Dois murais artísticos serão inaugurados ao ar livre em endereços distintos, neste sábado (16), às 14h, em Porto Alegre (confira, mais abaixo, como visitar).
A obra do artista e produtor cultural Lucas Bairros estampa a fachada lateral de uma casa do Loteamento Santa Terezinha, popularmente conhecido como Vila dos Papeleiros, no bairro Floresta.
Já o painel de autoria do artista Munrha, morador da Vila dos Papeleiros, ocupa o muro do pátio do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC RS), a alguns metros dali, na Rua Comendador Azevedo.
As obras de arte fazem parte do projeto LAB. Presença: tinha um jacaré na minha rua, que integrou a comunidade da Vila dos Papeleiros e do Museu de Resgates, situado no mesmo território, e do próprio MAC RS.
Os murais foram criados depois de mais de 20 de encontros e experiências trocadas entre as equipes dos museus, artistas e as crianças do Instituto Restaurar, projeto social criado por Maira Amorim, moradora da comunidade.
Jacaré avistado na enchente
O projeto LAB Presença existe desde 2023 e foi desenvolvido pela primeira vez na Vila Bom Jesus. A proposta visa trazer pessoas afastadas do circuito artístico, especialmente jovens da periferia, para um circuito de oficinas e atividades com a proposta de aproximar esse público do funcionamento de um museu.
— Em 2024, o MAC RS e o Museu de Resgates começaram a conversar sobre fazer uma parceria. A nossa sede fica a seis minutos de caminhada da Vila dos Papeleiros. Então, fizemos o LAB Presença com o Museu de Resgates e escrevemos pelo PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) para arrecadar o valor para criar o projeto mais estendido — explica a coordenadora do Setor Educativo do MAC RS, Daniele Alana.
O subtítulo do projeto — tinha um jacaré na minha rua — tem relação com uma das crianças da Vila dos Papeleiros, que avistou um jacaré na rua onde vivia durante a enchente de maio de 2024. No mural do MAC RS, o jacaré foi retratado em destaque. Marcas das mãos de crianças podem ser vistas, assim como peças em cerâmicas, mapas e outros detalhes que remetem ao imaginário infantil e às memórias da enchente.
Homenagem a líder comunitário
O segundo painel, que fica no Loteamento Santa Terezinha, foi desenhado na parede da casa do líder comunitário Antônio Carboneiro, que também preside a Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (Arevipa).
Na obra, o hoje cadeirante foi retratado junto a um carrinho de reciclagem. Trata-se de uma homenagem a uma das figuras mais conhecidas e respeitadas na comunidade.
— São dois murais onde as crianças participaram ativamente. Tem as mãozinhas marcadas e pintadas. O legal desse projeto é sobre a disponibilidade de todo mundo. Abrimos o museu fora do horário de funcionamento em todas as quintas-feiras, desde setembro do ano passado, das 18h30min às 20h30min. Ontem (quinta-feira, 14), foi nosso último encontro — detalha Daniele.
O diretor do Museu de Resgates da Vila dos Papeleiros, Cristiano Sant'Anna, explica que o espaço de três pisos guarda peças encontradas durante 15 anos de trabalho do reciclador Jacson Carboneiro, filho do líder comunitário.
O Museu de Resgates preserva desde moedas e cédulas em papel de dinheiro antigo, livros, equipamentos de filmagem e câmeras fotográficas, chaves, relógios de pulso e despertadores, além de obras de arte descartadas pelos ex-proprietários.
— O projeto LAB. Presença: tinha um jacaré na minha rua se constitui em uma série de oficinas. Plantamos 17 árvores na vila, fizemos oficinas de fotografia, de escrita e de desenho. É o trabalho em processo ao longo de um ano. Fizemos algumas exposições. No meio do caminho, o Instituto Restaurar entrou para trabalhar junto de nós.
Nesta sexta-feira (15), o líder comunitário Antônio Carboneiro não escondia a emoção em frente ao mural na lateral de sua casa. A participação das crianças foi mencionada pelo retratado.
As crianças são o futuro do Brasil. Quem sabe na minha vila não tem um futuro presidente da República? Só dentro da vila, as crianças não aprendem nada. Mas quando saem para outros lugares aprendem um monte de coisas. Quando elas estão no MAC RS é como um colírio para os meus olhos
ANTÔNIO CARBONEIRO
Presidente da Arevipa, homenageado em mural
Os vizinhos que passavam pela obra de arte paravam para observar e elogiavam a beleza. O artista Lucas Bairros descreve o que pensou durante seu processo de criação.
— Temos a figura muito forte do seu Antônio, um personagem emblemático para a comunidade. E na parte do LAB, na hora de fazer a amarração, explorei muito a parte das oficinas com as crianças. Temos elementos em cerâmica e um ponto de fuga, em que elas observam aquela imagem e objetos em 3D sendo projetados para fora da parede. No painel verde, que remete a um fundo de cromaqui (técnica que consiste em gravar um objeto ou pessoa em frente a um fundo de cor sólida), trazemos as fotografias e brincamos com elementos de colagem — detalha o artista.
Para Bairros, a arte tem que sair desse ambiente canônico e institucional.
— Que ela (a arte) possa ser descentralizada e distribuída em outros locais. A arte urbana, o grafite e o muralismo têm uma coisa muito democrática. É um museu ao ar livre, desconstruído dessa estrutura engessada — conclui.
O projeto tem financiamento do Pró-Cultura RS, da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) e realização do Ministério da Cultura.
Como visitar:
- Quando: sábado (16), às 14h
- Local de encontro: Mural da Vila dos Papeleiros (Rua Perdigão, 26), em frente ao Museu de Resgates. Na sequência, os participantes seguirão até o MAC RS (Rua Comendador Azevedo, 256)
- Entrada: gratuita



