Cerca de uma hora em uma trilha na zona sul de Porto Alegre leva até um ponto curioso conhecido como Toca do Sapateiro. O local, envolvido por lendas, fica no Morro do Osso.
Os caminhos por ali são guiados pela equipe do Parque Natural Morro do Osso ou por condutores externos autorizados a fazer os trajetos.
Cientificamente, o "buraco" é considerado uma paleotoca — tocas feitas por animais do passado. As estruturas remontam ao pleistoceno, período geológico que durou de 2,5 milhões de anos atrás até 11,5 mil anos atrás.

Em diferentes pontos de Porto Alegre, há registros de tocas semelhantes.
— Algumas, principalmente as maiores, atribuímos a preguiças gigantes (de três a quatro metros de altura). As menores são atribuídas a animais do grupo dos tatus (que podiam chegar a 1,5 metro de altura) — explica o biólogo e professor de Paleontologia Heitor Francischini.
🥶 "A Era do Gelo"
O pleistoceno foi caracterizado por um período glacial. Filmes como A Era do Gelo retratam, justamente, esse momento.
Segundo Francischini, que também é diretor do Museu de Paleontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essa era a época de grandes geleiras e animais como mamutes no Hemisfério Norte, da vinda dos primeiros hominídeos para a América do Sul e da presença de animais como preguiças gigantes no Hemisfério Sul.
Na capital gaúcha, como esclarece, não havia gelo, mas o clima era mais frio e seco.
— Quando o pleistoceno acaba, entramos em um momento que chamamos de interglacial, que é quando começamos a ter o derretimento dessas geleiras, um aquecimento global e o planeta vai tomando a cara que tem hoje — acrescenta.
Essa mudança no ambiente é uma das hipóteses para a extinção dos animais responsáveis pelas paleotocas. Outra linha também fala sobre a caça feita por humanos.
🦥 Como é a toca
Hoje, o que se vê na Toca do Sapateiro são dois buracos subterrâneos. Cada um tem cerca de 12 a 14 metros, segundo Josimar Antunes Appel, chefe da Unidade de Proteção do Ambiente Natural da Secretaria de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) de Porto Alegre.
Não é possível entrar nos buracos, exceto em casos de pesquisa, que devem ser autorizados previamente.
Conforme a equipe da prefeitura que acompanhou Zero Hora, esses dois espaços seriam como galerias dentro da toca, que antes tinha apenas uma entrada. Essa entrada, possivelmente, desmoronou.
— Dentro de cada um desses buracos tem tipo um salãozinho, que é onde provavelmente os animais dormiam — complementa Josimar.
🕵️ Soldados, santos e crime
Há pelo menos 50 anos, quem entrou na toca foi José Carlos Machado Batista. Hoje aos 61 anos, ele trabalha na manutenção do parque, mas, quando criança, brincava por aquelas terras.
— Era uma toca que tu subia um buraco e caía para dentro. Era um salão e tinha tipo um altar. Não sei o que o pessoal fazia, mas tinha esses santos que se despacham e estavam quebrados ali naquele altar. Brincávamos ali dentro. Eu era guri, tinha uns 10 anos — conta.
Ele lembra de conseguir ficar em pé dentro do "salão", que era redondo. O que o morador também tem na memória é de chamar o local, ainda quando pequeno, de Toca do Sapateiro.
Uma das histórias que circulam sobre o nome, como destaca Josimar, é de que um sapateiro teria cometido um crime e, para fugir da polícia, teria se escondido na toca, mas sido encontrado. Esse relato também é resgatado por Pedro Sabino, 74 anos, gestor ambiental do parque:
— Eu fui criado dentro de barbearia, meu pai era barbeiro. E, em barbearia, se conta muita história (risos). Essa era uma das histórias.
De acordo com uma pesquisa feita sobre o Parque Natural Morro do Osso, o ponto é conhecido como Toca dos Índios entre a etnia kaingang.
Mas, para além do nome, outras lendas circundam o local. Uma delas indicaria que os buracos foram escavados na Revolução Farroupilha e que os soldados se escondiam e até andavam de cavalo por ali. Há quem diga também que a toca leva a algum outro ponto ou até mesmo ao Palácio Piratini. Outras histórias falam que um escoteiro teria ficado perdido dentro da toca e, por conta disso, os buracos teriam sido tapados por grades em certo momento.
⛰️ Parque é unidade de conservação
O Morro do Osso foi transformado em área de preservação ecológica em 1979. O parque natural, uma das quatro unidades de conservação de Porto Alegre, foi criado em 1994, garantindo proteção integral da área.
A vegetação alta que hoje chama a atenção, tempos atrás sequer existia. Como explica Josimar, antes de ser decretado como área protegida, o morro teve plantio da acácia negra com fins comerciais. Embora sendo exótica, no fim das contas, a planta ajudou na fertilização do solo e serviu de poleiro para aves, que trouxeram sementes nativas para a área.
— Com o tempo, em alguns locais, fizemos o controle da acácia, eliminamos, e aí ficou uma mata nativa mais jovem, que hoje temos no parque. Em outros locais aqui do morro esse processo se deu naturalmente — complementa.
A vegetação mescla características dos biomas pampa e mata atlântica, um dos motivos para o morro ter sido transformado em unidade de conservação. E em frente à Toca do Sapateiro, fica um segundo motivo, de acordo com Josimar: um dos exemplares da planta canela-preta, ameaçada de extinção.
🥾 O caminho até a toca
- O Parque Natural Morro do Osso está localizado na Rua Irmã Jacobina Veronese, no bairro Sétimo Céu
- Atualmente, duas trilhas são possíveis na área. Uma delas passa pela Toca do Sapateiro, é voltada à educação ambiental e precisa ser agendada pelo e-mail ucs@portoalegre.rs.gov.br
- A outra não passa pela toca, mas tem entrada liberada e leva até uma vista completa da cidade de Porto Alegre a uma altura de 145 metros
- O parque fica aberto de terça a sexta-feira (das 8h às 17h) e aos sábados e domingos (das 8h às 18h)
