínhamos 30 estações gastronômicas. Neste ano, foram 60 e em cada uma delas com um assador comandante, que é o chef celebridade. É com ele que eu seleciono a receita que vai ser apresentada no dia do Expochurrasco. E como é preciso servir muita gente, o assador precisa cerca de umas 15 pessoas na estação para auxiliar na produção, no corte, para poder servir o público.
A gente movimentou 960 assadores no evento. E desde o início procurei privilegiar a maior diversidade de pratos, de proteínas. E foi justamente essa ideia inicial que nos fez, esse ano, tentar o recorde do Guinness, como o evento com a maior diversidade de proteínas do mundo. E deu certo.
Posso dizer que o Expochurrasco é hoje o churrasco no qual é encontrada a maior variedade de carnes do mundo, considerando as nossas carnes tradicionais de bovinos, bubalinos, ovinos, ovelha, suínos, frango, junto com as exóticas, como o javali, o jacaré, o avestruz, a codorna, o coelho, o cabrito.
E esse critério de maior número de proteínas é o que mais evidencia o churrasco. Recorde de maior número de pessoas, maior bebida, maior número de carros... Isso não é churrasco. E certificado no Rio Grande do Sul, com recorde, é a só o Expochurrasco.

Como foi o processo para entrar no Guinness?
Existe uma preparação que começa uns três meses antes. Aí tu entras em contato com a instituição e eles te passam uma série de documentação que tu precisas organizar para que a tentativa seja aceita. Então, o recorde não nasceu por acaso, foi construído em cada detalhe. Foi desde a seleção dos chefs, que precisam ter curso de boas práticas. Depois, a escolha das receitas exclusivas, o fornecimento documentado dos estabelecimentos, que precisam ter licença do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e aprovação da vigilância sanitária.
Também tem que ter o acompanhamento profissionais da área de engenharia de alimentos e de gastronomia, que faz análise dos cortes que vão ser apresentados no evento, as técnicas de preparo. Tudo tem que ser validado. Essa documentação é enviada para a instituição, analisada e, uma vez validada, recebemos aqui os jurados.
Eis que passamos por uma validação conduzida por uma juíza adjudicadora, no caso, a Camila Borenstein, que acompanhou todo o processo. Ela faz um percurso de todas as estações para verificar se realmente as proteínas existem e tem o peso mínimo de cada proteína para ser aprovada. Tem que ter um uma quantidade mínima dos cortes. E se o assador não for legalizado, não conta nem a estação dele.
O recorde já sai na edição de 2027 do livro?
Agora, acho que o recorde demora uns 30 dias parra subir na plataforma do Guinness. Mas já recebemos as validações, está tudo ok com o nosso recorde. E, sim, na próxima edição do livro, o Expochurrasco vai estar. Inclusive, já nos pediram as fotos para isso. Foi um processo bem demorado, bem estudado e muito bem documentado.
Esse recorde, assim como o selo verde de Carbon Free que ganhamos no ano passado, agrega muito valor ao Rio Grande do Sul a Porto Alegre, que é a capital mundial do churrasco hoje. Hoje, essa notícia do Guinness está veiculada no mundo todo e colocando o foco na nossa cidade.

E como tu enxergas este grande momento do churrasco no Estado? Temos eventos, programas de televisão, influenciadores...
Há quatro anos, o churrasco não tinha esse visual que existe hoje. E o Expochurrasco, em 2023, ajudou muito nesse processo. Antes, no Rio Grande do Sul, tu ias em uma exposição agropecuária, em uma feira ver os animais, as máquinas e, então, os organizadores te serviam um churrasco. Só que o churrasco era coadjuvante da exposição, da feira.
Não existiam eventos dos quais o churrasco fosse o protagonista. Depois do ExpoChurrasco, já existem mais de 300 eventos de churrasco só no Rio Grande do Sul. E só dos encontros promovidos no Expochurrasco, hoje, já existem 80 empresas de serviços gastronômicos que se formaram e ganham receitas prestando serviço de churrasco, que está muito mais presente na vida das pessoas.
Hoje, vemos o churrasco saindo do tradicional assado no espeto e sendo preparado de diferentes formas, com a parrilla se tornando popular no dia a dia do gaúcho. Como tu vês este movimento?
O churrasco real é aquele que tu demoras para preparar, para degustar, que tu reúnes os amigos. E o Expochurrasco vem para entregar cinco horas de degustação, enfatizando essa característica do churrasco de ser demorado, com amigos, com a família.
E o modo do preparo do churrasco está sendo alterado. A geração um pouco mais experiente tinha o prazer de acordar, de ir no açouue, escolher as carnes, preparar cada corte, espetar as carnes, colocar na churrasqueira, esperar para assar com calma e tal. É a essência do churrasco.
Já a geração mais nova é mais imediatista, prefere comprar um pedaço já pronto, assar em uma grelha, mais fácil, mais rápido. O Expochurrasco entra nesse contexto: resgata as diversas modalidades de assar, incluindo as mais antigas, como o churrasco na vala, na churrasqueira de tijolos, o costelão 12 horas. Essa geração nova enxerga isso, que estava meio desapercebido, meio fora da vitrine. E, daqui a pouco, ela começa a se interessar por isso também.
Chamou a atenção a quantidade de estandes com mulheres assadoras...
Sim, durante o evento, misturamos diversas culturas para deixar o churrasco cada vez mais popularizado, mais democrático — inclusive, convidando cerca de mil pessoas que não teriam como participar, como idosos e mães de crianças atípicas. Tem um lado social que considero muito importante. Também preparamos milhares de refeições e distribuímos para pessoas da comunidade local.
Tivemos um estande para incentivar a doação de órgãos, e um para conscientizar sobre a violência contra a mulher. Quando as pessoas estão passeando por lá, a gente discretamente chama atenção para esses pontos que consideramos importantes
E esse aspecto de que, cada vez mais, temos mulheres assadoras. E de muita categoria. Neste ano, trouxemos 10 parrilleras internacionais, vindas da Argentina, Uruguai, Chile, México, Peru e Equador, que comandaram a estação Internacional Mulheres do Fogo. Tivemos também mulheres brasileiras. Mesmo na chuva, elas não se mixaram. Mostraram que não dependem dos homens para fazer o churrasco. E fizeram muito bem, um espetáculo.
